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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Rádio Voz da Ria, 30 anos (1987-2017)


Rádio Moliceiro (Pardilhó)

Rádio Moliceiro (Pardilhó)

Em meados da década de 80 proliferaram em Portugal as rádios piratas, e em Estarreja não foi diferente. A certa altura o Estado decidiu aceitar a sua legalização, contudo atribuindo alvará a apenas uma rádio por concelho. Em Estarreja legalizou-se a Rádio Voz da Ria, Emissora Concelhia CRL, resultante da fusão de duas rádios piratas de gente jovem:

a) A Rádio Moliceiro, que funcionava agregada à Associação Saavedra Guedes (Pardilhó), desde 10.6.1986;

b) A Rádio Antena Livre, depois designada Rádio Horizonte, iniciada por três estudantes do 11.º ano, da Escola Secundária de Estarreja, e que funcionava na Casa do Povo de Estarreja, desde o início de 1985.

Agregaram-se mais tarde à Rádio Voz da Ria a Rádio Cultural de Salreu (1985), a Rádio Independente de Salreu (1985) e a Rádio Selecção de Cacia. Também existiram no concelho a Rádio Antuã (1985), em Salreu, e a Rádio Voz de Salreu (1988?).

Em 20.6.1987 ocorreu a assembleia da fundação da Rádio Voz da Ria, nos Bombeiros Voluntários de Estarreja, resultante como se disse da fusão da Rádio Moliceiro e da Rádio Horizonte. As emissões regulares começaram em 4.7.1987, sendo então a Rádio uma cooperativa com 109 sócios dos concelhos de Estarreja e Murtosa, com estúdios em Estarreja e Pardilhó.

A Rádio viveu dificuldades várias ao longo destes 30 anos, que cedo se fizeram sentir. Teve também sucessos, do que se pode destacar a inauguração das actuais instalações, no início do ano 2000, substituindo as que se encontravam no lado oposto da Praça Francisco Barbosa, por cima do Café Brasília, lado nascente.

Manteve sempre uma postura independente, com programação diversificada de interesse local e não apenas colocando a rodar selecções musicais, para ocupar a grelha de programação. Refiram-se os noticiários, os programas de interesse cultural e social ou os programas desportivos.

A Rádio Voz da Ria é, por tudo isto e muito mais, um órgão de comunicação social estarrejense incontornável e precioso.

O Jornal de Estarreja, n.º 4806, 26.5.2017, p. 2

História d'O Jornal de Estarreja




Uma história de 134 anos, contada em poucas linhas, omite necessariamente muitos nomes importantes, assim como os mais diversos factos e acontecimentos que mereciam ser assinalados. É por isso que apenas uma suave sombra dessa história aqui fica, com várias lacunas. Um jornal com 134 anos de vida é também, para além da sua própria história, uma fonte privilegiada para pesquisar a história do concelho de Estarreja, ao longo deste período.

O “Jornal de Estarreja” saiu pela primeira vez com a data de 12.04.1883, pela mão de Caetano Ferreira e para defesa do Partido Progressista, tendo sido publicado até 1887.

Diga-se que no contexto dos actuais concelhos de Estarreja e Murtosa apenas três jornais foram publicados no século XIX: o “Boletim da Torreira” (1853), “O Jornal de Estarreja” (1883 e ss., contando com “O Gafanhoto” e o “Estarrejense”) e “A Voz de Estarreja” (1885-1888). “O Jornal de Estarreja” foi, pois, o primeiro a publicar-se no actual concelho de Estarreja, sendo hoje um dos mais antigos de Portugal em publicação.

Em 10.04.1887 José Mortágua publicou em Estarreja o primeiro número de um jornal humorístico, chamado “O Gafanhoto”. Este pequeno periódico evoluiu para “O Estarrejense” (1888-1889), ao qual sucedeu “O Jornal de Estarreja” (1890 e seguintes), ocupando o espaço então vago de noticiar os assuntos do concelho de Estarreja. O jornal ainda estava nas mãos de José Mortágua quando este faleceu, em 1906.

Carlos Alberto Costa, que trabalhava n’“O Jornal de Estarreja” desde criança, comprou-o em 1907 a Manuel Valente de Almeida e Silva, dando-lhe continuidade até falecer, em 1956. Carlos Alberto Costa, com experiência de colaboração com outros periódicos, empenhou-se em fazer sair um jornal independente e defensor dos interesses locais. Por várias vezes viu suspensa a sua publicação, que era o ganha-pão com o qual sustentava a família, e foi julgado e preso por defender intransigentemente os interesses da terra, o que continuou a fazer mesmo depois do 28 de Maio de 1926. Entre as causas advogadas pelo jornal sob a sua direcção contam-se: a construção do hospital, a criação de uma corporação de bombeiros, e a defesa da integridade concelhia (1926-1928), muito contribuindo para a devolução de Pardilhó ao concelho de Estarreja. No rescaldo deste episódio a Câmara Municipal mudou o nome da Rua das Amoreiras, onde funcionava a tipografia do jornal, para Rua do Jornal de Estarreja, mais tarde perdendo e recuperando a nova designação, que se mantém hoje. Numa casa desta rua manteve o jornal a sua redacção, desde 1926 a 1977/78, onde era composto manualmente letra por letra, e impresso com prensa à moda antiga. Suspensa a publicação de “O Jornal de Estarreja” em diversas ocasiões, por razões políticas, saiu temporariamente com título de “O Estarrejense” (1919, 1927-1928). Entretanto Carlos Alberto Costa iniciou a publicação de outro periódico, designado “O Jornal de Cambra”, a partir de 1931. Ambos os títulos eram produzidos na tipografia própria, de onde saíam diversos trabalhos tipográficos e em algumas ocasiões jornais de outros editores.

Com o agravar do estado de saúde de Carlos Alberto Costa em 1950, e o seu falecimento em 1956, sucedeu-lhe na direcção de “O Jornal de Estarreja” e “O Jornal de Cambra” o seu filho, Dr. Eduardo Costa, que contava com a colaboração técnica do seu irmão Adalberto Costa e de outros trabalhadores. O Dr. Eduardo Costa, director de “O Jornal de Estarreja” entre 1956 e 1977, que era advogado, foi também professor e director da Escola Secundária de Estarreja, gerente do Grémio da Lavoura de Estarreja e vereador na Câmara Municipal de Estarreja. Para além disso, presidente da direcção dos Bombeiros Voluntários de Estarreja, do Clube Desportivo de Estarreja, do Centro Recreativo de Estarreja e investigador da história local, com estudos publicados nos jornais e nas revistas “Arquivo do Distrito de Aveiro” e “Aveiro e o Seu Distrito”.

Ao Dr. Eduardo Costa, falecido em 1977, sucedeu na direcção de “O Jornal de Estarreja” o seu filho, Dr. Eduardo Carlos Costa, e poucos números depois o Dr. Norberto Costa, que embora com o mesmo apelido já não pertencia à família. Seguiram-se depois tempos difíceis para o jornal, que inclusive não se publicou num curto período. O jornal e as suas instalações foram entretanto adquiridos por uma sociedade, cujos sócios estavam ligados ao Partido Social Democrata. Acabaria por deixar a antiga casa, onde este partido mantém hoje a sua sede, deixando também de ter tipografia própria. Seguiram-se como directores o Dr. Dario Matos e o Professor Artur Castro Tavares, que foi igualmente proprietário, como os sucessores, terminando a ligação directa à política. Este último deu impulso ao jornal, que voltou a ser semanário e aumentou o número de páginas.

Nos últimos anos “O Jornal de Estarreja” tem sido dirigido pela Dra. Andreia Tavares (2004-2012) e agora pela Dra. Joana Sousa (2013). Um sinal dos tempos, pela primeira vez a história do jornal escreve-se no feminino e com formação académica na área do jornalismo.

In O Jornal de Estarreja, n.º 4803, 13.4.2017, p. 2