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sexta-feira, 24 de abril de 2020

O navio Regal, naufragado na Torreira



 Um navio naufragado há quase um século na costa a norte da Torreira, que se encontrava enterrado pela areia da praia, foi recentemente colocado a descoberto pela força do mar. Depois do naufrágio e da cobertura natural pelas areias da costa, havia posteriormente ficado a descoberto temporariamente, por mais que uma ocasião, o que contribuiu para que não se perdesse completamente a memória da sua existência, ainda que muito vaga. Questionadas várias autoridades (Direcção Geral do Património Cultural, Capitania do Porto de Aveiro, Câmara Municipal da Murtosa), nenhuma possuia informações sobre a embarcação. Sabia apenas um habitante da Torreira dizer o que na infância o seu avô lhe contara, do navio “O Regalo” ali naufragado, como explica o Diário de Aveiro na sua edição de 22 de Fevereiro.

Como me foi perguntado se conhecia alguma informação que esclarecesse do que se tratava, pela sra. Presidente da Junta de Freguesia da Torreira e por uma equipa de reportagem da estação televisiva SIC, fui confirmar se tinha algum apontamento sobre o assunto. E tinha afinal, algumas referências de jornais locais com data de 1923 (duas notícias de O Jornal de Estarreja e sete notícias da efemera Revista da Torreira), que entretanto voltei a consultar os originais, para melhor perceber o que aconteceu. Estas notícias de jornais locais vieram a ser úteis para a reportagem que no dia 2 de Março passou no Jornal da Noite da SIC, cerca das 21h00, ficando esta muito enriquecida, uma vez que apenas se conhecia o mencionado testemunho de um habitante da Torreira. Como estive a reler as notícias dos jornais locais, da época do naufrágio, pareceu-me ter interesse redigir um pequeno artigo, explicando a origem da embarcação colocada novamente a descoberto pelo mar, e acompanhando com extractos das notícias da época. Pode-se também consultar alguma informação sobre a construção, vida e proprietários britânicos desta embarcação pesqueira, através do site https://www.wrecksite.eu/wreck.aspx?172711.

Em 4 de Julho de 1923 encalhou na costa a norte da Torreira o navio britânico a vapor “Regal”, que ficou aqui conhecido por “O Regalo”, afinal aportuguesamento do nome original inglês. Construído em 1906, para a Loyal Steam Fishing Co., de Grimsby (Inglaterra), e baptizado “Regal”, com a matrícula GY158. Entre Junho de 1915 e 1919 foi requesitado para o esforço de guerra (Primeira Grande Guerra), ficando nesse período ao serviço da Royal Navy como caça-minas, sendo após a guerra devolvido à empresa proprietária. Esta embarcação de pesca parece ter encalhado na Torreira devido ao denso nevoeiro e à quebra de parte do leme, deixando a tripulação desorientada. Conseguiram os tripulantes abandonar o navio “de pé enxuto”, sendo encaminhados para o Porto, onde foram apresentados ao cônsul britânico nesta cidade. Entretanto, o navio ficou inicialmente guardado por praças da Guarda Fiscal, sendo muito visitado por curiosos que acorreram ao local. Logo se iniciaram as tentativas para o desencalhar, todas sem sucesso. Primeiro, vieram ao local vários técnicos do Porto, para estudar a melhor solução. Depois, em 24 de Agosto de 1923, houve uma tentativa de desencalhar o “Regal” pelo rebocador “Luzitania”, vindo igualmente do Porto. Resolveu-se por fim retirar o navio encalhado aos bocados. Como nenhuma das tentativas conseguiu desencalhar o “Regal”, e as areias da costa acabaram por se encarregar de o sepultar, ficou este abandonado na Torreira, sendo redescoberto em raras ocasiões em que o mar lhe destapou as areias, como agora aconteceu.

Porque ajuda a satisfazer a curiosidade, de quem se interessar por este naufrágio na costa da Torreira, transcrevem-se de seguida as notícias da imprensa local na época.

«O encalhe do vapor «Regal»
Continua na mesma posição o vapor «Regal» que encalhou ao norte da Torreira.
Teem aqui vindo diversos representantes das casas do Porto afim de estudarem o meio de o salvarem, mas até à data em que escrevemos não lhe mecheram, continuando o navio guardado por praças da G. Fiscal.
Ao contrário do que dizia o nosso colega «Jornal de Estarreja», é falso terem havido roubos antes da chegada das autoridades, visto que, estas foram as primeiras a chegar ao navio.»
Revista da Torreira, n.º 14, 5.7.1923, p. 3

«O vapor naufragado na Torreira.
Tem sido muito visitado o navio inglez de pesca que há dias naufragou na costa da Torreira, ao norte, em frente da ermida do S. Paio.
Diz-se que o motivo do naufragio foram a cerração imensa e a quebra de parte do leme, causando a desorientação á tripulação, que devia ter passado horas de desanimo e de aflição.
O navio entrou pela costa, a ponto de poderem sahir os tripulantes a pè enxuto. Como ali não encontrassem ninguem que os entendesse, foi participado o caso á Capitania d’Aveiro e os naufragos seguiram para o Porto, onde foram apresentar-se ao seu consul.
O navio julga-se perdido, tendo-se salvo tudo que trazia a bordo.
Diz-se que antes de aparecer as auctoridades alguns objectos foram roubados.»
O Jornal de Estarreja, n.º 1851, 8.7.1923, pp. 2-3

[…] «foi certo ter havido pelo menos o roubo dum relogio dos salvados do navio naufragado na Torreira e que esse objecto foi estituido» […] – [desmentindo o desmentido da Revista da Torreira].
O Jornal de Estarreja, n.º 1854, 29.7.1923, p. 2

«O encalhe do vapor «Regal».
Principiaram os trabalhos para salvarem este navio que aqui encalhou.
Quando o nosso jornal circular já deve talvez estar salvo».
Revista da Torreira, n.º 15, 31.7.1923, p. 3

«O navio «Regal», encalhado a norte da Torreira, apezar de já ter andado de nado ainda não se tirou d’ali.
Aquilo até parece uma grande fita.»
Revista da Torreira, n.º 16, 16.8.1923, p. 1

«No dia 24 ultimo procurou-se mais uma vez salvar o navio Regal, encalhado, como noticiámos, ao norte da Torreira, tendo, para esse fim, vindo o rebocador «Luzitania», da praça do Porto, não tendo sido possivel salvá-lo não só devido á pouca força que empregaram como tambem ao estado de mar.»
Revista da Torreira, n.º 17, 1.9.1923, p. 3

«Após todas as tentativas para salvarem o vapor «Regal» encalhado ao norte da Torreira, resolveram tira-lo aos bocados, o que de resto è o que já há mito tinhamos previsto.»
Revista da Torreira, n.º 18, 16.9.1923, p. 3

«O tempo tem estado de abundante chuva e tem havido dias de grande vendaval. O mar embraveceu e se tão depressa não acudissem aos salvados do vapôr Regal que ha perto de um ano encalhou ao norte desta praia, a esta hora haveria ali grandes prejuizos.»
Revista da Torreira, n.º 25, 25.2.1924, p. 3

«O ultimo vendaval acoreou todos os salvados do vapor «Regal» que está encalhado ao norte da Torreira. As providencias tomadas pelos encarregados evitaram que ali se dessem grandes prejuizos.».
Revista da Torreira, n.º 26, 10.3.1924, p. 2


In 
Correio do Vouga, 6.3.2019, p. 9

sábado, 26 de outubro de 2019

Apresentação da "Monografia da Murtosa", vol. 2

O segundo volume da "Monografia da Murtosa" foi apresentado no dia 29 de Outubro de 2019, terça-feira, às 11h00, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Murtosa. O livro, edição da Câmara Municipal da Murtosa e do qual é autor Marco Pereira, dá seguimento ao volume apresentado exactamente um ano antes, no aniversário da criação do concelho da Murtosa, e pretende dar a conhecer a história e a identidade do mesmo. Ao ritmo de um volume por ano continuará a tratar de forma pormenorizada os mais diversos temas, abordados antes resumidamente na "Breve História do Concelho da Murtosa" (2016). A publicação pretende ser resposta para diversas finalidades, incluindo no percurso escolar, que poderá servir-se do conhecimento que ali se encontra como exemplo local das matérias curriculares.

Neste segundo volume desenvolvem-se três capítulos: o Clima, a Biodiversidade e a Toponímia. As características climáticas locais são descritas num pequeno capítulo inicial. Segue-se, mais desenvolvidamente, a biodiversidade, de forma essencialmente descritiva, mas dando alguma atenção à vertente histórica e incluindo a reprodução de um conjunto de gravuras antigas. Finalmente a toponímia, igualmente desenvolvida, agrega na forma de diccionário todos os nomes de lugares existentes no concelho, procurando dar conta das primeiras referências históricas de muitos deles e fornecendo uma explicação para a sua origem.

PEREIRA, Marco - Monografia da Murtosa. Vol. 2, Câmara Municipal da Murtosa, 2019

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

"Monografia da Murtosa" apresentada no dia 29 de Outubro de 2018




 O 1.º volume da “Monografia da Murtosa” foi apresentado no dia 29 de Outubro de 2018, pelas 10h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Murtosa. O livro, de que é autor Marco Pereira e editora a Câmara Municipal da Murtosa, é o primeiro de uma série, para sair ao ritmo de um por ano, sempre no 29 de Outubro, dia em que se assinala a emancipação do concelho da Murtosa (29/10/1926). Cada volume pretende desenvolver um conjunto de temas relacionados com a história do local e outras áreas do conhecimento, que ajudem a conhecer melhor a identidade murtoseira. Esta série vem na sequência da “Breve história do concelho da Murtosa” (2016), que procurou dar um retrato global mas sucinto da história do concelho, pretendendo-se agora desenvolver ao longo de vários volumes tudo o que ali veio sumariado. Neste primeiro volume da “Monografia da Murtosa” trata-se, sobretudo, da Geomorfologia (principalmente a formação e evolução da Ria de Aveiro) e da Cartografia (mapas da Murtosa, antigos e recentes).

Simultaneamente, está patente na Câmara Municipal uma exposição de mapas antigos, da Murtosa e sua região, desde o século XVI até à actualidade. Entre os mapas em exposição conta-se o mais antigo levantamento topográfico da vila da Murtosa, na escala de 1:2000, e dimensão em papel de 2 x 2,5 metros, com data de 1932. Nesse mapa muitas casas têm os seus proprietários identificados, sendo possível encontrar os nomes e casas dos avós e bisavós de muitos murtoseiros.

 PEREIRA, Marco - Monografia da Murtosa. Vol. 1, Câmara Municipal da Murtosa, 2018

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Ribeira do Telhadouro



Moliceiro em Pardilhó (postal de 1913).

A primeira referência escrita a Pardilhó consta de um caderno de pergaminho, com datação aproximada de 1346-1357, hoje à guarda do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Consiste numa lista de casais e herdades do Mosteiro de Arouca, na terra de Antuã e Avanca. Aí se mencionam, entre as propriedades de Avanca, o casal do Talhadoyo e marinha do Talhadeiro, que devem referir-se ao Telhadouro de Pardilhó. Vestígios das velhas marinhas de sal que por ali terão existido no século X.


In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016

Ribeira do Nacinho



Ribeira do Nacinho (2016).

Durante a Primeira República construíram-se aqui vários lugres, destinados à pesca do bacalhau. O mais célebre foi o José Estevam, cujo bota-a-baixo ocorreu em 1921 e pescou por conta de uma sociedade de pardilhoenses, a Empresa Industrial de Pardilhó. A sociedade possuía uma seca de bacalhau perto da ribeira da Aldeia (o nome de uma rua guarda essa memória), mas poucos anos durou e terminou com prejuízo, devido a um acidente sofrido pelo lugre perto da Terra Nova.

Com as obras recentes deixou de se ver o sítio da Praia do Bispo, que se diz dever o nome a D. Manuel Maria Ferreira da Silva (1888-1974), o único bispo natural de Pardilhó.

In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016

Ribeira da Tabuada

 Ribeira da Tabuada (2016). 

Uma das várias ribeiras de onde partiam os agricultores para a Marinha de Ovar e as vendedeiras para o mercado diário de Ovar, práticas que no fim do século XIX constituíram pretexto para esse concelho tentar anexar a freguesia de Pardilhó.

A Marinha de Ovar, Tijosa e Torrão do Lameiro começaram a ser ocupados na segunda metade do século XIX por agricultores de Pardilhó, que ali viviam e trabalhavam à semana, mas vinham ao fim-de-semana à freguesia de origem abastecer-se de víveres e cumprir os preceitos religiosos. O mesmo sucedeu com as Quintas, a Norte da Torreira, povoadas por agricultores de Pardilhó e Bunheiro.

In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016

Ribeira das Bulhas

Ribeira das Bulhas na década de 1990.


Possuindo uma fonte junta, era considerada em 1917 a segunda ribeira mais movimentada de Pardilhó. Ficam-lhe próximos os dois últimos estaleiros navais activos de Pardilhó, o do mestre António Esteves e, mais além, o do mestre Felisberto Amador. 

In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016  

Ribeira das Teixugueiras

Ribeira das Teixugueiras na década de 1990.


O lugar das Teixugueiras foi um dos primeiramente habitados de Pardilhó, ali se referindo no século XVI o cultivo de milho e trigo. Era então um dos principais lugares da freguesia, confirmando a regra dos primeiros habitantes se estabelecerem junto da laguna.
 
In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016  

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ribeira da Aldeia (Pardilhó)





Carga e descarga de materiais de construção e outras mercadorias (postal da década de 1960); Procissão de S. Pedro de 1973; Parque de merendas e parque infantil (2016).


Desagua aqui a regueira da Tranqueira, escoante das águas que se juntam durante o inverno no Canedo de Além.

No início do séc. XX construíram-se na ribeira da Aldeia varinos e fragatas, destinados ao rio Tejo. E em 1956 fundou um estaleiro naval Manuel Dias Bastos, a quem deu continuidade até há poucos anos José Duarte da Silva (Pitarma), com Diniz Tavares de Matos, construindo e reparando barcos de recreio em madeira. Está hoje abandonado e ameaçando ruína o velho barracão em madeira, um dos últimos testemunhos dos vários antigos estaleiros navais de Pardilhó, localidade que acolheu no Estado Novo a sede do Sindicato Nacional dos Carpinteiros Navais do Distrito de Aveiro, abrangendo a Figueira da Foz.

Foi aqui a principal porta de entrada e saída de pessoas e bens de Pardilhó, ligando a freguesia a toda a região lagunar. A partir de 1973 e durante alguns anos a procissão do S. Pedro de Pardilhó seguiu até à Aldeia e ali também se festejava o S. Paio dos Ógados em Setembro.

Na década de 1990 abriu um café numa construção em madeira, posteriormente melhorada e ampliada, assim como as instalações desportivas da secção de canoagem da Associação Saavedra Guedes. Mais recentemente foram realizados outros melhoramentos: um parque de merendas, parque infantil e parque de caravanas.

In “Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016

Ribeira de Mourão (Avanca)



Fotografia da Chalupa Estevam (1904).

Painel de azulejo alusivo ao S. Paio dos Ógados, existente na Ribeira de Mourão.

É a única ribeira da freguesia de Avanca, onde se situa a fronteira comum com as freguesias de Pardilhó e Válega. O nome Mourão deve-se provavelmente às estacas no cais onde se fixavam os barcos.

Num recanto próximo encontra-se uma antiga fonte e lavadouro (existem vários nos arredores), com a particularidade de possuir um painel de azulejo alusivo ao S. Paio dos Ógados. Há algumas décadas atrás, quando findava a festa do S. Paio da Torreira e os barcos regressavam aos esteiros de onde haviam partido, havia uma outra festa, o S. Paio dos Ógados, que juntava aqueles que não tinham podido ir à Torreira aos que de lá vinham.

Aqui terá visto a água pela primeira vez uma das primeiras embarcações de recreio da Ria de Aveiro, a chalupa Estevam. Construída em 1904 num armazém em Avanca (onde depois se instalou a empresa Janeves), por Francisco Nunes de Matos (Fateixas), um dos principais construtores navais de Pardilhó. Quem a encomendou foi Matheus Soares Belo, um murtoseiro que emigrou e enriqueceu no Brasil, tendo-se radicado em Avanca quando regressou a Portugal. Ficou guardada a fotografia da embarcação na família, pertencendo hoje ao Eng. Avenilde Valente, neto do primeiro proprietário.

In “Ribeira de Mourão” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Avanca/Ventos da Ria, Junho de 2016

A Região Marinhoa

No contexto da Ria de Aveiro a Terra Marinhoa foi a primeira a formar-se, por aluvião. Com a deposição de areias pelo mar, formando progressivamente o cordão litoral, a Ria deixou de comunicar com o mar no séc. XVII. Nos documentos históricos os contornos da região só se começam a compreender-se com rigor nos pitorescos mapas do fim do séc. XVIII, relacionados com a abertura da barra artificial, que só viria a ocorrer em 1808. Ria de Aveiro é pois uma expressão imprópria aplicada a uma laguna, um braço de mar que sofre o efeito das marés e possui água salobra, com pequenos tentáculos ou canais navegáveis que serpenteiam pelas terras circundantes, as ribeiras. Entre os peixes de maior valor gastronómico encontram-se aqui a enguia (antigamente pescada ao candeio com uma fisga, de noite), o sável e a lampreia. Ocasionalmente entram golfinhos na laguna. E estacionam por estas paragens mais de 150 espécies de aves, do que são exemplo a cegonha, garças, águia-sapeira, guarda-rios e flamingos.

Toda a economia tradicional depende da Ria de Aveiro, que funcionava antigamente como primeira via de comunicação ou auto-estrada natural. A pesca e a apanha do moliço (para fertilização do solo, que produz sobretudo milho) foram as principais actividades de outros tempos, tendo possuído grande tradição a construção naval, particularmente em Pardilhó. Embarcações típicas da região são os moliceiros (o ex-libris regional), mercantéis, bateiras e barcos de mar. Por aqui se construíram também varinos e fragatas destinados ao rio Tejo, bem como lugres para a pesca do bacalhau. Amorim Girão definiu esta gente anfíbia, por analogia ao que escreveu Platão sobre o Mediterrâneo, como um agrupamento humano «assim como rãs em volta de um pântano». Assim é. Em tudo dependem da Ria, que lhes deu o viver e, quando o não deu, os forçou a abandonar a sua característica casa de alpendre e migrar.

In
Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016;
Ribeira de Mourão” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Avanca/Ventos da Ria, Junho de 2016.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Os concelhos de Estarreja e Murtosa no século XIII


Embora o mais antigo documento onde é referido o nome de Antuã respeite ao ano de 569, só a partir do século XIII se começa a conhecer razoavelmente (ainda que com muitas limitações) o espaço onde hoje se situam os concelhos de Estarreja e Murtosa. Nessa época a laguna de Aveiro e terras circundantes pouco difeririam da actualidade, faltando apenas formar parte do cordão litoral. Poucas centenas de pessoas viveriam em habitações colmadas dispersas. Parece contudo que as terras alagadiças do Sul marinhão e do Sul do Antuã atraíam um crescente número de colonos, com a vantagem das boas acessibilidades proporcionadas pela foz do Vouga.

Onde hoje estão Estarreja e Murtosa existia uma manta de retalhos de poderes e possuidores de terras. Os dois principais espaços integravam-se no julgado de Antuã (que D. Afonso III coutou e entregou em 1257 ao Mosteiro de Arouca) e no julgado de Figueiredo do Rei (Santiais, parte de Salreu, Canelas e Fermelã). Eram poderes menos significativos o do julgado da Feira (do Rei, a Norte de Avanca), do julgado de Pardelhas (que se autonomizou da Feira e cujas terras pertenciam ao Mosteiro de Vila Cova), e do julgado de Cabanões (que se estendia para Sul pela Gelfa). Diversos concelhos rurais foram surgindo (Antuã, Fermelã, Veiros e Pardelhas), parte deles efémeros.

Na posse das terras encontravam-se, além do Rei, duas honras (a de Canelas, abrangendo Fermelã, e a do Roxico), o couto de Antuã (do Mosteiro de Arouca), vários casais de mosteiros (Grijó, Santa Cruz de Coimbra, Pedroso, Paço de Sousa, Vila Cova de Sandim, e Cedofeita), bens alodiais de herdadores (em Santiais, Canelas e Fermelã) e três póvoas (Veiros, do Carvalhal em Santiais e Ameal em Salreu). A contratualização da exploração das terras era titulada por aforamentos, boa parte dos quais colectivos, fomentando a adesão de novos povoadores. Pagava-se a título de renda, nos mais dos casos, a quarta ou a quinta parte da produção (pão, vinho e linho), e em casos mais raros e tardios a sexta ou a oitava parte. Os arroteamentos contavam-se também entre as terras de renda mais baixa, tendo em vista a expansão do espaço cultivado. Á renda parciária acrescia uma renda acessória, composta por pequenas quantidades certas de bens, designadas por direituras. Diferentes sectores compunham a economia local, que incluía a agricultura, a pecuária, a caça, a pesca e a salicultura.

Em paralelo existia o poder secular da Igreja, representado pelas dioceses do Porto e de Coimbra, que estabeleceram em definitivo a sua fronteira no curso do rio Antuã. A Norte estavam as extensas paróquias de Avanca e Beduído, e a Sul as de Salreu e Fermelã. O direito de padroado destas igrejas, com elevado interesse material, foi sendo avocado pelo Rei, que depois o redistribuiu.

Boa parte destas realidades constituíram-se no século XIII e duraram por séculos, nalguns casos até às reformas liberais do século XIX.


In O Jornal de Estarreja, n.º 4728, 9.1.2015, p. 12

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

História Administrativa de Estarreja

Desde a Idade Média até ao século XIX o mapa administrativo de Estarreja manteve-se quase inalterado. Originalmente o concelho de Estarreja chamava-se Antuã, e tinha a sua sede no lugar deste nome da actual freguesia de Salreu. Com a mudança das casas do poder administrativo, judicial e tributário para o lugar de Estarreja, ainda na Idade Média, este nome foi a pouco e pouco substituindo o de Antuã. O concelho de Antuã, depois chamado de Estarreja, era pertença do Mosteiro de Arouca desde 1257, e compunha-se das seguintes freguesias: Avanca (menos uma terça parte que pertencia à Feira, e uma nesga a Bemposta), Beduído (menos a zona de Santiais que era de Bemposta), Salreu (menos duas terças partes, de Bemposta), Pardilhó, Bunheiro, Veiros e Murtosa (salvo a metade correspondente aos lugares de Pardelhas e Ribeiro, pertencentes a Bemposta). As freguesias inteiras de Canelas e Fermelã pertenciam também a Bemposta.
 
A freguesia enquanto unidade administrativa não existia, sendo o concelho o mais pequeno poder civil. É de resto o que ainda acontece no resto da Europa, mas em regra com municípios mais pequenos que os nossos. A ideia de freguesia tinha apenas aplicação na administração da Igreja, de onde lhe vinha o nome, e por isso fazia sentido que as freguesias pudessem pertencer em metades a concelhos diferentes, pois a divisão civil era uma e a eclesiástica outra. Na sua dimensão eclesiástica a freguesia de Santa Marinha de Avanca exercia a autoridade sobre as filiais de S. Pedro de Pardilhó e S. Mateus do Bunheiro, cujos curas dependiam hierarquicamente do Reitor de Avanca. Por seu turno o Reitor de Santiago de Beduído exercia autoridade sobre os curas de S. Bartolomeu de Veiros e N. S.ª da Natividade da Murtosa. S. Martinho de Salreu tinha o seu próprio Prior. Em S. Miguel de Fermelã um Reitor estendia a autoridade sobre os curas de S. Tomé de Canelas (originalmente foi um lugar de Fermelã) e N. S.ª das Neves de Angeja. A Torreira era, eclesiástica e civilmente, um lugar de S. Cristóvão de Ovar e do concelho com o mesmo nome. Eram pois totalmente distintas as fronteiras civis e eclesiásticas. Uma aldeia ou povoação correspondia em regra a uma unidade eclesiástica, e identificava-se mais com a ideia de comunidade à qual os cidadãos sentiam pertencer. Diferentemente, o concelho era o agregar de vários territórios, muitas vezes com realidades geográficas distintas. O povo via a divisão civil (municipal) com distância, no papel de fisco e julgador.
 
O século XIX foi fértil em reformas administrativas, que entre outros aspectos seriam responsáveis pela criação de uma unidade civil abaixo do concelho – a freguesia -, criada, extinta, voltada a criar, e alterada sucessivas vezes ao longo desse século. Em regra o seu território foi decalcado do da unidade eclesiástica (paróquia). Umas vezes tinha uma Junta de Paróquia eleita, outras vezes era dirigida por inerência pelo pároco. Após a implantação da República e ao longo das décadas seguintes, a mais pequena unidade administrativa passou a ser apenas conhecida por freguesia, assim se designando em todos os diplomas legais da actualidade. Do ponto de vista eclesiástico usam-se os nomes freguesia e paróquia, com preferência pelo segundo, no intuito de distinguir da unidade civil. Embora na generalidade dos casos as fronteiras civis e eclesiásticas coincidam, existem paróquias com mais de uma freguesia, e freguesias com mais de uma paróquia. É o que sucede com a freguesia da Murtosa, onde cabem as paróquias de N. S. da Natividade da Murtosa e S. Lourenço de Pardelhas, ou da freguesia de Ovar, com as paróquias de S. Cristóvão e S. Pedro.
 
Com o quadro que se anexa ficam sumariadas algumas das principais alterações administrativas respeitantes ao concelho de Estarreja, dos séculos XIX e XX, que para o bem e para o mal tiveram como consequência última os actuais concelhos de Estarreja e Murtosa, assim como as suas freguesias.



HISTÓRIA ADMINISTRATIVA DE ESTARREJA (sumário)
1833 – D. Pedro, sitiado no Porto, determina que os concelhos se componham de freguesias inteiras: «O Reino de Portugal e Algarves é dividido em Provincias, estas em Comarcas; as Comarcas em Concelhos; e estes comprehendem uma, ou mais Freguezias por inteiro»;
1833 – Estarreja passa a ser uma das comarcas da vasta Província do Douro (distritos do Porto, Aveiro e Coimbra), abrangendo 9 concelhos: Angeja, Sever, Estarreja, Estêvão, Macieira de Cambra, Oliveira de Azeméis, Páus, Pinheiro da Bemposta, Frossos;
1834 – Estarreja é uma das 15 comarcas da Relação do Porto. No actual distrito de Aveiro apenas existiam as comarcas da Feira, Aveiro e Estarreja;
1835 – Criam-se poderes nomeados e eleitos para os Distritos, Concelhos e Freguesias. O governo escolhe o Governador Civil e o Administrador do Concelho, e este último nomeia o Comissário de Paróquia, todos considerados magistrados administrativos. Por outro lado a Junta Geral de Distrito, Câmara Municipal e Junta de Paróquia, são todas constituídas por cidadãos eleitos;
1835 – Julgado de Estarreja passa a incluir as freguesias da Branca e Salreu (parte), desanexadas de Bemposta, e os lugares da freguesia de Avanca pertencentes aos concelhos de Oliveira de Azeméis e Bemposta;
1835 – Julgado de Ovar perde as costas de S. Jacinto e do Prado, anexadas a Aveiro e Ílhavo;
1835 – Julgado de Albergaria-a-Velha passa a incluir as freguesias de Canelas e Fermelã, desanexadas de Bemposta;
1835 – Freguesia da Murtosa passa a pertencer integralmente ao concelho de Estarreja;
1835 – Torreira passa de Ovar para concelho de Estarreja;
1836 – Lei define que «A Freguezia toda pertencerá ao Julgado, em que estiver situada a Igreja Parochial»;
1836 – No distrito de Aveiro só existem 3 comarcas: Águeda, Aveiro (inclui Estarreja) e Feira;
1836 – Cria-se de novo o concelho de Angeja, que agora além da própria freguesia passa a incluir as de Frossos, Canelas e Fermelã;
1840 – Comarca de Estarreja composta pelos concelhos de Estarreja e Bemposta;
1841 – Criados os Juízos de Paz de Avanca (Avanca, Pardilhó), Bunheiro (Bunheiro e Veiros), Murtosa (Murtosa), Salreu (Beduído e Salreu), Angeja (abrange Canelas e Fermelã);
1854 – As freguesias de Canelas e Fermelã, que constituem o Julgado de Paz de Canelas, passam a pertencer ao concelho de Estarreja; suprimido o concelho de Angeja, as freguesias de Angeja e Frossos são integradas no de Albergaria-a.Velha;
1854 – A costa do mar a sul da Barra, pertencente a Ovar, passa novamente a pertencer a Ílhavo;
1855 – Costa da Torreira novamente desanexada de Ovar, passando a lugar da freguesia da Murtosa e concelho de Estarreja, com efeitos administrativos e judiciais. A fronteira da Torreira estabelece-se por duas linhas tiradas de nascente para poente, pelas extremidades norte e sul do concelho de Estarreja;
1855 – S. Jacinto novamente integrado em Aveiro (freguesia de Vera Cruz), e Costa Nova integrada em Ílhavo;
1855 – Extingue-se o concelho de Bemposta. As freguesias que pertenceram em tempos ao concelho de Bemposta dividem-se hoje, na sua maior parte, pelos concelhos de Oliveira de Azeméis e Albergaria-a-Velha;
1856 – Torreira anexada à paróquia da Murtosa, para efeitos eclesiásticos, após a anexação civil no ano anterior;
1867 – Decreto-Lei, que parece não ter chegado a ser executado, agregava várias freguesias, assim criando as novas de: Avanca (Avanca e Loureiro), Beduído (Beduído e Veiros), Murtosa, Pardilhó (Pardilhó e Bunheiro), Salreu, e Fermelã (Canelas e Fermelã). Esta nova de Fermelã (Canelas e Fermelã) era anexada ao concelho de Albergaria-a-Velha;
1875 – Comarca de Estarreja divide-se em 3 julgados: Estarreja/Beduído (Avanca, Beduído, Pardilhó), Murtosa (Bunheiro, Murtosa, Veiros), Salreu (Canelas, Fermelã, Salreu);
1898 – Fermelã é incluída na comarca de Albergaria-a-Velha, onde permaneceria durante décadas;
1926 – Criação do concelho da Murtosa, com as freguesias da Murtosa e Bunheiro, pertencentes a Estarreja;
1926 – A Torreira, lugar do Bunheiro há decadas, torna-se freguesia;
1926 – Pardilhó anexado ao concelho de Ovar;
1928 – Pardilhó volta para Estarreja, não chegando a realizar-se o plebiscito previsto, segundo o qual o povo da freguesia decidiria a que concelho deveria pertencer: Ovar, Estarreja ou Murtosa;
1933 – Criada a freguesia do Monte, antes lugar da Murtosa;
1973 – Avanca promovida à categoria de Vila (designação meramente honorífica);
1997 – Torreira promovida à categoria de Vila (idem);
2005 – Estarreja promovida à categoria de Cidade, Pardilhó e Salreu à de Vila (idem).


In “Estarreja e Murtosa no novo mapa autárquico”, O Jornal de Estarreja, n.º 4569, 3.6.2011, pp. 1-4

sábado, 23 de junho de 2012

A Terra Marinhoa na Idade Média - Primeiras referências escritas


(CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR)

A Terra Marinhoa nos séculos XIII e XIV. Primeiros lugares referidos e respectivas datas. Daqui deduz-se que a maior parte das pessoas viviam perto da ria, principalmente na antiga foz do Vouga, por este ser via de comunicação e a localização revelar-se estratégica.


In "A Terra Marinhoa na Idade Média", Junta de Freguesia de Veiros, 2010, p. 28

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Terra Marinhoa na Idade Média - Território

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DEFINIÇÃO DE TERRA MARINHOA. – Procurando de certo modo explicar o que seja a terra da Marinha, escreveu Gonçalo António TAVARES DE SOUSA [28], referindo-se às terras de Avanca e Beduído aquando da doação de 1257, que «A estas duas Villas se reduzia n’esse tempo a povoação do territorio que depois veio a constituir o concelho de Estarreja, sendo mattos, pantanos, e juncaes todo o tracto de terra que fica para a parte do mar, que por isso ainda agora se designa pelo nome de Marinha, e comprehende quatro Freguezias, Pardilho e Bunheiro, que se desmembraram, e desmembraram da matriz de Avanca, - e Veiros, e Murtosa que se desmembraram da sua matriz, S. Tiago de Bedoido».

Na versão de José TAVARES [29] «As freguesias do concelho da Murtosa e as de Pardilhó e Veiros, do concelho de Estarreja, têm grandes afinidades entre si e acentuada autonomia em relação às circunscrições vizinhas. Formam uma região natural com individualidade própria, reconhecida geralmente e desde remota idade, cujas características encontram na designação topográfica de Marinha completa e definitiva expressão. Marinha é o conjunto de povoações e terras de cultivo que, a partir da Idade Média, se vêm formando no embrechado de esteiros e canais do acidente marítimo da Ria, entre Fontela e a foz do Rio Velho, até ao rebordo serrano, de areias soltas, que ligava as antigas vilas de Antuã e Avanca».

Temos pois, para alcançar uma definição satisfatória de Terra Marinhoa, as seguintes características: Na geografia física, um território de terras baixas e altitude quase constante, pouco acima das águas do mar, constituído por terrenos arenosos formados por aluvião. Na geografia humana uma certa identidade, cultural e económica, mais ou menos comum, embora com diferenças assinaláveis que permitem distinguir cada uma das freguesias entre si. Em suma a Terra Marinhoa corresponde às freguesias de Pardilhó, Bunheiro, Murtosa, Monte e Veiros, devendo juntar-se-lhes por razões de semelhança a Torreira e certas franjas dos concelhos de Estarreja e Ovar.

Fig. 2. Fases da formação da Ria de Aveiro (Amorim Girão, “Geografia de Portugal”, 1941, p. 104).

FORMAÇÃO DA RIA DE AVEIRO. – Alberto SOUTO defendeu que a formação da ria de Aveiro se divide em três fases [30]: primeiro ter-se-ia formado a Terra Marinhoa, depois a Gafanha, e por fim a vasta língua de areias da Gelfa, em parte da qual assenta hoje a Torreira.

Para AMORIM GIRÃO os terrenos a nascente, antigos, distinguem-se dos situados a poente, «formações recentes, quaternárias, de sedimentação marinha e em parte fluvial» [31], admitindo que no período romano parte do cordão litoral estivesse constituído [32]. O autor conclui que a ria não deverá ter mais de 2000 anos, embora cabendo a sua verdadeira datação aos geólogos e arqueólogos [33].

Da análise à actual carta geológica verifica-se que a Terra Marinhoa possui, em toda ela, grandes manchas de depósitos de praias antigas e de terraços fluviais, do Plio-Plistocénico, o que não se vê no centro urbano de Ovar e para nascente deste, na Gafanha, e muito menos no cordão litoral. Estes factos levam a crer que regressando 2000 anos no tempo não se encontrará a Terra Marinhoa totalmente submersa, bem pelo contrário.

A Barrinha de Esmoriz, outro acidente litoral de certa similitude com a ria mas bem mais pequeno, encontra-se documentada no ano de 897, «uilla de ermoriz que est circa lagona de auille» [34], e em 922 «lagona de Auuil» [35]. Embora à época a Barrinha de Esmoriz fosse substancialmente maior, o mero facto de existir lembra-nos que o tempo geológico é diferente do tempo humano.

Aquando da doação do Couto de Antuã por D. Afonso III ao Mosteiro de Arouca, em 1257, diz Gonçalo António TAVARES DE SOUZA que a Terra Marinhoa se constituía de matos, pântanos e juncais (e não água). Na maior parte da sua extensão será verdade, mas não no seu todo, como se comprovará pelos documentos neste estudo apresentados. Estava praticamente tão emersa como hoje. É porém fora de dúvida que a linha de costa era mais recortada, muito provavelmente como no desenho proposto por FERNANDES MARTINS, e alguns espaços então navegáveis tiveram posterior assoreamento, capaz de diminuir os fundos da ria e erguer algumas das actuais terras alagadiças. Assim se justifica que na aludida doação de 1257 se diga «vadit ad portum de Fontanela et vadit per venam et intrat in venam que vocatur de Ovar». Teria pois Fontela um porto, mesmo que modesto, como as actuais ribeiras, com cais próximo de Mourão ou mesmo ali. Por isso terá por vezes ocorrido a descoberta de restos de embarcações nas proximidades de Fontela [36]. Por outro lado existia a veia de Ovar. Já um porto de Estarreja, como por vezes se vê em manuais escolares, não se conhece nenhum documento que autorize a sua existência na Idade Média.

Pouco abaixo da Murtosa a Ilha Testada foi objecto de contrato em 1407, então confrontando com a «uea de uouga e da outra parte com a uea que uay para o ual cabanões e da outra parte com a uea que vem pella passagem de caçia e uai pera o mar» [37]. E embora o pároco da Murtosa escrevesse, no seu relatório de 1758, que o rio vindo de Ovar era largo e fundo, séculos antes (1394) D. João I proibia o lançamento de pedras na veia de Ovar [38], para que não se tornassem obstáculos à navegação.

Fig. 3. A Ria de Aveiro no final do século XIV, de acordo com Fernandes Martins (Biblos, XXII, 1947, p. 186).


MÂMOAS. – Já atrás se disse que os arqueólogos têm uma palavra a dizer sobre a origem da ria de Aveiro [39]. Nesse sentido Alberto SOUTO [40] não teve dúvidas em aceitar que tenha de facto existido a Mâmoa de Veiros, a qual contribuiu para a atribuição de uma maior antiguidade à ria. Mais acrescentou o mesmo investigador:

«Mas o que não admite dúvidas, é a existência da mâmoa de Veiros e da mama parda em plena margem da ria da Murtosa, em terrenos arenácios e vasosos de acumulação marinhoa e fluvial, laterais, por acidente, de uma duna cujo material superior móvel cobre concreções ferruginosas com aspectos de consolidação, duna essa que acompanha a via férrea de Estarreja até Espinho.

Os próprios terrenos de Veiros e Murtosa encontram-se fortemente concrecionados e ferretizados sob a camada arável. Trata-se muito provàvelmente de uma duna quaternária ou de um cordão litoral que desde os tempos pleistocenos obstruiria o remoto estuário do Vouga.

Mas as mâmoas bastam para nos datarem essas grandes emergências de uma época indiscutivelmente anterior aos próprios megálitos!


[…]

Mantendo uma opinião por mim há muito expressa, entendo que na época romana a topografia regional não diferiria essencialmente da presente, a não ser em pormenores tais como a consolidação do cabedelo costeiro, a acumulação vasosa, o avanço dunar, a modificação dos fundos e das emergências. O delta já deveria existir.» [41].

Neste mesmo sentido AMORIM GIRÃO aceitou explicitamente a Mâmoa de Veiros, e teve o cuidado de desenhar uma curva que a abrangesse num mapa do estágio inicial de formação da ria de Aveiro [42] (cf. Fig. 2, primeiro mapa).

Em documentos respeitantes à zona da Murtosa, datados de 1291 [43] e 1294 [44], consta uma mâmoa de Aruffo ou Arufo, nome que volta a observar-se nas inquirições de 1334 [45].

LOPES PEREIRA defendia que a chamada mâmoa da Murtosa era a Mama-Parda [46], e alude a uma outra mâmoa da Graça [47], cuja localização desconhecemos. Todavia este autor não é favorável a que se aceite que estes nomes respeitem a monumentos funerários pré-romanos.

No séc. XVI são variadas as referências a mâmoas. Encontra-se na Murtosa um «Prazo feito a João Cam depardelhas, de hum pedaço deterra na Mamoa das Insoas» (1528) [48] e «oiteiro da Mamoa» (1528) [49], em Sedouros «chão da Mamoa» (1528) [50], Mâmoa de Veiros (1528) [51], e «Caterina Affonso da Mamoa da Arrota do outeiro da Mamoa» (1534) [52]. Uma mâmoa da Murtosa encontra-se noutra fonte do mesmo séc. XVI [53].

Conclui-se que além da Mâmoa de Veiros tenham existido na Murtosa pelo menos outros dois monumentos similares: um no norte, entre Pardelhas e Sedouros, e outro a sul, entre as terras de Pardelhas e as de Antuã, relativamente próximo da ria.
Fig. 4. A Região Marinhoa na Carta Geológica de Portugal.


UM VASTO MATAGAL ENTRESACHADO. – «Um vasto matagal entresachado, assim definiu o historiador Costa Lobo o Portugal do século XV. Outro tanto se poderia afirmar para as épocas anteriores. Florestas e brenhas cobriam grande parte do País, convertendo-se em óptimo refúgio de feras e de animais bravios. Aqui e além vislumbrava-se um montículo de casas, centro periférico de alguns campos arroteados que lhe sustentavam a população.» [54].

Esta perspectiva é correcta, se aplicada à Terra Marinhoa durante a Idade Média. A maior parte do território era de matos, pântanos e juncais, quando em 1257 D. Afonso III doou o Couto de Antuã ao Mosteiro de Arouca, como se disse atrás. Mas alguns espaços terão exercido actividade económica desde o período da reconquista, ou mesmo na época Sueva/Visigoda, como é o caso de Telhões (Bunheiro) e Romariz (Bunheiro). Desde 1210 e em diante as fontes escritas atestam a preocupação dos monarcas, e depois do Mosteiro de Arouca, em povoar a região e promover arroteamentos, designadamente estabelecendo tributos mais favoráveis sobre os rendimentos das terras que, não tendo aproveitamento, passassem a ser utilizadas.

ALDEIAS. – A expressão aldeia teve na Idade Média, entre outros sentidos [55], aquele que hoje lhe damos de pequena povoação. É este título de aldeia que cabia a Pardelhas, Murtosa, Veiros e Estarreja no séc. XVI [56], e talvez em data anterior Pardilhó [57].

POPULAÇÃO. – Aquando do Numeramento de 1527 [58] a população marinhoa era ainda diminuta, contando-se em poucas cabeças. Por esta altura, a introdução do milho grosso na agricultura terá suscitado um significativo aumento populacional, talvez devido essencialmente à migração de populares das serranias vizinhas. Facto é que em 1623 [59] a população local era muito maior.

Naquele curto espaço de um século o Bunheiro aumentou os seus residentes de cerca de 76 habitantes (Sedouros) [60] para 710 (incuindo Pardilhó), e a Murtosa de 276 (Pardelhas e Murtosa) para 698 pessoas. Pardilhó e Veiros teriam em 1527 aproximadamente 80 e 136 habitantes, respectivamente, não se sabendo quantos eram em 1623.

Consultando um índice de aforamentos que vai de 1526 a 1712 [61], e contando o número de aforamentos por lugar, poderemos ficar com uma ideia de quais eram os lugares mais habitados nesse intervalo de tempo. Contém esse índice os seguintes aforamentos: Veiros 46, Antuã 41, Estarreja 30, Murtosa, 27, Saidouros (sic) 19, Avanca 18, Pardilhó 10, Ladeira (Salreu) 9, Bunheiro 7, Santiago (Beduído) 7, Adou (Salreu) 7, etc. Entre outros lugares observam-se, com aforamentos, os de: Teuxugueiras (Pardilhó?, com 6), Marinha da Borralha, Andoeiros, Romariz, Mamoa, Marinha, Ilha de Lourosa, Outeiro da Mamoa, Caneira, Marinha do Ferreiro (5 aforamentos). Mencionam-se ainda os lugares de: Meijil e Sobrelha (1526, perto das Teixugueiras), Marinha da Fonte Quebrada e Insoa (1528), e Moradal (1528).

PESTE. – De acordo com António MEIRELES [62], o ano de 1200 foi de grande fome, tendo morrido a terça parte da população portuguesa, com particular incidência na Terra de Santa Maria, após um ano de muita chuva que prejudicou a agricultura. É crível que a falta de braços para o amanho da terra tenha motivado a outorga de diplomas, como o aforamento colectivo concedido em 1210 a Veiros.

Mais tarde fala-se de pestes. Sabe-se de as haver em Portugal em 1348 e 1415 [63], e a de 1348 teve particular intensidade. A criação de gado na Gelfa ficou afectada pela peste de 1348, conforme nos diz notícia de 1355 [64].

A população de Pardelhas sentiu uma quebra, documentada em 1410 e 1451 [65], cuja causa foi o efeito das pestes. Além do sumário das providências de Afonso V, conhece-se o próprio diploma ordenado pelo monarca, no qual diz sobre Pardelhas que «por as pestilencias grandes que sse seguiram se despovorara grande parte» [66].
Fig. 5. “Descripção da Barra de Aveiro”, Atlas de João Teixeira, Séc. XVII (1648).



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[28]. “Exame da questão sobre os foros do convento de Arouca…”, pp. 10-11.
[29]. “Notas Marinhoas”, I, 1965, p. 5.
[30]. “Origens da Ria de Aveiro”, 1923, p. 97-98.
[31]. “A Bacia do Vouga”, p. 56.
[32]. “A Bacia do Vouga”, p. 61; cit. Alberto SOUTO, “Origens da Ria de Aveiro”, p. 119 e 125.
[33]. “A Bacia do Vouga”, p. 63. Ao referir-se aos arqueólogos o ilustre professor da Faculdade de Letras de Coimbra tinha em mente a existência passada de monumentos megalíticos, em certas terras de aluvião do complexo lagunar.
[34]. PMH-DC, p. 8, doc. XII.
[35]. PMH-DC, p. 16, doc. XXV.
[36]. «Sobre crusta de terra superior ao barro (que é terreno secundário, ou de aluvião) apparecem com muita frequencia, madeiros, mastros, e vários despojos de navios, o que prova que esta crusta formou por seculos a camada superficial da costa maritima, e que a areia a invadiu posteriormente» (PINHO LEAL, “Portugal Antigo e Moderno”, VI, 1875, p. 478, s. v. Pardilhó). Marques GOMES mencionou acharem-se frequentemente restos de navios no Bunheiro (“A Murtoza – A propósito da sua autonomia”, de José Maria Barbosa, 1899, p. XII).
[37]. “Milenário de Aveiro”, doc. LXXX, p. 153; Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 62.
[38]. J. M. Silva MARQUES, “Descobrimentos Portugueses”, I, n.º 187, pp. 202-203; cit. Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 62.
[39]. AMORIM GIRÃO, “A Bacia do Vouga”, p. 63; repetiu-o Eduardo COSTA, na revista “Aveiro e o Seu Distrito”, VIII, 1969, pp. 16 e 17.
[40]. “Origens da Ria de Aveiro”, 1923, p. 128, citando AMORIM GIRÃO, em “A Bacia do Vouga”.
[41]. Alberto SOUTO, “Romanização no Baixo Vouga”, p. 306.
[42]. AMORIM GIRÃO, “A Bacia do Vouga”, pp. 58-58b. Aceita igualmente a Mâmoa de Veiros LEITE DE VASCONCELOS, “Opúsculos”, V, 1938, pp. 50-51, e no Arqueólogo Português, XVII, pp. 255-265. LOPES PEREIRA contesta a existência destes monumentos líticos, apoiando-se na citação de Amorim Girão «mâmoas em toda a região da Ria de Aveiro traduzem as ilhas primitivas», mas não diz onde foi buscar esta citação (“Murtosa Terra Nossa”, pp. 23-24).
[43]. ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 1, m. 1, n. 29; publicado por Luís RÊPAS, “Quando a nobreza traja de branco…”, II, 2000, pp. 365-366, doc. 69.
[44]. ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 1, n. 8; publicado por Luís RÊPAS, “Quando a nobreza traja de branco…”, II, 2000, pp. 424-425, doc. 109.
[45]. Notou-o Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 13 e 193.
[46]. “Murtosa Gente Nossa”, p. 40.
[47]. “Murtosa Terra Nossa”, p. 23.
[48]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 264v.
[49]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 265.
[50]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 265.
[51]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 265.
[52]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 266.
[53]. ADP, Cabido, vol. 788, fls. 158v-166 (Tombo dos Votos da Feira, em cópia de 1781). O «cazal da Mamoa» na Murtosa refere-se igualmente em “Os votos de S. Tiago no Terceiro Caminho da Comarca da Feira (1695-1700)”, p. 97.
[54]. A. H. de OLIVEIRA MARQUES, “A Sociedade Medieval Portuguesa”, 2.ª ed., 1971, p. 1.
[55]. “Elucidário…”, s. v. Aldea.
[56]. ADP, Cabido, vol. 788, fls. 158v-166 (Tombo dos Votos da Feira, séc. XVI, cópia de 1781).
[57]. ANTT, Mosteiro de Arouca, vol. 10, fl. 43 («aldea de Pardelho», na terra de Antuã, documento sem data mas chamando-se a Abadessa Isabel).
[58]. FREIRE, Anselmo Braamcamp, “A Povoação da Estremadura no XVI Século”, Arquivo Histórico Português, vol. VI, 1908, pp. 275-277; notado por Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 187-188, e LOPES PEREIRA, “Murtosa Terra Nossa”, p. 58.
[59]. “Catálogo dos Bispos do Porto”, 1623.
[60]. Número de vizinhos em 1527, multiplicado por quatro.
[61]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fls. 262-281v.
[62]. “Memórias de Epidemiologia…”, pp. 209-210; Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 122-123, nota, menciona peste cerca de 1191 na Terra de Santa Maria.
[63]. António MEIRELES, “Memórias…”, p. 249.
[64]. ANTT, Tombo do Mosteiro de Grijó, I, fls. 242-245; cf. Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 77 e 121.
[65]. ANTT, Mosteiro de S. Bento da Ave-Maria (Porto), Lv. 3, fl. 79v.; Cf. Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 123 e 186.
[66]. ANTT, Estremadura, Lv. 8, fl. 202v; o documento é citado por Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 123.

In "A Terra Marinhoa na Idade Média", Junta de Freguesia de Veiros, 2010, pp. 14-22
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