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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Morreu José Bento, o nome maior da literatura estarrejense

(Palestra de José Bento, no Rotary Club de Estarreja, 1997)


Poeta e tradutor, José Bento de Almeida e Silva Nascimento nasceu em Pardilhó, em 17 de Novembro de 1932. O seu percurso literário divide-se pela poesia e sobretudo pela tradução de literatura em língua espanhola, da qual foi grande divulgador em Portugal. Aliás, segundo o poeta e tradutor espanhol Francisco Brines, a obra que José Bento realizou é «a mais completa de tradução do espanhol para qualquer língua». Profissionalmente foi alguns anos professor do Ensino Secundário e trabalhou para várias empresas, na sua área de formação, contabilidade, da qual publicou igualmente diversos livros. Morreu aos 86 anos de idade no dia 26 de Outubro de 2019, Sábado, no Hospital Amadora-Sintra, onde se encontrava internado. A notícia foi divulgada pelos principais órgãos de comunicação portugueses, tendo já merecido uma mensagem de pesar do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

De temperamento particularmente discreto, nunca procurou e por isso não conheceu notoriedade junto do grande público. Dele disse José Saramago que era «um homem discreto, tímido», avesso a aparições públicas. Contudo um dos grandes nomes das letras portuguesas, reconhecido pelas maiores autoridades na matéria, que lhe atribuíram vários dos principais prémios literários, tanto em Portugal como em Espanha, sendo inclusive distinguido pelo Presidente da República Portuguesa e pelo Rei de Espanha. Recebeu, entre outros, o Prémio de Tradução do Pen Clube Português (1985 e 2005; também o de Poesia em 1992), o Grande Prémio Internacional de Tradução Literária, da Associação Portuguesa de Tradutores (1986, 2005), a Medalha de Ouro de Mérito das Belas Artes (1991, concedida pelo Rei de Espanha), a Ordem do Infante D. Henrique (1992, agraciado pelo Presidente da República Mário Soares), o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus (1992), o Prémio de Tradução Paulo Quintela, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (2002), o Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura (2006 – 1.ª edição), o Prémio Luís Miguel Nava (2013) e o Prémio Cervantes, atribuído pelo governo espanhol, reconhecendo a sua actividade como tradutor. O Prémio Hispano-Luso de Tradução, da Junta da Extremadura e da Associação de Escritores Extremenhos (Espanha), recebeu em 2006 o nome de José Bento, em sua homenagem.

A sua obra de poesia encontra-se dispersa por revistas de poesia, desde a década de 1950, e em vários livros, entre os quais se destacam o “Silabário” (1992, reunindo a sua obra poética), “Um sossegado silêncio” (2002), “Alguns Motetos” (2003, organizado e prefaciado pelo agora Cardeal José Tolentino de Mendonça) e “Sítios” (2011). Principalmente conhecido como tradutor de inúmeras obras literárias da língua espanhola, incluindo-se três grandes “Antologias de Poesia Espanhola” (1985, 1993/1996, 2001) e “O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha” (2005).

Embora residisse na área da Grande Lisboa, nunca esqueceu a terra natal, Pardilhó. Nasceu em 1932 na casa dos avós paternos, situada na Rua Maurício de Almeida, próxima da loja da Feliz. Muito jovem começou a mostrar talento literário, com os primeiros artigos publicados no jornal local O Concelho de Estarreja e escrevendo uma marcante peça de teatro de revista, de costumes regionais, intitulada “Padas de Pardilhó” (1950). Embora esta peça de teatro fosse um interessante retrato de época da freguesia, José Bento renegava-a como escrito imaturo da juventude e sublinhava ter sido escrita em co-autoria. No fim da vida afirmou várias vezes o desejo de vir a ser sepultado em Pardilhó, junto dos seus familiares.


In 
O Jornal de Estarreja, n.º 4868, 15.11.2019, p. 2

A pneumónica, ou gripe espanhola, em Estarreja (1918-1919)


Numa altura em que os noticiários falam diáriamente do sarampo, recordamos uma pandemia que faz este ano um século. A maior pandemia da história da humanidade (nem a Peste Negra vitimou tanta gente), a penumónica, mais conhecida por gripe espanhola, ocorreu há 100 anos, entre 1918 e 1919. Actualmente, as estimativas mais optimistas e pessimistas oscilam entre os 50 e os 100 milhões de pessoas mortas em todo o mundo, sobretudo jovens. Os mortos, porém, terão sito apenas 2,5 % dos infectados, podendo a pandemia ter atingido metade da população mundial. A origem da penumónica ainda hoje é controversa, contudo a sua primeira manifestação conhecida ocorreu nos Estados Unidos da América. Ficou injustamente conhecida por gripe espanhola, devido à divulgação que dela fez a imprensa deste país, que não participou na 1.ª Grande Guerra. Pelo contrário Portugal e outros países silenciaram, ou censuraram, a mortandade causada pela penumónica.

Chegou a Portugal em Maio de 1918, manifestando-se mais brandamente até Julho desse ano. Entre Agosto e Dezembro de 1918 decorreu uma vaga mais violenta no país, causando neste período a grande maioria das mortes. Novamente as estimativas oscilam, entre as 60 e as 120 mil mortes no país, principalmente pessoas jovens, entre os 20 e os 40 anos. Entre as vítimas mortais encontram-se nomes conhecidos, como os dois pastorinhos videntes de Fátima, Francisco e Jacinta Marto. Estava então a terminar a Grande Guerra, que não vitimou tanta gente, e nas vésperas de passar por Estarreja a Monarquia do Norte. Portugal vivia assim uma trilogia de “fome, peste e guerra”, com a escassez de bens alimentares, a pneumónica e a Grande Guerra.

A maioria dos estarrejenses de hoje poderá ter familiares que foram vítimas mortais da gripe espanhola. Entre os registos paroquiais e civis de óbito encontra-se a identificação de uma boa parte dessas vítimas, embora nem sempre os registos indiquem a causa da morte. Os jornais locais, designadamente O Jornal de Estarreja e O Concelho de Estarreja, publicaram na época várias notícias sobre o flagelo. Transcrevem-se aqui duas notícias d’O Jornal de Estarreja, datadas de Dezembro de 1918, reveladoras do que se passou no concelho.

Marco Pereira


«A epidemia
Algo tem decrescido na villa a epidemia da influenza pneumonica, continuando, porém, a grassar com alguma intensidade n’alguns logares do concelho.
Em Santo Amaro ha um caso da morte d’uma famila inteira, a de «José Cego».
No Bunheiro está agora a manifestar-se.
É impossivel darmos os nomes de assignantes e amigos que teem sido atacados e felizmente teem escapado.
Os que escapam ao terrivel mal teem muito que contar!
Os estragos causados pela gravissima epidemia n’este concelho são verdadeiramente aterradores.»
O Jornal de Estarreja, n.º 1626, 8.12.1918, p. 3

«A epidemia no concelho
Movimento demografico
Não queremos, pelo que é de horroroso, nem podemos pela falta de espaço, dar a lista dos mortos que desde Outubro tem havido neste concelho.
Apenas em resumo diremos que no mez de Outubro houve 294 obitos e no mez de de novembro 319 e que durante os nove mezes antecedentes de 1918 houve menos obitos do que n’estes dois ultimos mezes.
Eis o movimento demographico do concelho dos referidos mezes:
OUTUBRO
Nascimentos 73
Casamentos 20
Obitos 294
NOVEMBRO
Nascimentos 74
Casamentos 15
Obitos 310
Vê-se, pelo obituario da 1.ª quinzena do mez corrente, que a epidemia vae decrescendo sensivelmente em todo o concelho.»
O Jornal de Estarreja, n.º 1627, 15.12.1918, p. 3

In
O Jornal de Estarreja, n.º 4828, 6.4.2018, p. 2

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Rádio Voz da Ria, 30 anos (1987-2017)


Rádio Moliceiro (Pardilhó)

Rádio Moliceiro (Pardilhó)

Em meados da década de 80 proliferaram em Portugal as rádios piratas, e em Estarreja não foi diferente. A certa altura o Estado decidiu aceitar a sua legalização, contudo atribuindo alvará a apenas uma rádio por concelho. Em Estarreja legalizou-se a Rádio Voz da Ria, Emissora Concelhia CRL, resultante da fusão de duas rádios piratas de gente jovem:

a) A Rádio Moliceiro, que funcionava agregada à Associação Saavedra Guedes (Pardilhó), desde 10.6.1986;

b) A Rádio Antena Livre, depois designada Rádio Horizonte, iniciada por três estudantes do 11.º ano, da Escola Secundária de Estarreja, e que funcionava na Casa do Povo de Estarreja, desde o início de 1985.

Agregaram-se mais tarde à Rádio Voz da Ria a Rádio Cultural de Salreu (1985), a Rádio Independente de Salreu (1985) e a Rádio Selecção de Cacia. Também existiram no concelho a Rádio Antuã (1985), em Salreu, e a Rádio Voz de Salreu (1988?).

Em 20.6.1987 ocorreu a assembleia da fundação da Rádio Voz da Ria, nos Bombeiros Voluntários de Estarreja, resultante como se disse da fusão da Rádio Moliceiro e da Rádio Horizonte. As emissões regulares começaram em 4.7.1987, sendo então a Rádio uma cooperativa com 109 sócios dos concelhos de Estarreja e Murtosa, com estúdios em Estarreja e Pardilhó.

A Rádio viveu dificuldades várias ao longo destes 30 anos, que cedo se fizeram sentir. Teve também sucessos, do que se pode destacar a inauguração das actuais instalações, no início do ano 2000, substituindo as que se encontravam no lado oposto da Praça Francisco Barbosa, por cima do Café Brasília, lado nascente.

Manteve sempre uma postura independente, com programação diversificada de interesse local e não apenas colocando a rodar selecções musicais, para ocupar a grelha de programação. Refiram-se os noticiários, os programas de interesse cultural e social ou os programas desportivos.

A Rádio Voz da Ria é, por tudo isto e muito mais, um órgão de comunicação social estarrejense incontornável e precioso.

O Jornal de Estarreja, n.º 4806, 26.5.2017, p. 2

O Mercado Municipal de Estarreja

Padeiras no antigo mercado da Praça de Estarreja (Arquivo Municipal de Estarreja)

Data de 1812 a criação pela Câmara Municipal de Estarreja do mercado, aos domingos de manhã, na praça de Estarreja. Testemunham-no as actas camarárias e um documento do Desembargo do Paço, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, este respeitante a preocupações do Mosteiro de Arouca, donatário da terra. Realizou-se assim, ao longo do século XIX, um mercado aos domingos de manhã, aproximadamente na actual Praça Francisco Barbosa, mas também um pequeno mercado diário, mais vocacionado para os alimentos frescos. É o que informam, entre outros, o Inquérito Industrial de 1865, o Código de Posturas Municipais de 1879 e o Anuário Comercial de Portugal, nos últimos anos do século.

No ano de 1911 o mercado, que até então era aos domingos, passou a realizar-se às quintas-feiras e domingos, conforme informava nesse ano o jornal O Concelho de Estarreja e deve constar nas actas camarárias coevas. Esclarecia em meados do século XX o Anuário Comercial de Portugal que às quintas-feiras havia o mercado geral, enquanto o domingo estava reservado para um mercado próprio e especialmente agrícola. O Jornal de Estarreja noticiava em 1954 que, a partir de Março desse ano, mudariam os dias de realização do mercado, passando a fazer-se às terças-feiras e aos sábados, dias que se mantiveram até hoje.

O projecto do actual mercado de Estarreja é de 1960, da autoria do Arq. António Linhares de Oliveira, do Porto, autor dos projectos de outros edifícios no centro do concelho, que nesta época conheceu profundas alterações urbanísticas. Na verdade, a aquisição da Quinta dos Temudos em 1952, pela Câmara Municipal, serviu o propósito da construção do actual mercado, das Casas dos Magistrados e do Quartel da GNR. Construíram-se ainda as instalações dos Serviços Municipalizados e uma nova rua principal (a actual Avenida 25 de Abril), ficando reservados terrenos para o Quartel dos Bombeiros Voluntários de Estarreja, ampliação dos CTT e um hotel-restaurante, entre outros edifícios, e planeando-se já um Parque Municipal.

A obra do novo mercado, noticiada com profundidade n’O Jornal de Estarreja, constava de seis pavilhões e incluía instalações frigoríficas. Foi adjudicada em 1961 ao empreiteiro Luís Costa, vindo a inaugurar-se em 14.6.1964. Presidia então a Câmara Municipal o Dr. Fernando Elísio Pinto Gomes. Os alimentos frescos (carne, peixe, legumes, ovos, fruta e aves) ocuparam o novo espaço, mas a feira ainda continuou por algum tempo na Praça Francisco Barbosa.

Vem isto a propósito da remodelação do mercado de Estarreja, recentemente iniciada, encerrando temporariamente a Avenida 25 de Abril e por 12 meses (previstos) o mercado, que transitoriamente fica a funcionar no Multiusos (antiga piscina) e estacionamento do Pavilhão Municipal. Entre as principais alterações projectadas foi noticiada a demolição do corpo sul do mercado coberto.

FEIRAS E MERCADOS DAS FREGUESIAS

Na freguesia de Beduído, além do mercado municipal acima descrito e da Feira de Santo Amaro, já abordada noutra ocasião, fez-se em tempos na Areosa uma pequena feira de gado bovino. Sabe-se que a feira de Nossa Senhora da Conceição, na Areosa, era realizada a 7 de cada mês em meados do século XIX, ocorreu igualmente nos dias 8 e finalmente nos dias 9. Era nos dias 9 que se fazia quando foi extinta, em 1901, integrando-se na Feira de Santo Amaro, que passou então a bi-mensal.

Entre o centro de Avanca e o largo de São Sebastião da mesma freguesia, alternou uma pequena feira de gado bovino, nos dias 2 de cada mês, durante a segunda metade do século XIX e início do século XX. Depois de extinta por longos anos, ainda se tentou reactivar em 1928, mas acabou por extinguir-se novamente. Sucedeu-lhe a feira dos 19 no largo de São Sebastião, em 1962, que no ano seguinte a Junta de Freguesia pretendeu instalar num terreno entre as estradas de Santo André e da Aldeia, e acabou por funcionar no mesmo local que o mercado.

Cabe dizer que o mercado de Avanca, às quartas-feiras, começou por realizar-se no largo da igreja, junto à capela de Santo António, desde 1928, e poucos anos mais tarde passou a fazer-se às quartas e às sextas-feiras. Nesse local permaneceu até à década de 1960.

Outras feiras e mercados, há muito extintos, houve em Avanca. A Memória Paroquial de 1758 dá conta da existência de uma feira a 30 de Dezembro, no terreiro da capela de Santo André, que era um «arraial de géneros comestíveis, caixas de madeira, carros e outras coisas de lavoura». Por outro lado inaugurou-se uma feira/mercado em 1919, em Água Levada, nos dias 19 de cada mês, que deve ter tido curta duração.

Os dias dos santos padroeiros foram já dias de feira em Fermelã (29 de Setembro, São Miguel) e em Salreu (11 de Novembro, São Martinho). Nesta última freguesia aceitou a Câmara Municipal que se fizesse uma feira de gado, nos dias 5 de cada mês, no lugar da Senhora do Monte, iniciada em 1914 e que pouco tempo deve ter durado.

Tem Pardilhó ainda hoje um mercado, aos domingos de manhã. Segundo o Pe. Ismael Matos, em 1888 a Junta de Freguesia deliberou sobre o local da venda do peixe à semana, que devia ser o mesmo do domingo. Sinal de que o mercado já se fazia. Sabe-se que em 1903 realizava-se no actual largo da igreja (nascente) mercado diário e maior ao domingo. Só muito recentemente o mercado se mudou do largo da igreja para a sua localização actual, em 2001, sendo o novo espaço inaugurado em 2003.

Mencionou o Dr. José Tavares ter a Câmara Municipal extinguido em 1858 uma feira de gado efémera em Pardilhó. Mais duradoura foi a Feira dos 9, criada em 1911, que passou a ser feita nos dias 9 e 23 a partir de 1927, por determinação da Câmara de Ovar. Mudada esta feira de gado do centro da freguesia para a Quinta do Rezende terminou, como as demais em Portugal, na década de 1980.

Refira-se finalmente que se fez um mercado do peixe em Veiros até finais do século XVIII, que se mudou para Pardelhas a fim de evitar o pagamento dos tributos devidos ao Mosteiro de Arouca.

As feiras de gado terminaram, em Estarreja e em Portugal, na década de 1980. Continuam hoje activos os mercados de Estarreja, Avanca e Pardilhó.


In O Jornal de Estarreja, n.º 4798, 3.2.2017, p. 2

terça-feira, 13 de junho de 2017

Ribeira do Telhadouro



Moliceiro em Pardilhó (postal de 1913).

A primeira referência escrita a Pardilhó consta de um caderno de pergaminho, com datação aproximada de 1346-1357, hoje à guarda do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Consiste numa lista de casais e herdades do Mosteiro de Arouca, na terra de Antuã e Avanca. Aí se mencionam, entre as propriedades de Avanca, o casal do Talhadoyo e marinha do Talhadeiro, que devem referir-se ao Telhadouro de Pardilhó. Vestígios das velhas marinhas de sal que por ali terão existido no século X.


In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016

Ribeira do Nacinho



Ribeira do Nacinho (2016).

Durante a Primeira República construíram-se aqui vários lugres, destinados à pesca do bacalhau. O mais célebre foi o José Estevam, cujo bota-a-baixo ocorreu em 1921 e pescou por conta de uma sociedade de pardilhoenses, a Empresa Industrial de Pardilhó. A sociedade possuía uma seca de bacalhau perto da ribeira da Aldeia (o nome de uma rua guarda essa memória), mas poucos anos durou e terminou com prejuízo, devido a um acidente sofrido pelo lugre perto da Terra Nova.

Com as obras recentes deixou de se ver o sítio da Praia do Bispo, que se diz dever o nome a D. Manuel Maria Ferreira da Silva (1888-1974), o único bispo natural de Pardilhó.

In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016

Ribeira da Tabuada

 Ribeira da Tabuada (2016). 

Uma das várias ribeiras de onde partiam os agricultores para a Marinha de Ovar e as vendedeiras para o mercado diário de Ovar, práticas que no fim do século XIX constituíram pretexto para esse concelho tentar anexar a freguesia de Pardilhó.

A Marinha de Ovar, Tijosa e Torrão do Lameiro começaram a ser ocupados na segunda metade do século XIX por agricultores de Pardilhó, que ali viviam e trabalhavam à semana, mas vinham ao fim-de-semana à freguesia de origem abastecer-se de víveres e cumprir os preceitos religiosos. O mesmo sucedeu com as Quintas, a Norte da Torreira, povoadas por agricultores de Pardilhó e Bunheiro.

In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016

Ribeira das Bulhas

Ribeira das Bulhas na década de 1990.


Possuindo uma fonte junta, era considerada em 1917 a segunda ribeira mais movimentada de Pardilhó. Ficam-lhe próximos os dois últimos estaleiros navais activos de Pardilhó, o do mestre António Esteves e, mais além, o do mestre Felisberto Amador. 

In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016  

Ribeira das Teixugueiras

Ribeira das Teixugueiras na década de 1990.


O lugar das Teixugueiras foi um dos primeiramente habitados de Pardilhó, ali se referindo no século XVI o cultivo de milho e trigo. Era então um dos principais lugares da freguesia, confirmando a regra dos primeiros habitantes se estabelecerem junto da laguna.
 
In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016  

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ribeira da Aldeia (Pardilhó)





Carga e descarga de materiais de construção e outras mercadorias (postal da década de 1960); Procissão de S. Pedro de 1973; Parque de merendas e parque infantil (2016).


Desagua aqui a regueira da Tranqueira, escoante das águas que se juntam durante o inverno no Canedo de Além.

No início do séc. XX construíram-se na ribeira da Aldeia varinos e fragatas, destinados ao rio Tejo. E em 1956 fundou um estaleiro naval Manuel Dias Bastos, a quem deu continuidade até há poucos anos José Duarte da Silva (Pitarma), com Diniz Tavares de Matos, construindo e reparando barcos de recreio em madeira. Está hoje abandonado e ameaçando ruína o velho barracão em madeira, um dos últimos testemunhos dos vários antigos estaleiros navais de Pardilhó, localidade que acolheu no Estado Novo a sede do Sindicato Nacional dos Carpinteiros Navais do Distrito de Aveiro, abrangendo a Figueira da Foz.

Foi aqui a principal porta de entrada e saída de pessoas e bens de Pardilhó, ligando a freguesia a toda a região lagunar. A partir de 1973 e durante alguns anos a procissão do S. Pedro de Pardilhó seguiu até à Aldeia e ali também se festejava o S. Paio dos Ógados em Setembro.

Na década de 1990 abriu um café numa construção em madeira, posteriormente melhorada e ampliada, assim como as instalações desportivas da secção de canoagem da Associação Saavedra Guedes. Mais recentemente foram realizados outros melhoramentos: um parque de merendas, parque infantil e parque de caravanas.

In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016

A Região Marinhoa

No contexto da Ria de Aveiro a Terra Marinhoa foi a primeira a formar-se, por aluvião. Com a deposição de areias pelo mar, formando progressivamente o cordão litoral, a Ria deixou de comunicar com o mar no séc. XVII. Nos documentos históricos os contornos da região só se começam a compreender-se com rigor nos pitorescos mapas do fim do séc. XVIII, relacionados com a abertura da barra artificial, que só viria a ocorrer em 1808. Ria de Aveiro é pois uma expressão imprópria aplicada a uma laguna, um braço de mar que sofre o efeito das marés e possui água salobra, com pequenos tentáculos ou canais navegáveis que serpenteiam pelas terras circundantes, as ribeiras. Entre os peixes de maior valor gastronómico encontram-se aqui a enguia (antigamente pescada ao candeio com uma fisga, de noite), o sável e a lampreia. Ocasionalmente entram golfinhos na laguna. E estacionam por estas paragens mais de 150 espécies de aves, do que são exemplo a cegonha, garças, águia-sapeira, guarda-rios e flamingos.

Toda a economia tradicional depende da Ria de Aveiro, que funcionava antigamente como primeira via de comunicação ou auto-estrada natural. A pesca e a apanha do moliço (para fertilização do solo, que produz sobretudo milho) foram as principais actividades de outros tempos, tendo possuído grande tradição a construção naval, particularmente em Pardilhó. Embarcações típicas da região são os moliceiros (o ex-libris regional), mercantéis, bateiras e barcos de mar. Por aqui se construíram também varinos e fragatas destinados ao rio Tejo, bem como lugres para a pesca do bacalhau. Amorim Girão definiu esta gente anfíbia, por analogia ao que escreveu Platão sobre o Mediterrâneo, como um agrupamento humano «assim como rãs em volta de um pântano». Assim é. Em tudo dependem da Ria, que lhes deu o viver e, quando o não deu, os forçou a abandonar a sua característica casa de alpendre e migrar.

In
Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016;
Ribeira de Mourão” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Avanca/Ventos da Ria, Junho de 2016.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

180.º aniversário da igreja de Pardilhó




A actual igreja de Pardilhó veio substituir outra mais antiga que ficava um pouco a poente, na curva onde se vira para a Quinta do Rezende, onde ainda se encontra uma pedra de granito com a data de 1740 inscrita, juntamente com as chaves de S. Pedro. Essa primeira igreja ter-se-á edificado no século XVII, possivelmente sendo a ampliação de uma mais antiga capela de S. Pedro.

Em 1798 iniciaram-se esforços para obter os fundos necessários à construção da actual igreja, que se concretizou num terreno de pinhal ligeiramente elevado, próximo da anterior. A aquisição desse terreno pela Confraria do Santíssimo Sacramento, a entrega da obra ao empreiteiro e o início da construção ocorreram no ano de 1812. Os trabalhos prolongaram-se no tempo, devido a vicissitudes várias, passando pelas mãos de dois empreiteiros diferentes: António da Silva, de Pardilhó, e Manuel Lourenço Afonso, de Avanca.

Terá sido no dia de S. Pedro de 1835, faz agora exactamente 180 anos, que foi inaugurada a actual igreja de Pardilhó, a fazer fé no testemunho inscrito pelo pároco de então no Livro do Registo Paroquial: «Baptizados na Igreja Nova desta Freguezia de S. Pedro de Pardilhó em q se Celebrou pela p.ra vez em dia de S. Pedro de 1835 são os seguintes» (Arquivo Distrital de Aveiro, Registos Paroquiais de Pardilhó, Lv. 13, fl. 55v). Segue-se no livro o assento de dois baptismos, realizados nesse mesmo dia, os primeiros na actual igreja. Embora continuassem obras na igreja durante anos, pode-se dizer que a sua inauguração ocorreu no dia de S. Pedro de 1835.

Dias depois, em 2 de Julho de 1835, celebrou-se o primeiro casamento na nova igreja. Já os funerais, que antes eram feitos na igreja velha ou na capela de Santo António, foram pela primeira vez realizados no cemitério em 28 de Julho de 1835, dando execução à nova lei que instituiu essa mudança. Assim, a nova igreja não chegou a acolher enterramentos, embora tenha sido construída preparada para isso, sendo hoje das poucas que mantém intocados os seus taburnos, isto é, o piso dividido em sepulturas. O primeiro cemitério de Pardilhó, que durou cerca de um século, ocupava o espaço entre a antiga e a actual igrejas, no que hoje chamamos o jardim de baixo.

Na imagem que aqui se reproduz vê-se o centro da freguesia de Pardilhó tal como era no ano de 1892, estando à esquerda a antiga capela de Santo António (demolida em 1926), a igreja actual inaugurada como se disse em 1835, entre ambos os templos o celeiro do dízimo do Mosteiro de Arouca (que deixou de lhe pertencer em 1848 e foi demolido em 1906) e a poente o cemitério velho, que durou entre 1835 e 1938, quando foram removidas as últimas ossadas. À direita lê-se uma referência a “Casa d’Escola”, que é a escola do Pe. José Lopes Ramos, onde fez a instrução primária Egas Moniz. A imagem provém da planta do “Lanço de Estrada de Areia do Gonde ao Bunheiro” (1892), um projecto para reforma e alargamento da estrada, até aí um caminho apertado cheio de curvas, que se encontra no Arquivo Municipal de Estarreja.

Posteriormente a igreja de Pardilhó teve obras em várias ocasiões, de reparo ou melhorias, sendo de referir as ocorridas entre 1967 e 1969, dando-lhe o aspecto que hoje tem, por dentro e por fora.

De tudo isto se trata com mais pormenor no meu livro “História do Centro Paroquial e da Paróquia de Pardilhó”, editado em 2012 pelo Centro Paroquial de Pardilhó, que ainda o tem à venda, revertendo todo o produto da venda para a obra social do Centro Paroquial.

In O Concelho de Estarreja, n.º 4275, 23.6.2015, p. 3

sábado, 7 de setembro de 2013

A Terra Marinhoa na Idade Média - Actual freguesia de Pardilhó

O jornal “O Povo de Pardilhó”[1] publicou em 1939 uma carta de Miguel de OLIVEIRA[2], onde este transcrevia parte de uma lista de casais e herdades da terra de Antuã e Avanca, existente num caderno de pergaminho[3]. Embora não estivesse datada fazia-se referência às abadessas D. Luca e D. Guimar, sabendo-se que a segunda exerceu esse cargo entre 1346-1357. Miguel de OLIVEIRA aludiu ao mesmo documento em “Ovar na Idade Média”, pp. 63, 184-185, com base no qual acrescentou que o Mosteiro de Arouca tinha em Antuã propriedades em Avanca (casal do Talhadoyo e marinha do Talhadeiro, que devem ser no Telhadouro de Pardilhó), e no lugar de «Pardilhoo» (ou «Pardelhoo») possuía cinco casais e uma herdade das Chãs e do Cavalo, e outra do Castelão. Entre os reguengos menciona-se Trabelhadouro. O original indicava-se ser do ANTT, mas não possuiria cota, razão dada pelo autor para a não mencionar. O texto publicado era o que segue:

«Pardilhoo ha hy quatro casaaes em huum deles mora D.ª Steuez e en outro mora Martim Spada e en outro mora D.º Eannes e en no outro mora Migºlho (?) destes casaaes am de dar de cada huum o quinto de que laurarem tam bem pam como milho e de foro bj soldos e biij dinheiros e huma galinha e meo cabrito e alm(ude) de trigo despadoa e huum sesteiro de mel e pam que laurarem. Esto he rreguengo e nam da outro foro nem teem carta e darem loytosa.

Item em este logar de pardelhoo ha outro casal en que mora Domingos Giraldez E a de dar o quinto do que laurar e de foro quatro soldos e huum capom e huum almude de pam segundo Esto tem per carta pera ssy e pera sua jeeraçom.

Item Este Domingos Giraldez trage outra erdade que chamam das Chaãs e do Caualo pera ssy e pera suas pessoas e a de dar a vj parte e meo foro de pardelhoo.

Item ha hy huum casal que chamam do Cartelão e a de dar tantos foros...».

Na procura pela lista original para a consultar, e dela extrair o que fosse de interesse para Pardilhó e demais freguesias da região, fomos encontrar no ANTT um volume com letra praticamente ilegível e que mal se vê, mas que se percebe ser da época em que foi abadessa D. Guiomar Mendes de Vasconcelos[4], pelo que poderá ser a fonte utilizada por Miguel de OLIVEIRA. Noutro volume igualmente não datável, mas em que a abadessa se chamava Isabel, lê-se «aldea de Pardelho»[5], na Terra de Antuã.

O lugar das Chãs e do Cavalo, na lista acima, fica para nascente das Teixugueiras. Em 1709 aparece mencionada a Ribeira das Chans, sita em Pardilhó[6].

De um litígio ocorrido entre o Mosteiro de Arouca e Pedro Afonso, filho de Afonso Denis de Pardelho (sic), a respeito de um casal de Estarreja, deu-se sentença em 23 de Dezembro de 1455[7].

Atento o Numeramento de 1527, tinha a «Aldea de Pardelho e sua juradia» 20 vizinhos[8].

Tem-se contado que em 1638 iniciou-se a construção da primeira igreja de Pardilhó[9]. Porém há notícia da «Freguezia de Pardilhó e Bunheiro», num Tombo dos Votos da Feira do século XVI[10], o que leva a crer ter sido anterior a instituição da paróquia. Nesse texto, onde o nome da povoação por vezes se escreve Pardelho, só nela existem os lugares de Pardelho, Fonte e Teixugueiras. Este último, pela frequência e quase exclusividade com que consta nos registos mais antigos, deverá ter sido um dos primeiros e mais importantes lugares de Pardilhó a serem habitados. Com ele o do Telhadouro, que está logo no documento acima aludido de 1346-1357[11].



[1] Actual “O Concelho de Estarreja”.
[2]
“O Povo de Pardilhó”, n.º 613, 7.1.1939, p. 1 (carta integrada na secção do jornal “Subsídios para a História de Pardilhó”, art. n.º 110, do Pe. Ismael Matos).
[3]
O mesmo excerto da lista foi por nós novamente publicado, segundo a cópia de Miguel de OLIVEIRA, em “O Concelho de Estarreja”, n.º 4174, 21.1.2007, p. 4.
[4]
ANTT, Mosteiro de Arouca, vol. 219.
[5]
ANTT, Mosteiro de Arouca, vol. 10, fl. 43.
[6]
AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 281v.
[7]
ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 1, n. 25.
[8]
“Arquivo Histórico Português”, vol. VI, 1908, pp. 275.
[9]
Gonçalo António TAVARES DE SOUZA, “Exame da questão sobre os foros do convento de Arouca…”, p. 11; e no mesmo sentido Miguel de OLIVEIRA (“Ovar na Idade Média”, p. 189) e outros autores.
[10]
ADP, Cabido, vol. 788, fl. 160 (cópia de 1781); ref. em “Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto”. 2.ª Série, vol. 5/6, 1987/8, p. 28.
[11]
Encontra-se também uma menção não datada mas do final do séc. XVI, escrito «Chão do Talhadouro» (AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 277).


In A Terra Marinhoa na Idade Média, Junta de Freguesia de Veiros, 2010, pp.48-50

sábado, 9 de março de 2013

Centenário da Feira dos 9


No início do século XX o centro de Pardilhó era um espaço acanhado, e não o vasto largo que hoje conhecemos. Já então ali se fazia um pequeno mercado diário e maior ao domingo, onde se vendiam bens diversos, principalmente peixe. Havia ainda uma rápida feira de porcos aos domingos de manhã, clandestina, após a primeira missa.

No triângulo de cima, próximo do coreto actual, existia um celeiro e uma capela com a invocação de Santo António. O celeiro pertencera em tempos ao Mosteiro de Arouca, e era um dos locais onde os nossos antepassados depositavam os foros, isto é, parte do que produziam na agricultura, para pagar senhor da terra que era o dito Mosteiro. A partir de meados do século XIX este celeiro deixou de ter préstimo, pois a implantação definitiva da Monarquia Liberal, com a vitória do rei D. Pedro sobre D. Miguel, extinguiu diversos antigos privilégios, como os que o Mosteiro de Arouca possuía nas terras de Antuã. Com o rodar dos anos, o celeiro do centro de Pardilhó entrou em degradação, até que acabou por ser demolido em 1906. Surgiu então a ideia de criar uma feira de gado no terreno deixado livre e no envolvente, espaço que foi terraplanado nessa altura. A capela de Santo António só foi demolida em 1926, o que ocasionou alguma polémica na freguesia.

Também no centro de Pardilhó, mas na parte de baixo (triângulo do cruzeiro) esteve instalado o cemitério da freguesia, de onde em 1938 a Junta de Freguesia removeu as ossadas existentes para o actual, que tinha sido inaugurado incompleto em 1933. Após a remoção das ossadas, o terreno do antigo cemitério foi terraplanado, deixando livre um espaço central.

Foi neste contexto que nasceu a “Feira dos 9”, no centro de Pardilhó. Aproveitando o terreno deixado livre pela demolição do celeiro em 1906, e ainda acanhada por entre a capela de Santo António e o cemitério, que haviam de durar por alguns anos, respectivamente até 1926 e 1938.

Por iniciativa da Junta de Freguesia de Pardilhó, realizou-se pela primeira vez em 9 de Abril de 1911 uma feira de gado, que começou por ser frequentada pelas pessoas das freguesias vizinhas. Ali se vendia principalmente gado bovino, além de suíno e algumas mercadorias, como as fazendas. A experiência da nova feira correu bem e esta cresceu, ficando conhecida por “Feira dos 9”, por ser o dia do mês em que se realizava.

Na sequência de alguma instabilidade política existente, nos primeiros tempos após a revolução do 28 de Maio de 1926, Pardilhó pertenceu durante ano e meio ao concelho de Ovar. Foi a Câmara Municipal de Ovar que, a pedido da Junta de Freguesia de Pardilhó, decidiu que a “Feira dos 9” passasse a realizar-se duas vezes por mês, nos dias 9 e 23. Assim, houve pela primeira vez “Feira dos 23” no dia 23 de Março de 1927. Todavia a feira no dia 23 sempre foi mais pequena que a do dia 9.

Ambas decorriam durante o período da manhã, e quando calhassem ao domingo passavam para o sábado. Estas feiras geravam bom lastro para equilibrar os cofres da Junta de Freguesia.

 
No dia 23 de Junho de 1970 a “Feira dos 9 e dos 23” realizou-se pela primeira vez na Quinta do Rezende, tomada de arrendamento pela Junta de Freguesia à Misericórdia de Estarreja. Ficou assim desocupado o largo da igreja, que pouco depois teve algumas obras. A feira deixou de se fazer na década de 1980, devido a um surto de peripneumonia no gado.

Como no passado dia 9 de Abril de 2011 se completaram exactamente 100 anos da primeira “Feira dos 9”, lembrei-me de a evocar neste artigo, esperando que possa interessar a alguns conterrâneos e reavive memórias de quem a conheceu.


O Concelho de Estarreja, n.º 4225, 19.4.2011, p. 4.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

História Administrativa de Estarreja

Desde a Idade Média até ao século XIX o mapa administrativo de Estarreja manteve-se quase inalterado. Originalmente o concelho de Estarreja chamava-se Antuã, e tinha a sua sede no lugar deste nome da actual freguesia de Salreu. Com a mudança das casas do poder administrativo, judicial e tributário para o lugar de Estarreja, ainda na Idade Média, este nome foi a pouco e pouco substituindo o de Antuã. O concelho de Antuã, depois chamado de Estarreja, era pertença do Mosteiro de Arouca desde 1257, e compunha-se das seguintes freguesias: Avanca (menos uma terça parte que pertencia à Feira, e uma nesga a Bemposta), Beduído (menos a zona de Santiais que era de Bemposta), Salreu (menos duas terças partes, de Bemposta), Pardilhó, Bunheiro, Veiros e Murtosa (salvo a metade correspondente aos lugares de Pardelhas e Ribeiro, pertencentes a Bemposta). As freguesias inteiras de Canelas e Fermelã pertenciam também a Bemposta.
 
A freguesia enquanto unidade administrativa não existia, sendo o concelho o mais pequeno poder civil. É de resto o que ainda acontece no resto da Europa, mas em regra com municípios mais pequenos que os nossos. A ideia de freguesia tinha apenas aplicação na administração da Igreja, de onde lhe vinha o nome, e por isso fazia sentido que as freguesias pudessem pertencer em metades a concelhos diferentes, pois a divisão civil era uma e a eclesiástica outra. Na sua dimensão eclesiástica a freguesia de Santa Marinha de Avanca exercia a autoridade sobre as filiais de S. Pedro de Pardilhó e S. Mateus do Bunheiro, cujos curas dependiam hierarquicamente do Reitor de Avanca. Por seu turno o Reitor de Santiago de Beduído exercia autoridade sobre os curas de S. Bartolomeu de Veiros e N. S.ª da Natividade da Murtosa. S. Martinho de Salreu tinha o seu próprio Prior. Em S. Miguel de Fermelã um Reitor estendia a autoridade sobre os curas de S. Tomé de Canelas (originalmente foi um lugar de Fermelã) e N. S.ª das Neves de Angeja. A Torreira era, eclesiástica e civilmente, um lugar de S. Cristóvão de Ovar e do concelho com o mesmo nome. Eram pois totalmente distintas as fronteiras civis e eclesiásticas. Uma aldeia ou povoação correspondia em regra a uma unidade eclesiástica, e identificava-se mais com a ideia de comunidade à qual os cidadãos sentiam pertencer. Diferentemente, o concelho era o agregar de vários territórios, muitas vezes com realidades geográficas distintas. O povo via a divisão civil (municipal) com distância, no papel de fisco e julgador.
 
O século XIX foi fértil em reformas administrativas, que entre outros aspectos seriam responsáveis pela criação de uma unidade civil abaixo do concelho – a freguesia -, criada, extinta, voltada a criar, e alterada sucessivas vezes ao longo desse século. Em regra o seu território foi decalcado do da unidade eclesiástica (paróquia). Umas vezes tinha uma Junta de Paróquia eleita, outras vezes era dirigida por inerência pelo pároco. Após a implantação da República e ao longo das décadas seguintes, a mais pequena unidade administrativa passou a ser apenas conhecida por freguesia, assim se designando em todos os diplomas legais da actualidade. Do ponto de vista eclesiástico usam-se os nomes freguesia e paróquia, com preferência pelo segundo, no intuito de distinguir da unidade civil. Embora na generalidade dos casos as fronteiras civis e eclesiásticas coincidam, existem paróquias com mais de uma freguesia, e freguesias com mais de uma paróquia. É o que sucede com a freguesia da Murtosa, onde cabem as paróquias de N. S. da Natividade da Murtosa e S. Lourenço de Pardelhas, ou da freguesia de Ovar, com as paróquias de S. Cristóvão e S. Pedro.
 
Com o quadro que se anexa ficam sumariadas algumas das principais alterações administrativas respeitantes ao concelho de Estarreja, dos séculos XIX e XX, que para o bem e para o mal tiveram como consequência última os actuais concelhos de Estarreja e Murtosa, assim como as suas freguesias.



HISTÓRIA ADMINISTRATIVA DE ESTARREJA (sumário)
1833 – D. Pedro, sitiado no Porto, determina que os concelhos se componham de freguesias inteiras: «O Reino de Portugal e Algarves é dividido em Provincias, estas em Comarcas; as Comarcas em Concelhos; e estes comprehendem uma, ou mais Freguezias por inteiro»;
1833 – Estarreja passa a ser uma das comarcas da vasta Província do Douro (distritos do Porto, Aveiro e Coimbra), abrangendo 9 concelhos: Angeja, Sever, Estarreja, Estêvão, Macieira de Cambra, Oliveira de Azeméis, Páus, Pinheiro da Bemposta, Frossos;
1834 – Estarreja é uma das 15 comarcas da Relação do Porto. No actual distrito de Aveiro apenas existiam as comarcas da Feira, Aveiro e Estarreja;
1835 – Criam-se poderes nomeados e eleitos para os Distritos, Concelhos e Freguesias. O governo escolhe o Governador Civil e o Administrador do Concelho, e este último nomeia o Comissário de Paróquia, todos considerados magistrados administrativos. Por outro lado a Junta Geral de Distrito, Câmara Municipal e Junta de Paróquia, são todas constituídas por cidadãos eleitos;
1835 – Julgado de Estarreja passa a incluir as freguesias da Branca e Salreu (parte), desanexadas de Bemposta, e os lugares da freguesia de Avanca pertencentes aos concelhos de Oliveira de Azeméis e Bemposta;
1835 – Julgado de Ovar perde as costas de S. Jacinto e do Prado, anexadas a Aveiro e Ílhavo;
1835 – Julgado de Albergaria-a-Velha passa a incluir as freguesias de Canelas e Fermelã, desanexadas de Bemposta;
1835 – Freguesia da Murtosa passa a pertencer integralmente ao concelho de Estarreja;
1835 – Torreira passa de Ovar para concelho de Estarreja;
1836 – Lei define que «A Freguezia toda pertencerá ao Julgado, em que estiver situada a Igreja Parochial»;
1836 – No distrito de Aveiro só existem 3 comarcas: Águeda, Aveiro (inclui Estarreja) e Feira;
1836 – Cria-se de novo o concelho de Angeja, que agora além da própria freguesia passa a incluir as de Frossos, Canelas e Fermelã;
1840 – Comarca de Estarreja composta pelos concelhos de Estarreja e Bemposta;
1841 – Criados os Juízos de Paz de Avanca (Avanca, Pardilhó), Bunheiro (Bunheiro e Veiros), Murtosa (Murtosa), Salreu (Beduído e Salreu), Angeja (abrange Canelas e Fermelã);
1854 – As freguesias de Canelas e Fermelã, que constituem o Julgado de Paz de Canelas, passam a pertencer ao concelho de Estarreja; suprimido o concelho de Angeja, as freguesias de Angeja e Frossos são integradas no de Albergaria-a.Velha;
1854 – A costa do mar a sul da Barra, pertencente a Ovar, passa novamente a pertencer a Ílhavo;
1855 – Costa da Torreira novamente desanexada de Ovar, passando a lugar da freguesia da Murtosa e concelho de Estarreja, com efeitos administrativos e judiciais. A fronteira da Torreira estabelece-se por duas linhas tiradas de nascente para poente, pelas extremidades norte e sul do concelho de Estarreja;
1855 – S. Jacinto novamente integrado em Aveiro (freguesia de Vera Cruz), e Costa Nova integrada em Ílhavo;
1855 – Extingue-se o concelho de Bemposta. As freguesias que pertenceram em tempos ao concelho de Bemposta dividem-se hoje, na sua maior parte, pelos concelhos de Oliveira de Azeméis e Albergaria-a-Velha;
1856 – Torreira anexada à paróquia da Murtosa, para efeitos eclesiásticos, após a anexação civil no ano anterior;
1867 – Decreto-Lei, que parece não ter chegado a ser executado, agregava várias freguesias, assim criando as novas de: Avanca (Avanca e Loureiro), Beduído (Beduído e Veiros), Murtosa, Pardilhó (Pardilhó e Bunheiro), Salreu, e Fermelã (Canelas e Fermelã). Esta nova de Fermelã (Canelas e Fermelã) era anexada ao concelho de Albergaria-a-Velha;
1875 – Comarca de Estarreja divide-se em 3 julgados: Estarreja/Beduído (Avanca, Beduído, Pardilhó), Murtosa (Bunheiro, Murtosa, Veiros), Salreu (Canelas, Fermelã, Salreu);
1898 – Fermelã é incluída na comarca de Albergaria-a-Velha, onde permaneceria durante décadas;
1926 – Criação do concelho da Murtosa, com as freguesias da Murtosa e Bunheiro, pertencentes a Estarreja;
1926 – A Torreira, lugar do Bunheiro há decadas, torna-se freguesia;
1926 – Pardilhó anexado ao concelho de Ovar;
1928 – Pardilhó volta para Estarreja, não chegando a realizar-se o plebiscito previsto, segundo o qual o povo da freguesia decidiria a que concelho deveria pertencer: Ovar, Estarreja ou Murtosa;
1933 – Criada a freguesia do Monte, antes lugar da Murtosa;
1973 – Avanca promovida à categoria de Vila (designação meramente honorífica);
1997 – Torreira promovida à categoria de Vila (idem);
2005 – Estarreja promovida à categoria de Cidade, Pardilhó e Salreu à de Vila (idem).


In “Estarreja e Murtosa no novo mapa autárquico”, O Jornal de Estarreja, n.º 4569, 3.6.2011, pp. 1-4