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quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Monografia da Murtosa, vol. 4 (2021)


 

No âmbito das comemorações do 29 de Outubro, aniversário da criação do concelho da Murtosa, promovidas pela Câmara Municipal da Murtosa, foi apresentado o 4.º volume da "Monografia da Murtosa", de que é autor Marco Pereira. A apresentação do livro teve lugar no recentemente renovado CRM (Centro Recreativo da Murtosa) - Oficina de Dança e Artes Criativas, pelas 10h00. Ao ritmo de um volume por ano, sempre apresentado no dia 29 de Outubro, a "Monografia da Murtosa" pretende estudar o concelho nas suas variadas vertentes, sempre na perspectiva histórica. Este ano o tema abordado é o da Idade Média, conforme o sumário abaixo, mas referem-se também alguns aspectos sobre a Idade Moderna, fazendo a ligação com a actualidade.

ORIGEM HISTÓRICA (IDADE MÉDIA E IDADE MODERNA)

Os primeiros testemunhos da presença humana, na área do atual concelho da Murtosa, encontram-se apenas gravados na toponímia: duas mamôas (Mama Parda e Mamoa da Garça), dois nomes de possível origem árabe (Gelfa e Muranzel) e dois nomes de lugar de origem germânica, da época das invasões bárbaras (Romariz e Arrufo).

Encontram-se documentados os nomes dos principais núcleos desde o século XIII: Gelfa (1283), Murtosa (1286), Pardelhas (1287) e Bunheiro (1372). Diferencia-se em vários aspetos a Idade Média da Idade Moderna, já se distinguindo naquela a Terra Marinhoa. Naquele período destacam-se temas como a Peste Negra (1348), uma demografia escassa e com razoável mobilidade demográfica, a exploração dos populares e um caso de participação no desastre de Tânger (1437).

Eram as instituições monásticas que dominavam o território, sendo as principais o Mosteiro de Arouca e o Mosteiro de Vila Cova de Sandim (Gaia), este mais tarde agregado ao Mosteiro de São Bento de Ave-Maria, no Porto.

As terras de Antuã/Estarreja pertenciam ao Mosteiro de Arouca desde 1257 (incluíam a freguesia do Bunheiro e metade da da Murtosa), até meados do século XIX, que dali recebia foros e oitavos. A outra metade da freguesia da Murtosa (lugares de Pardelhas e Ribeiro) foi do século XIII ao século XIX do Mosteiro de Vila Cova, depois São Bento de Ave-Maria. A Torreira era uma parte indiferenciada das dunas do litoral, a Gelfa, que pertencia a Cabanões (que depois se chamou Ovar) e onde se criava gado na Idade Média e na Idade Moderna.

A economia local baseava-se na agricultura, pecuária, salicultura e pesca. A cultura dominante do trigo na Idade Média deu lugar à do milho na Idade Moderna. A criação de gado na Gelfa nos dois períodos, que também se fez nas ilhas, incluiu desde cedo cavalos, vacas e porcos. As salinas constituíam uma importante atividade económica. Enfim a pesca, que se fazia na Ria na Idade Média, virou-se igualmente para o mar na Idade Moderna, quando as condições naturais a isso obrigaram.

O cruzamento de fontes genealógicas com outras pouco conhecidas pode fornecer abundante informação sobre quem eram e que terras possuíam antepassados que, no limite, viveram há 500 anos atrás.

“Monografia da Murtosa”, vol. 3, apresentada no dia 29 de Outubro de 2020



É o terceiro volume da “Monografia da Murtosa”, edição da Câmara Municipal da Murtosa e da qual é autor Marco Pereira. Uma colecção que vem sendo publicada ao ritmo de um livro por ano, sempre no dia 29 de Outubro, o aniversário da criação do concelho da Murtosa. O volume foi apresentado na quinta-feira, 29 de Outubro de 2020, às 10h15, na Oficina das Artes, Murtosa (antiga Escola de Pardelhas-Monte).

No livro publicado são focados dois temas: a História Eclesiástica e a Administração Pública. Na História Eclesiástica trata-se, entre outros assuntos, da demografia eclesiástica (estatísticas), criação das paróquias do concelho da Murtosa, residências paroquiais e salões paroquiais, Tribunal do Santo Ofício (Inquisição), Lei da Separação de 1911, associações, listas de bispos, párocos e sacerdotes naturais do concelho. Por sua vez, a Administração Pública dá atenção à criação do concelho da Murtosa e das suas freguesias, sedes do poder político, heráldica e listas de autarcas. Fazem ainda parte do tema da Administração Pública as fronteiras, normas locais, administração judicial, Registos e Notariado, Autoridade Tributária, segurança pública e os actos eleitorais. Sobre os actos eleitorais incluem-se tabelas e gráficos, dando conta dos resultados de todas as eleições, desde o 25 de Abril de 1974: Assembleia Constituinte, Referendos, Presidenciais, Legislativas, Europeias e Autárquicas.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Prof. Jaime Vilar, 20 anos depois

Foi em 16 de Fevereiro de 1999 que faleceu, faz agora 20 anos. Recordo-me que nessa altura vivia-se o Carvanal em Estarreja. Ficou-me gravada na memória a música que se ouvia, contrastando com o meu estado de espírito, quando saí do Hospital Visconde de Salreu, na última vez que o visitei.

O acaso de vivermos em épocas diferentes permitiu-nos apenas um breve cruzamento, ele no inverno da vida, eu na primavera da mesma. Convivemos assim apenas nos seus últimos anos de vida, meus de adolescência. Visitava-o em casa quase todas as tardes de sábado, ele já muito debilitado de saúde. Eu queria aprender e ele queria ensinar, coisas mais do domínio da etnologia que da história: costumes, tradições, histórias de vida, enfim cultura da Terra Marinhoa. Porque a saúde não lhe permitia movimentar a mão como antes, dificultando-lhe a escrita, ditava-me também textos para publicar no jornal de Pardilhó. Discutíamos aspectos da história de Pardilhó, dava-me conselhos de leitura e deu-me principalmente incentivo para continuar. Numa carta que ainda me conseguiu escrever, acompanhando um texto que queria publicar no jornal da terra, dizia: «Marco, emenda, corta, acrescenta, o que entenderes por melhor. É a escrever que se aprende a ser escritor. E tu parece ires pelo bom caminho.». Nunca fui escritor, os meus interesses afunilaram entretanto para o domínio da história, mas sempre guardei na memória a ideia, e é verdade, que se aprende a escrever escrevendo. Escritores há, e não são poucos, que renegaram os seus primeiros livros. É a prática que sempre faz com que nos aperfeiçoemos em qualquer saber.

A diferença de conhecimentos que nos separava era abissal. Eu começava a escrever uns artigos na imprensa local, pobrezinhos. Ele via em mim um rapazote que mostrava interesse pelas coisas da terra, com capacidade para se aperfeiçoar. Além de ser uma companhia frequente, no momento em que sentia o afastamento de muitos amigos (mantenho decorado, desde então, certo soneto de Camilo que me deu a conhecer), encontrou alguém novo, que podia no futuro continuar a dar atenção à nossa pequena pátria, num conhecimento que interessava a muito poucos.

Daquele tempo guardo alguns manuscritos, de correspondência pessoal que trocámos. Também algumas fotocópias de publicações cuja leitura me recomendava. Incluindo uma sua auto-biografia.

Com ele aprendi alguma coisa, numa fase muito incipiente do meu interesse pela história e cultura locais. Numa disciplina sem programa do Ministério da Educação, sem escola onde ir, sem horário escolar. Fui desta forma, talvez, o seu último aluno.

Marco Pereira
In O Jornal de Estarreja, n.º 4850, 22.2.2019, p. 2

sábado, 26 de outubro de 2019

Apresentação da "Monografia da Murtosa", vol. 2

O segundo volume da "Monografia da Murtosa" foi apresentado no dia 29 de Outubro de 2019, terça-feira, às 11h00, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Murtosa. O livro, edição da Câmara Municipal da Murtosa e do qual é autor Marco Pereira, dá seguimento ao volume apresentado exactamente um ano antes, no aniversário da criação do concelho da Murtosa, e pretende dar a conhecer a história e a identidade do mesmo. Ao ritmo de um volume por ano continuará a tratar de forma pormenorizada os mais diversos temas, abordados antes resumidamente na "Breve História do Concelho da Murtosa" (2016). A publicação pretende ser resposta para diversas finalidades, incluindo no percurso escolar, que poderá servir-se do conhecimento que ali se encontra como exemplo local das matérias curriculares.

Neste segundo volume desenvolvem-se três capítulos: o Clima, a Biodiversidade e a Toponímia. As características climáticas locais são descritas num pequeno capítulo inicial. Segue-se, mais desenvolvidamente, a biodiversidade, de forma essencialmente descritiva, mas dando alguma atenção à vertente histórica e incluindo a reprodução de um conjunto de gravuras antigas. Finalmente a toponímia, igualmente desenvolvida, agrega na forma de diccionário todos os nomes de lugares existentes no concelho, procurando dar conta das primeiras referências históricas de muitos deles e fornecendo uma explicação para a sua origem.

PEREIRA, Marco - Monografia da Murtosa. Vol. 2, Câmara Municipal da Murtosa, 2019

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

"Monografia da Murtosa" apresentada no dia 29 de Outubro de 2018




 O 1.º volume da “Monografia da Murtosa” foi apresentado no dia 29 de Outubro de 2018, pelas 10h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Murtosa. O livro, de que é autor Marco Pereira e editora a Câmara Municipal da Murtosa, é o primeiro de uma série, para sair ao ritmo de um por ano, sempre no 29 de Outubro, dia em que se assinala a emancipação do concelho da Murtosa (29/10/1926). Cada volume pretende desenvolver um conjunto de temas relacionados com a história do local e outras áreas do conhecimento, que ajudem a conhecer melhor a identidade murtoseira. Esta série vem na sequência da “Breve história do concelho da Murtosa” (2016), que procurou dar um retrato global mas sucinto da história do concelho, pretendendo-se agora desenvolver ao longo de vários volumes tudo o que ali veio sumariado. Neste primeiro volume da “Monografia da Murtosa” trata-se, sobretudo, da Geomorfologia (principalmente a formação e evolução da Ria de Aveiro) e da Cartografia (mapas da Murtosa, antigos e recentes).

Simultaneamente, está patente na Câmara Municipal uma exposição de mapas antigos, da Murtosa e sua região, desde o século XVI até à actualidade. Entre os mapas em exposição conta-se o mais antigo levantamento topográfico da vila da Murtosa, na escala de 1:2000, e dimensão em papel de 2 x 2,5 metros, com data de 1932. Nesse mapa muitas casas têm os seus proprietários identificados, sendo possível encontrar os nomes e casas dos avós e bisavós de muitos murtoseiros.

 PEREIRA, Marco - Monografia da Murtosa. Vol. 1, Câmara Municipal da Murtosa, 2018

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

sábado, 15 de setembro de 2018

Livro: Breve História do Concelho da Murtosa



PEREIRA, Marco - Breve História do Concelho da Murtosa. Câmara Municipal da Murtosa, 2016

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Região Marinhoa

No contexto da Ria de Aveiro a Terra Marinhoa foi a primeira a formar-se, por aluvião. Com a deposição de areias pelo mar, formando progressivamente o cordão litoral, a Ria deixou de comunicar com o mar no séc. XVII. Nos documentos históricos os contornos da região só se começam a compreender-se com rigor nos pitorescos mapas do fim do séc. XVIII, relacionados com a abertura da barra artificial, que só viria a ocorrer em 1808. Ria de Aveiro é pois uma expressão imprópria aplicada a uma laguna, um braço de mar que sofre o efeito das marés e possui água salobra, com pequenos tentáculos ou canais navegáveis que serpenteiam pelas terras circundantes, as ribeiras. Entre os peixes de maior valor gastronómico encontram-se aqui a enguia (antigamente pescada ao candeio com uma fisga, de noite), o sável e a lampreia. Ocasionalmente entram golfinhos na laguna. E estacionam por estas paragens mais de 150 espécies de aves, do que são exemplo a cegonha, garças, águia-sapeira, guarda-rios e flamingos.

Toda a economia tradicional depende da Ria de Aveiro, que funcionava antigamente como primeira via de comunicação ou auto-estrada natural. A pesca e a apanha do moliço (para fertilização do solo, que produz sobretudo milho) foram as principais actividades de outros tempos, tendo possuído grande tradição a construção naval, particularmente em Pardilhó. Embarcações típicas da região são os moliceiros (o ex-libris regional), mercantéis, bateiras e barcos de mar. Por aqui se construíram também varinos e fragatas destinados ao rio Tejo, bem como lugres para a pesca do bacalhau. Amorim Girão definiu esta gente anfíbia, por analogia ao que escreveu Platão sobre o Mediterrâneo, como um agrupamento humano «assim como rãs em volta de um pântano». Assim é. Em tudo dependem da Ria, que lhes deu o viver e, quando o não deu, os forçou a abandonar a sua característica casa de alpendre e migrar.

In
“Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016;
“Ribeira de Mourão” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Avanca/Ventos da Ria, Junho de 2016.

domingo, 4 de agosto de 2013

A Terra Marinhoa na Idade Média - Actual freguesia do Bunheiro

O nome do Bunheiro encontra-se pela primeira vez em 8 de Agosto de 1378, num documento feito em Santa Marinha de Avanca[1], terra a que pertencia, escrito «buynheiro». Nesta data produziu-se atestação notarial, segundo a qual Domingos Tomé e João Domingues Estaço, pescadores, pescaram e venderam dois golfinhos (dolffinhos), sem que tenham pago a correspondente terça parte reclamada pelo Mosteiro de Arouca, donatário da terra. Os dois pescadores foram citados para comparecerem perante Diogo Henriques, Cónego da Sé do Porto, devido à queixa que deles fez, por falta de pagamento, o procurador do Mosteiro de Arouca, Gonçalo Anes. Desta escritura se faz mera referência num índice documental manuscrito do Mosteiro de Arouca, que se conserva no Arquivo da Universidade de Coimbra[2]. Um e outro são aqui dados a conhecer publicamente pela primeira vez.

Em 1420 o juiz ordinário do julgado de Antuã, Gonçalo Martins, determinou a prisão de João Domingues, herdeiro e avoengueiro de um casal reguengo do Mosteiro de Arouca sito no Bunheiro, por não povoar nem corrigir os danos causados à mesma propriedade[3]. Este documento tem a particularidade de ter-se realizado no lugar de Estarreja, do julgado de Antuã. Revela pois que a sede do concelho que continuou a designar-se de Antuã havia já atravessado o rio, para se instalar no lugar de Estarreja. Com o estabelecimento em Estarreja das casas da autoridade judicial e dos celeiros centrais do donatário da terra, o concelho de Antuã haveria de ver o seu nome lentamente substituído pelo de Estarreja.

Nova notícia do Bunheiro surge em 1471, data em que Fernando de Azevedo, escudeiro régio, recebe de D. Afonso V carta de privilégio, para vinte homens lavradores e pescadores da aldeia do «Buinheiro», terra do Mosteiro de Arouca[4]. Segundo essa carta, os vinte homens ficavam para sempre isentos de servir em qualquer guerra por mar e por terra, de serem acontiados, de qualquer imposto, encargo e ofício concelhio, de irem com presos e dinheiro, de serem postos por besteiros do conto, de serem tutores e curadores, bem como do direito de pousada.

Chegados ao século XVI, foi dada em 1513 sentença sobre o foro das ilhas de Lourosa e de um moinho na Terra de Antuã[5], cuja localização não se conhece, tudo pertencente ao Mosteiro de Arouca. O primeiro censo português, Numeramento de 1527, atribui à então juradia dos Saidouros a população de 19 vizinhos[6].

Para a origem da paróquia do Bunheiro é comummente aceite a data de 1601, ano em que o Bunheiro se teria separado da Matriz de Avanca[7], passando a constituir um curato desta que abrangia o lugar de Pardilhó. No entanto há informação ainda do século XVI com a «Freguezia de Pardilhó e Bunheiro»[8], e dessa fonte parece resultar ter Sedouros maior importância que o Bunheiro.
 

[1] ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 1, n. 3.
[2] AUC, III-1.ºD-14-1-16, fls. 141v-142.
[3] ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 2, n. 18; publicado duas vezes por Rafael Marques VIGÁRIO em “O couto de Antuã e Avanca no final da Idade Média”, Terras de Antuã, I, 2007, pp. 200-202; e “O Mosteiro de Arouca no século XV (1400-1437)”, Dissertação de Mestrado, FLUC, Coimbra, 2007, doc. 47, pp. 201-204.
[4] ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, Lv. 16, fl. 17.
[5] ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 1, n. 20.
[6] “Arquivo Histórico Português”, vol. VI, 1908, pp. 275.
[7] Assim o escreveu Gonçalo António TAVARES DE SOUZA, no “Exame da questão sobre os foros do convento de Arouca…”, p. 11, no que foi seguido por Miguel de OLIVEIRA (“Ovar na Idade Média”, p. 189) e demais autores.
[8] ADP, Cabido, vol. 788, fl. 160. É o Tombo dos Votos da Feira, em cópia posterior, de 1781. Esta referência vem mencionada no “Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto”, 2.ª Série, vol. 2, 1984, p. 23.


In A Terra Marinhoa na Idade Média, Junta de Freguesia de Veiros, pp.47-48

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O Carnaval à mesa em Estarreja

Aquilo a que hoje chamamos de Carnaval tem na tradição popular o nome de Entrudo. É um período de excessos, herdeiro de algumas tradições pagãs, excessos esses que se verificam também à mesa. É que estando para iniciar-se o período da Quaresma, o Entrudo é o momento de tirar a barriga de misérias, com a carne que nas semanas seguintes será proibida. Para além disso, este foi nalguns casos um dos momentos do ano em que os antigos pagavam tributos. Por exemplo em notícia de 1746, de Fermelã, um tributo eclesiástico incluía o pagamento de cordeiros nesta altura.

A mesa do Entrudo havia portanto ser farta de carne. Para muitos era o buscar à capoeira o melhor que lá houvesse, para reunir a família no domingo gordo. Mais interessante era o uso que antigamente se fazia da carne de porco, de que os mais velhos se devem lembrar pelo menos em Avanca, Bunheiro e nas Quintas da Torreira. Refiro-me à tradição do “caldinho do Entrudo”. Na quinta-feira gorda (a primeira antes do Entrudo), e nalguns casos também na quinta-feira magra (a segunda antes do Entrudo), as crianças e alguns adultos de espírito mais folgazão andavam em grupos a pedir comida pelas casas, em particular carne. Via-se assim crianças com uma sacola pedindo carne aos vizinhos, para o dia do “caldinho”. Com o que se juntava de pedir pelas casas fazia-se o tal “caldinho”, que nesse dia era partilhado e comido em conjunto num ambiente de alegria. A panela do caldo costumava levar os “tornelhos”, as orelhas e as canas do porco.

Faltam aqui as guloseimas, que não poderiam ficar de fora num momento festivo. No Entrudo as que se comiam eram as filhoses (por alguns chamadas filhós), uma massa de farinha, ovos, açúcar, sal e água, que se leva a fritar, e depois de absorver o óleo em papel de cozinha polvilha-se com açúcar a canela.

Há ainda notícia de algumas crianças comerem nesta época os razudos, um pão de milho semelhante ao bolo, com 7 ou 8 cm de diâmetro. Mas este é o Carnaval que já não é, foi.

In "O Carnaval à mesa em Estarreja”, O Jornal de Estarreja, n.º 4600, 17.2.2012, p. 2

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

História Administrativa de Estarreja

Desde a Idade Média até ao século XIX o mapa administrativo de Estarreja manteve-se quase inalterado. Originalmente o concelho de Estarreja chamava-se Antuã, e tinha a sua sede no lugar deste nome da actual freguesia de Salreu. Com a mudança das casas do poder administrativo, judicial e tributário para o lugar de Estarreja, ainda na Idade Média, este nome foi a pouco e pouco substituindo o de Antuã. O concelho de Antuã, depois chamado de Estarreja, era pertença do Mosteiro de Arouca desde 1257, e compunha-se das seguintes freguesias: Avanca (menos uma terça parte que pertencia à Feira, e uma nesga a Bemposta), Beduído (menos a zona de Santiais que era de Bemposta), Salreu (menos duas terças partes, de Bemposta), Pardilhó, Bunheiro, Veiros e Murtosa (salvo a metade correspondente aos lugares de Pardelhas e Ribeiro, pertencentes a Bemposta). As freguesias inteiras de Canelas e Fermelã pertenciam também a Bemposta.
 
A freguesia enquanto unidade administrativa não existia, sendo o concelho o mais pequeno poder civil. É de resto o que ainda acontece no resto da Europa, mas em regra com municípios mais pequenos que os nossos. A ideia de freguesia tinha apenas aplicação na administração da Igreja, de onde lhe vinha o nome, e por isso fazia sentido que as freguesias pudessem pertencer em metades a concelhos diferentes, pois a divisão civil era uma e a eclesiástica outra. Na sua dimensão eclesiástica a freguesia de Santa Marinha de Avanca exercia a autoridade sobre as filiais de S. Pedro de Pardilhó e S. Mateus do Bunheiro, cujos curas dependiam hierarquicamente do Reitor de Avanca. Por seu turno o Reitor de Santiago de Beduído exercia autoridade sobre os curas de S. Bartolomeu de Veiros e N. S.ª da Natividade da Murtosa. S. Martinho de Salreu tinha o seu próprio Prior. Em S. Miguel de Fermelã um Reitor estendia a autoridade sobre os curas de S. Tomé de Canelas (originalmente foi um lugar de Fermelã) e N. S.ª das Neves de Angeja. A Torreira era, eclesiástica e civilmente, um lugar de S. Cristóvão de Ovar e do concelho com o mesmo nome. Eram pois totalmente distintas as fronteiras civis e eclesiásticas. Uma aldeia ou povoação correspondia em regra a uma unidade eclesiástica, e identificava-se mais com a ideia de comunidade à qual os cidadãos sentiam pertencer. Diferentemente, o concelho era o agregar de vários territórios, muitas vezes com realidades geográficas distintas. O povo via a divisão civil (municipal) com distância, no papel de fisco e julgador.
 
O século XIX foi fértil em reformas administrativas, que entre outros aspectos seriam responsáveis pela criação de uma unidade civil abaixo do concelho – a freguesia -, criada, extinta, voltada a criar, e alterada sucessivas vezes ao longo desse século. Em regra o seu território foi decalcado do da unidade eclesiástica (paróquia). Umas vezes tinha uma Junta de Paróquia eleita, outras vezes era dirigida por inerência pelo pároco. Após a implantação da República e ao longo das décadas seguintes, a mais pequena unidade administrativa passou a ser apenas conhecida por freguesia, assim se designando em todos os diplomas legais da actualidade. Do ponto de vista eclesiástico usam-se os nomes freguesia e paróquia, com preferência pelo segundo, no intuito de distinguir da unidade civil. Embora na generalidade dos casos as fronteiras civis e eclesiásticas coincidam, existem paróquias com mais de uma freguesia, e freguesias com mais de uma paróquia. É o que sucede com a freguesia da Murtosa, onde cabem as paróquias de N. S. da Natividade da Murtosa e S. Lourenço de Pardelhas, ou da freguesia de Ovar, com as paróquias de S. Cristóvão e S. Pedro.
 
Com o quadro que se anexa ficam sumariadas algumas das principais alterações administrativas respeitantes ao concelho de Estarreja, dos séculos XIX e XX, que para o bem e para o mal tiveram como consequência última os actuais concelhos de Estarreja e Murtosa, assim como as suas freguesias.



HISTÓRIA ADMINISTRATIVA DE ESTARREJA (sumário)
1833 – D. Pedro, sitiado no Porto, determina que os concelhos se componham de freguesias inteiras: «O Reino de Portugal e Algarves é dividido em Provincias, estas em Comarcas; as Comarcas em Concelhos; e estes comprehendem uma, ou mais Freguezias por inteiro»;
1833 – Estarreja passa a ser uma das comarcas da vasta Província do Douro (distritos do Porto, Aveiro e Coimbra), abrangendo 9 concelhos: Angeja, Sever, Estarreja, Estêvão, Macieira de Cambra, Oliveira de Azeméis, Páus, Pinheiro da Bemposta, Frossos;
1834 – Estarreja é uma das 15 comarcas da Relação do Porto. No actual distrito de Aveiro apenas existiam as comarcas da Feira, Aveiro e Estarreja;
1835 – Criam-se poderes nomeados e eleitos para os Distritos, Concelhos e Freguesias. O governo escolhe o Governador Civil e o Administrador do Concelho, e este último nomeia o Comissário de Paróquia, todos considerados magistrados administrativos. Por outro lado a Junta Geral de Distrito, Câmara Municipal e Junta de Paróquia, são todas constituídas por cidadãos eleitos;
1835 – Julgado de Estarreja passa a incluir as freguesias da Branca e Salreu (parte), desanexadas de Bemposta, e os lugares da freguesia de Avanca pertencentes aos concelhos de Oliveira de Azeméis e Bemposta;
1835 – Julgado de Ovar perde as costas de S. Jacinto e do Prado, anexadas a Aveiro e Ílhavo;
1835 – Julgado de Albergaria-a-Velha passa a incluir as freguesias de Canelas e Fermelã, desanexadas de Bemposta;
1835 – Freguesia da Murtosa passa a pertencer integralmente ao concelho de Estarreja;
1835 – Torreira passa de Ovar para concelho de Estarreja;
1836 – Lei define que «A Freguezia toda pertencerá ao Julgado, em que estiver situada a Igreja Parochial»;
1836 – No distrito de Aveiro só existem 3 comarcas: Águeda, Aveiro (inclui Estarreja) e Feira;
1836 – Cria-se de novo o concelho de Angeja, que agora além da própria freguesia passa a incluir as de Frossos, Canelas e Fermelã;
1840 – Comarca de Estarreja composta pelos concelhos de Estarreja e Bemposta;
1841 – Criados os Juízos de Paz de Avanca (Avanca, Pardilhó), Bunheiro (Bunheiro e Veiros), Murtosa (Murtosa), Salreu (Beduído e Salreu), Angeja (abrange Canelas e Fermelã);
1854 – As freguesias de Canelas e Fermelã, que constituem o Julgado de Paz de Canelas, passam a pertencer ao concelho de Estarreja; suprimido o concelho de Angeja, as freguesias de Angeja e Frossos são integradas no de Albergaria-a.Velha;
1854 – A costa do mar a sul da Barra, pertencente a Ovar, passa novamente a pertencer a Ílhavo;
1855 – Costa da Torreira novamente desanexada de Ovar, passando a lugar da freguesia da Murtosa e concelho de Estarreja, com efeitos administrativos e judiciais. A fronteira da Torreira estabelece-se por duas linhas tiradas de nascente para poente, pelas extremidades norte e sul do concelho de Estarreja;
1855 – S. Jacinto novamente integrado em Aveiro (freguesia de Vera Cruz), e Costa Nova integrada em Ílhavo;
1855 – Extingue-se o concelho de Bemposta. As freguesias que pertenceram em tempos ao concelho de Bemposta dividem-se hoje, na sua maior parte, pelos concelhos de Oliveira de Azeméis e Albergaria-a-Velha;
1856 – Torreira anexada à paróquia da Murtosa, para efeitos eclesiásticos, após a anexação civil no ano anterior;
1867 – Decreto-Lei, que parece não ter chegado a ser executado, agregava várias freguesias, assim criando as novas de: Avanca (Avanca e Loureiro), Beduído (Beduído e Veiros), Murtosa, Pardilhó (Pardilhó e Bunheiro), Salreu, e Fermelã (Canelas e Fermelã). Esta nova de Fermelã (Canelas e Fermelã) era anexada ao concelho de Albergaria-a-Velha;
1875 – Comarca de Estarreja divide-se em 3 julgados: Estarreja/Beduído (Avanca, Beduído, Pardilhó), Murtosa (Bunheiro, Murtosa, Veiros), Salreu (Canelas, Fermelã, Salreu);
1898 – Fermelã é incluída na comarca de Albergaria-a-Velha, onde permaneceria durante décadas;
1926 – Criação do concelho da Murtosa, com as freguesias da Murtosa e Bunheiro, pertencentes a Estarreja;
1926 – A Torreira, lugar do Bunheiro há decadas, torna-se freguesia;
1926 – Pardilhó anexado ao concelho de Ovar;
1928 – Pardilhó volta para Estarreja, não chegando a realizar-se o plebiscito previsto, segundo o qual o povo da freguesia decidiria a que concelho deveria pertencer: Ovar, Estarreja ou Murtosa;
1933 – Criada a freguesia do Monte, antes lugar da Murtosa;
1973 – Avanca promovida à categoria de Vila (designação meramente honorífica);
1997 – Torreira promovida à categoria de Vila (idem);
2005 – Estarreja promovida à categoria de Cidade, Pardilhó e Salreu à de Vila (idem).


In “Estarreja e Murtosa no novo mapa autárquico”, O Jornal de Estarreja, n.º 4569, 3.6.2011, pp. 1-4

sábado, 11 de agosto de 2012

A Terra Marinhoa na Idade Média - Marinhas de Sal


A informação mais antiga de marinhas de sal na ria de Aveiro data de 929, localizando-as em Cabedelo (Válega), perto de Fontela (Avanca).

Foi acordada em 1366 a exploração de uma marinha de sal chamada da Boorsa, na freguesia de Avanca. Nesse ano a abadessa do Mosteiro de Arouca, D. Maria Lourenço de Porto Carreiro, por um lado, Martim Domingues, morador em Vieiros (sic), e Domingos Martins, morador no Talhadoiro (sic), pelo outro, acordaram no seguinte: os segundos outorgantes explorariam a aludida marinha (duas partes o primeiro e uma parte o segundo), dando ao Mosteiro de Arouca metade do sal daí extraído. Ao Mosteiro caberia entregar para a ajuda dessa empresa a quantia de 150 libras e um barco[1]. Esta marinha de sal só podia situar-se no Bunheiro ou em Pardilhó, e dá realce à teoria da origem do nome de Pardilhó estar nas paredes das salinas.

A marinha da Area Alva foi objecto de outro contrato em 1370[2]. Com efeito pai e filho, moradores em Antuã, comprometeram-se a explorá-la, dando metade do sal produzido ao Mosteiro de Arouca, que em troca livrá-los-ia da chamada de El-Rey e daria 65(?) libras para uma barca. Desta marinha escreveu o Dr. Gonçalo António TAVARES DE SOUSA[3]: «Gaveta 7.ª maço 1.º n.º 13. Antoãa – Marinha d’Arealta – Era 1408. Março 16 – Carta do contracto que celebraram D. Maria Lourenço de Porto Carreiro Abbadessa do Convento, e Domingos Domingues Affonso, e Martim Domingues, por que estes se obrigarão a fazer a marinha de Sal, que chamam d’Aréalta, sita no Julgado d’Antoãa, assim como está divisada por divisamentos que hi estam, e a dar á dita Abbadessa por mão do seu mordomo metade do sal que Deos nella der, e a não largar a dita Marinha, nem a Abbadessa lha podera tolher, e a cumprirem a Carta d’emprasamento, que o Convento fizera aos ditos cazeiros – entra neste contracto o serviço da barca a cargo dos cazeiros.». Esta marinha de sal situar-se-ia no sul da Murtosa, entre as terras de Antuã e Pardelhas, pois aí aparece um porto d’Area Alva em 1294[4], e havia na Murtosa uma arrota da Area Alva em 1528[5]. O topónimo ainda hoje por ali se conhece.

No mesmo ano de 1370 outro homem comprometeu-se a fazer a marinha Giesteira[6], pagando a mesma metade do sal produzido, e recebendo em troca do Mosteiro de Arouca 40 libras, em dinheiro português, e 1 moio de milho para fazer uma barca. Mais uma vez escreveu Gonçalo António TAVARES DE SOUSA[7]: «Gaveta 7.ª Maço 1 n.º 12. – Antoãa – Marinha da Gesteira – Era 1408. Março 17. Carta de contrato que faz D. Maria Lourenço de Portocarreiro, Abadessa d’Arouca a Gonçalo Domingues, por que este se obrigou a fazer a Marinha da Gesteira em dias de sua vida, (estava herma) e à sua morte a deixá-la a quem a fizesse, e a dar à dita Abadessa metade de todo o sal que nella se fizer (feitos dous montes de sal a Abadessa escolha) o cazeiro procurará quem o ajude como companheiro. – A dita Senhora Abbadessa lhe dá auxilio para fazer a barca e 50 libras em dinheiro, e um moio de milho, cuja barca é para serviço da dita marinha.».

Em meados do séc. XIV o mosteiro de Grijó possuía uma marinha de sal na Espinhosela e outra na Telossa (por Tijosa), ambas em Ovar, que já não produziam[8]. As mesmas duas marinhas, da Espinhosela e da Tijosa, registam-se num Tombo datado de 1366, do mesmo mosteiro[9]. Uma marinha de sal da Tijosa volta a apresentar-se em 1403[10].

Citando Miguel de OLIVEIRA e depois Aires de AMORIM, que informa da abertura de salinas em Ovar no início do séc. XVII, achou Eduardo COSTA muito estranha esta informação, por ser tal actividade demasiado recente[11]. Por isso tentou localizar as ditas salinas no sul da Gelfa. Mais admirado ficaria se soubesse o que agora se dirá.

Vamos encontrar em 1533, na então designada Ilha de Lourosa (Bunheiro), uma terra sita junto à marinha do sal[12]. Muito mais recentemente continuava a existir uma «marinha que faz sal aonde chamão o covelo de Louroza freguesia do Bunheiro» (ano de 1707)[13] e «casa de Madeira para Sal» (mesmo ano de 1707)[14].


[1] ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 1, n. 19.
[2] ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 1, n. 13.
[3] Exame da questão sobre os foros do convento de Arouca…, 2.ª parte, pp. 13-14. Desta publicação terá conhecido a existência da referida marinha SIMÕES JÚNIOR, que dela escreve no Arquivo do Distrito de Aveiro, XX, 1954, p. 113. Este segundo autor é citado por Miguel de OLIVEIRA, em Ovar na Idade Média, p. 66. No entanto nenhum dos três mostrou conhecer a marinha da Boorsa, de 1366.
[4] ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 1, n. 8.
[5] AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 264v.
[6] ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 1, n. 12.
[7] Exame da questão sobre os foros do convento de Arouca…, 2.ª parte, p. 14; tal como na outra marinha de 1370, segue-o SIMÕES JÚNIOR, no Arquivo do Distrito de Aveiro, XX, 1954, p. 113, e por este Miguel de OLIVEIRA, Ovar na Idade Média, p. 66.
[8] Jorge Nogueira Lobo de ALARCÃO E SILVA, A propriedade rural do mosteiro de Grijó em meados do século XIV, e a sua administração, Coimbra, 1958, p. 124.
[9] “Tombo do Prior D. Afonso Esteves” (ano 1366), fls. 60 e 29. Mencionado por Luís Carlos AMARAL, São Salvador de Grijó na segunda metade do século XIV – estudo de gestão agrária, que além desta fonte utiliza o “Livro das Campainhas” (ano 1365), em ambos os casos fontes do priorado de D. Afonso Esteves.
[10] Pe. Aires de AMORIM, "Para a história de Ovar – Marinhas de Sal…”, Aveiro e o Seu Distrito, 1968.
[11] Aveiro e o Seu Distrito, VIII, 1969, pp. 18-19.
[12] AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 266.
[13] AUC, III-1.ºD-13-5-21, fl. 120.
[14] AUC, III-1.ºD-13-5-21, fl. 121.


In "A Terra Marinhoa na Idade Média", Junta de Freguesia de Veiros, 2010, pp. 31-33

sábado, 7 de julho de 2012

A Terra Marinhoa na Idade Média - Pesca (peixes, cetáceos e embarcações)


Peixes. - Ao dividir algumas terras em Antuã, em 1257, a abadessa do Mosteiro de Arouca D. Mor Martins exigia um cambo de peixes por cada barca[1], tributo igual ao que pagavam os homens de Veiros em 1274.

No ano de 1394 outorgou-se uma carta de defesa de lançar covões com pedras para sibas, nas veias de Vagos, Aveiro, Ovar, Amor e outras, por onde corriam navios de marear e deitavam redes de pesca[2]. E em 1451 eram concedidos aos pescadores de Aveiro privilégios para que não deixassem a sua profissão[3].

Duarte Nunez de LEÃO mencionava em 1610 quanto ao Vouga, em simultâneo com outros rios portugueses, a existência de sáveis, lampreias, trutas, ireses, linguados, solhos, salmões, relhos e outros. No respeitante à pesca no mar, no porto de Aveiro e em outros, este autor afirmou haver pescadas, cações, lixas, raias, corvinas, polvos e outros. Além disso exportava-se linguados e sapateiros de Aveiro, feitos e adubados em barris[4]. No Foral de Angeja (1514) vem referida a pesca do sável, lampreias e enguias, assim como pescado morto em «covãos»[5].

São abundantes as informações sobre espécies de peixe que nos chegam do séc. XVIII. A ria de Aveiro dava em 1708 lampreias, tainhas, solhas, linguados, e mariscos conservados em escabeches que se consumiam fora de portas[6]. Na Memória Paroquial de 1732 do Bunheiro fala-se de barbos, bogas, fataças, sáveis, solhos, linguados, e outros. Nas Memórias de 1758 o pároco da Murtosa diz haver na ria robalos, corvinas, lampreias e sáveis e, no rio Vouga, enguias, solhas, linguados, tainhas e mugens. No mesmo ano os párocos indicam barbos, bogas, trutas (Beduído), lampreias, sáveis (Fermelã), enguias, tainhas, solhas, mugens, robalos, lampreias, sáveis e corvinas (Ovar).

Cetáceos. – a pesca de golfinhos (por vezes chamados toninhas) e baleias era algo comum na Idade Média[7]. E relativos a golfinhos na região da ria de Aveiro há pelo menos dois registos medievais.

Numa inquirição e registo dos foros impostos aos moradores de Verdemilho, Ílhavo, Vagos e Sorens, com a data de 13 de Outubro de 1296, lê-se: «E sse sayr na Malhada. dalfinho ou solho auer o que o achar»[8]. Por outro lado, na primeira vez que se noticia o nome do Bunheiro (1378) escreve-se que dois pescadores dali escusaram-se a pagar, ao Mosteiro de Arouca, a terça parte devida pela pesca e venda de dois golfinhos.

No que toca a baleias, vêm mencionadas nas inquirições de 1284 na Feira. A propósito de Cabanões (Ovar) Miguel de OLIVEIRA defendeu que a pesca era então só na ria, e duvidou da estadia de baleias nesta[9], mas por isso mesmo admitiu casuais e limitadas  pescarias no mar[10].

E há informações mais recentes. O mar arrojou à costa entre a Torreira e o Furadouro, em 1877, dez cachalotes ainda vivos, que fonte da época defendeu ter cada um 12 metros de comprimento e 7 de espessura[11]. Em 1994 apareceu na Torreira uma baleia morta[12]. Quatro anos mais tarde, em 1998, dava à costa na mesma praia um golfinho que se presumiu chegar já morto[13]. Finalmente, em Junho de 2008 um golfinho solitário, baptizado de Gaspar, entrou na Ria de Aveiro, e dentro desta foi visto em vários locais, inclusive frente à Torreira. Vinha sendo seguido por biólogos em diversos pontos costeiros de França, Espanha e Portugal, e era habitual entrar nos portos de pesca e marinas, atraindo as atenções das pessoas[14].

Embarcações. – São frequentes as referências a embarcações desde a Idade Média, geralmente barcas. A abadessa do Mosteiro de Arouca, D. Mor Martins, pediu em 1257 um cambo de peixes de tributo por cada barca, nas terras de Antuã[15]. Fala-se das barcas dos pescadores de Veiros em 1274, das barcas nas salinas existentes em 1370, e algum tipo de embarcação teriam de utilizar os pescadores do Bunheiro que pescaram dois golfinhos em 1378. Por outro lado, caravelas chegavam a Cabanões em 1292[16], e o Foral de Ovar (1514) cita barcas e navios que aportam à localidade. Pouco antes, em notícia de 1501, admite-se que ancoravam nos portos de Ovar navios, barcas, caravelas, bateis, e já se pescava sardinha no mar[17]. Diz COSTA LOBO que «nas vastas matas reaes, que ensombravam a Terra de Santa Maria, hoje o concelho da Feira, se provia a villa de Aveiro, por concessão regia, de madeiras para a construção dos seus navios»[18]. E no ano de 1394 D. João I determinara, a semelhança dos seus antecessores, que não fossem lançados covos nem redes de pesca ou pedras, nas veias de Ovar, Aveiro e Vagos, por dificultarem a navegação aos navios[19]. Finalmente, o pároco de Ovar que assinou a Memória Paroquial de 1758 defendeu que a ria era capaz de qualquer embarcação.



[1] Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 68.
[2]  “Descobrimentos Portugueses”, vol. 1, doc. 187, pp. 202-203.
[3]  “Descobrimentos Portugueses”, vol. 1, Doc. 386, pp. 485-486.
[4] Duarte Nunez de LEÃO, “Descripção do Reino de Portugal”, 1610, pp. 56v-57. Além disso possuía Aveiro «celebres lenguados, y varios esbabeches [por escabeches]», cerca de 1640, segundo Joaquim Veríssimo SERRÃO, “Uma estimativa da população de Portugal em 1640”, p. 284.
[5] Luís Fernando de Carvalho DIAS, “Forais Manuelinos…”, p. 191.
[6] Pe. CARVALHO COSTA, “Corografia Portuguesa”, II, 1708, p. 100.
[7] “Dicionário de História de Portugal”, s. v. Pescarias.
[8] “Milenário de Aveiro”, p. 101; Alberto SOUTO, mencionando os golfinhos, chamou a este documento impropriamente Foral de Ílhavo (“Origens da Ria de Aveiro”, 1923, p. 164).
[9] “Ovar na Idade Média”, p. 111.
[10] “Ovar na Idade Média”, p. 68.
[11] “Domingo Ilustrado”, 2.º vol., n.º 67, Abril de 1898, pp. 301-302; PINHO LEAL, “Portugal Antigo e Moderno”, vol. 9, 1880, pp. 617-618; Marques GOMES, in “A Murtoza – A propósito da sua autonomia”, de José Maria Barbosa, 1899, p. XXX.
[12] “O Concelho da Murtosa”, n.º 1977, 30.7.1994, p. 4.
[13] SILVA, Alfredo (pseud.), “Golfinho deu à costa, no areal da Torreira”, Jornal Periódico Murtoseiro, n.º 3, 1.10.1998, p. 5.
[14] http://www.golfinhos.net/pt/portal/noticias/244-golfinho-roaz-gaspar-na-costa-portuguesa.html [consultado em 24.7.2010]; http://www.diarioaveiro.pt/main.php?mode=public&template=frontoffice&srvacr=pages_13&id_page=4317 [consultado em 24.7.2010].
[15] Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 68.
[16] Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 68.
[17] Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 154.
[18] “História da Sociedade em Portugal no século XV”, p. 91, citando como fonte Estremadura, Lv. 3, fl. 214 e 217.
[19] “Milenário de Aveiro”, pp. 145-146; Silva MARQUES, “Descobrimentos portugueses”, I, pp. 202-203.



In "A Terra Marinhoa na Idade Média", Junta de Freguesia de Veiros, 2010, pp. 29-31


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3 videos do Dr. Jorge Bacelar, com golfinhos na ria de Aveiro (2012):





sábado, 23 de junho de 2012

A Terra Marinhoa na Idade Média - Primeiras referências escritas


(CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR)

A Terra Marinhoa nos séculos XIII e XIV. Primeiros lugares referidos e respectivas datas. Daqui deduz-se que a maior parte das pessoas viviam perto da ria, principalmente na antiga foz do Vouga, por este ser via de comunicação e a localização revelar-se estratégica.


In "A Terra Marinhoa na Idade Média", Junta de Freguesia de Veiros, 2010, p. 28

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Terra Marinhoa na Idade Média - Território

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DEFINIÇÃO DE TERRA MARINHOA. – Procurando de certo modo explicar o que seja a terra da Marinha, escreveu Gonçalo António TAVARES DE SOUSA [28], referindo-se às terras de Avanca e Beduído aquando da doação de 1257, que «A estas duas Villas se reduzia n’esse tempo a povoação do territorio que depois veio a constituir o concelho de Estarreja, sendo mattos, pantanos, e juncaes todo o tracto de terra que fica para a parte do mar, que por isso ainda agora se designa pelo nome de Marinha, e comprehende quatro Freguezias, Pardilho e Bunheiro, que se desmembraram, e desmembraram da matriz de Avanca, - e Veiros, e Murtosa que se desmembraram da sua matriz, S. Tiago de Bedoido».

Na versão de José TAVARES [29] «As freguesias do concelho da Murtosa e as de Pardilhó e Veiros, do concelho de Estarreja, têm grandes afinidades entre si e acentuada autonomia em relação às circunscrições vizinhas. Formam uma região natural com individualidade própria, reconhecida geralmente e desde remota idade, cujas características encontram na designação topográfica de Marinha completa e definitiva expressão. Marinha é o conjunto de povoações e terras de cultivo que, a partir da Idade Média, se vêm formando no embrechado de esteiros e canais do acidente marítimo da Ria, entre Fontela e a foz do Rio Velho, até ao rebordo serrano, de areias soltas, que ligava as antigas vilas de Antuã e Avanca».

Temos pois, para alcançar uma definição satisfatória de Terra Marinhoa, as seguintes características: Na geografia física, um território de terras baixas e altitude quase constante, pouco acima das águas do mar, constituído por terrenos arenosos formados por aluvião. Na geografia humana uma certa identidade, cultural e económica, mais ou menos comum, embora com diferenças assinaláveis que permitem distinguir cada uma das freguesias entre si. Em suma a Terra Marinhoa corresponde às freguesias de Pardilhó, Bunheiro, Murtosa, Monte e Veiros, devendo juntar-se-lhes por razões de semelhança a Torreira e certas franjas dos concelhos de Estarreja e Ovar.

Fig. 2. Fases da formação da Ria de Aveiro (Amorim Girão, “Geografia de Portugal”, 1941, p. 104).

FORMAÇÃO DA RIA DE AVEIRO. – Alberto SOUTO defendeu que a formação da ria de Aveiro se divide em três fases [30]: primeiro ter-se-ia formado a Terra Marinhoa, depois a Gafanha, e por fim a vasta língua de areias da Gelfa, em parte da qual assenta hoje a Torreira.

Para AMORIM GIRÃO os terrenos a nascente, antigos, distinguem-se dos situados a poente, «formações recentes, quaternárias, de sedimentação marinha e em parte fluvial» [31], admitindo que no período romano parte do cordão litoral estivesse constituído [32]. O autor conclui que a ria não deverá ter mais de 2000 anos, embora cabendo a sua verdadeira datação aos geólogos e arqueólogos [33].

Da análise à actual carta geológica verifica-se que a Terra Marinhoa possui, em toda ela, grandes manchas de depósitos de praias antigas e de terraços fluviais, do Plio-Plistocénico, o que não se vê no centro urbano de Ovar e para nascente deste, na Gafanha, e muito menos no cordão litoral. Estes factos levam a crer que regressando 2000 anos no tempo não se encontrará a Terra Marinhoa totalmente submersa, bem pelo contrário.

A Barrinha de Esmoriz, outro acidente litoral de certa similitude com a ria mas bem mais pequeno, encontra-se documentada no ano de 897, «uilla de ermoriz que est circa lagona de auille» [34], e em 922 «lagona de Auuil» [35]. Embora à época a Barrinha de Esmoriz fosse substancialmente maior, o mero facto de existir lembra-nos que o tempo geológico é diferente do tempo humano.

Aquando da doação do Couto de Antuã por D. Afonso III ao Mosteiro de Arouca, em 1257, diz Gonçalo António TAVARES DE SOUZA que a Terra Marinhoa se constituía de matos, pântanos e juncais (e não água). Na maior parte da sua extensão será verdade, mas não no seu todo, como se comprovará pelos documentos neste estudo apresentados. Estava praticamente tão emersa como hoje. É porém fora de dúvida que a linha de costa era mais recortada, muito provavelmente como no desenho proposto por FERNANDES MARTINS, e alguns espaços então navegáveis tiveram posterior assoreamento, capaz de diminuir os fundos da ria e erguer algumas das actuais terras alagadiças. Assim se justifica que na aludida doação de 1257 se diga «vadit ad portum de Fontanela et vadit per venam et intrat in venam que vocatur de Ovar». Teria pois Fontela um porto, mesmo que modesto, como as actuais ribeiras, com cais próximo de Mourão ou mesmo ali. Por isso terá por vezes ocorrido a descoberta de restos de embarcações nas proximidades de Fontela [36]. Por outro lado existia a veia de Ovar. Já um porto de Estarreja, como por vezes se vê em manuais escolares, não se conhece nenhum documento que autorize a sua existência na Idade Média.

Pouco abaixo da Murtosa a Ilha Testada foi objecto de contrato em 1407, então confrontando com a «uea de uouga e da outra parte com a uea que uay para o ual cabanões e da outra parte com a uea que vem pella passagem de caçia e uai pera o mar» [37]. E embora o pároco da Murtosa escrevesse, no seu relatório de 1758, que o rio vindo de Ovar era largo e fundo, séculos antes (1394) D. João I proibia o lançamento de pedras na veia de Ovar [38], para que não se tornassem obstáculos à navegação.

Fig. 3. A Ria de Aveiro no final do século XIV, de acordo com Fernandes Martins (Biblos, XXII, 1947, p. 186).


MÂMOAS. – Já atrás se disse que os arqueólogos têm uma palavra a dizer sobre a origem da ria de Aveiro [39]. Nesse sentido Alberto SOUTO [40] não teve dúvidas em aceitar que tenha de facto existido a Mâmoa de Veiros, a qual contribuiu para a atribuição de uma maior antiguidade à ria. Mais acrescentou o mesmo investigador:

«Mas o que não admite dúvidas, é a existência da mâmoa de Veiros e da mama parda em plena margem da ria da Murtosa, em terrenos arenácios e vasosos de acumulação marinhoa e fluvial, laterais, por acidente, de uma duna cujo material superior móvel cobre concreções ferruginosas com aspectos de consolidação, duna essa que acompanha a via férrea de Estarreja até Espinho.

Os próprios terrenos de Veiros e Murtosa encontram-se fortemente concrecionados e ferretizados sob a camada arável. Trata-se muito provàvelmente de uma duna quaternária ou de um cordão litoral que desde os tempos pleistocenos obstruiria o remoto estuário do Vouga.

Mas as mâmoas bastam para nos datarem essas grandes emergências de uma época indiscutivelmente anterior aos próprios megálitos!


[…]

Mantendo uma opinião por mim há muito expressa, entendo que na época romana a topografia regional não diferiria essencialmente da presente, a não ser em pormenores tais como a consolidação do cabedelo costeiro, a acumulação vasosa, o avanço dunar, a modificação dos fundos e das emergências. O delta já deveria existir.» [41].

Neste mesmo sentido AMORIM GIRÃO aceitou explicitamente a Mâmoa de Veiros, e teve o cuidado de desenhar uma curva que a abrangesse num mapa do estágio inicial de formação da ria de Aveiro [42] (cf. Fig. 2, primeiro mapa).

Em documentos respeitantes à zona da Murtosa, datados de 1291 [43] e 1294 [44], consta uma mâmoa de Aruffo ou Arufo, nome que volta a observar-se nas inquirições de 1334 [45].

LOPES PEREIRA defendia que a chamada mâmoa da Murtosa era a Mama-Parda [46], e alude a uma outra mâmoa da Graça [47], cuja localização desconhecemos. Todavia este autor não é favorável a que se aceite que estes nomes respeitem a monumentos funerários pré-romanos.

No séc. XVI são variadas as referências a mâmoas. Encontra-se na Murtosa um «Prazo feito a João Cam depardelhas, de hum pedaço deterra na Mamoa das Insoas» (1528) [48] e «oiteiro da Mamoa» (1528) [49], em Sedouros «chão da Mamoa» (1528) [50], Mâmoa de Veiros (1528) [51], e «Caterina Affonso da Mamoa da Arrota do outeiro da Mamoa» (1534) [52]. Uma mâmoa da Murtosa encontra-se noutra fonte do mesmo séc. XVI [53].

Conclui-se que além da Mâmoa de Veiros tenham existido na Murtosa pelo menos outros dois monumentos similares: um no norte, entre Pardelhas e Sedouros, e outro a sul, entre as terras de Pardelhas e as de Antuã, relativamente próximo da ria.
Fig. 4. A Região Marinhoa na Carta Geológica de Portugal.


UM VASTO MATAGAL ENTRESACHADO. – «Um vasto matagal entresachado, assim definiu o historiador Costa Lobo o Portugal do século XV. Outro tanto se poderia afirmar para as épocas anteriores. Florestas e brenhas cobriam grande parte do País, convertendo-se em óptimo refúgio de feras e de animais bravios. Aqui e além vislumbrava-se um montículo de casas, centro periférico de alguns campos arroteados que lhe sustentavam a população.» [54].

Esta perspectiva é correcta, se aplicada à Terra Marinhoa durante a Idade Média. A maior parte do território era de matos, pântanos e juncais, quando em 1257 D. Afonso III doou o Couto de Antuã ao Mosteiro de Arouca, como se disse atrás. Mas alguns espaços terão exercido actividade económica desde o período da reconquista, ou mesmo na época Sueva/Visigoda, como é o caso de Telhões (Bunheiro) e Romariz (Bunheiro). Desde 1210 e em diante as fontes escritas atestam a preocupação dos monarcas, e depois do Mosteiro de Arouca, em povoar a região e promover arroteamentos, designadamente estabelecendo tributos mais favoráveis sobre os rendimentos das terras que, não tendo aproveitamento, passassem a ser utilizadas.

ALDEIAS. – A expressão aldeia teve na Idade Média, entre outros sentidos [55], aquele que hoje lhe damos de pequena povoação. É este título de aldeia que cabia a Pardelhas, Murtosa, Veiros e Estarreja no séc. XVI [56], e talvez em data anterior Pardilhó [57].

POPULAÇÃO. – Aquando do Numeramento de 1527 [58] a população marinhoa era ainda diminuta, contando-se em poucas cabeças. Por esta altura, a introdução do milho grosso na agricultura terá suscitado um significativo aumento populacional, talvez devido essencialmente à migração de populares das serranias vizinhas. Facto é que em 1623 [59] a população local era muito maior.

Naquele curto espaço de um século o Bunheiro aumentou os seus residentes de cerca de 76 habitantes (Sedouros) [60] para 710 (incuindo Pardilhó), e a Murtosa de 276 (Pardelhas e Murtosa) para 698 pessoas. Pardilhó e Veiros teriam em 1527 aproximadamente 80 e 136 habitantes, respectivamente, não se sabendo quantos eram em 1623.

Consultando um índice de aforamentos que vai de 1526 a 1712 [61], e contando o número de aforamentos por lugar, poderemos ficar com uma ideia de quais eram os lugares mais habitados nesse intervalo de tempo. Contém esse índice os seguintes aforamentos: Veiros 46, Antuã 41, Estarreja 30, Murtosa, 27, Saidouros (sic) 19, Avanca 18, Pardilhó 10, Ladeira (Salreu) 9, Bunheiro 7, Santiago (Beduído) 7, Adou (Salreu) 7, etc. Entre outros lugares observam-se, com aforamentos, os de: Teuxugueiras (Pardilhó?, com 6), Marinha da Borralha, Andoeiros, Romariz, Mamoa, Marinha, Ilha de Lourosa, Outeiro da Mamoa, Caneira, Marinha do Ferreiro (5 aforamentos). Mencionam-se ainda os lugares de: Meijil e Sobrelha (1526, perto das Teixugueiras), Marinha da Fonte Quebrada e Insoa (1528), e Moradal (1528).

PESTE. – De acordo com António MEIRELES [62], o ano de 1200 foi de grande fome, tendo morrido a terça parte da população portuguesa, com particular incidência na Terra de Santa Maria, após um ano de muita chuva que prejudicou a agricultura. É crível que a falta de braços para o amanho da terra tenha motivado a outorga de diplomas, como o aforamento colectivo concedido em 1210 a Veiros.

Mais tarde fala-se de pestes. Sabe-se de as haver em Portugal em 1348 e 1415 [63], e a de 1348 teve particular intensidade. A criação de gado na Gelfa ficou afectada pela peste de 1348, conforme nos diz notícia de 1355 [64].

A população de Pardelhas sentiu uma quebra, documentada em 1410 e 1451 [65], cuja causa foi o efeito das pestes. Além do sumário das providências de Afonso V, conhece-se o próprio diploma ordenado pelo monarca, no qual diz sobre Pardelhas que «por as pestilencias grandes que sse seguiram se despovorara grande parte» [66].
Fig. 5. “Descripção da Barra de Aveiro”, Atlas de João Teixeira, Séc. XVII (1648).



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[28]. “Exame da questão sobre os foros do convento de Arouca…”, pp. 10-11.
[29]. “Notas Marinhoas”, I, 1965, p. 5.
[30]. “Origens da Ria de Aveiro”, 1923, p. 97-98.
[31]. “A Bacia do Vouga”, p. 56.
[32]. “A Bacia do Vouga”, p. 61; cit. Alberto SOUTO, “Origens da Ria de Aveiro”, p. 119 e 125.
[33]. “A Bacia do Vouga”, p. 63. Ao referir-se aos arqueólogos o ilustre professor da Faculdade de Letras de Coimbra tinha em mente a existência passada de monumentos megalíticos, em certas terras de aluvião do complexo lagunar.
[34]. PMH-DC, p. 8, doc. XII.
[35]. PMH-DC, p. 16, doc. XXV.
[36]. «Sobre crusta de terra superior ao barro (que é terreno secundário, ou de aluvião) apparecem com muita frequencia, madeiros, mastros, e vários despojos de navios, o que prova que esta crusta formou por seculos a camada superficial da costa maritima, e que a areia a invadiu posteriormente» (PINHO LEAL, “Portugal Antigo e Moderno”, VI, 1875, p. 478, s. v. Pardilhó). Marques GOMES mencionou acharem-se frequentemente restos de navios no Bunheiro (“A Murtoza – A propósito da sua autonomia”, de José Maria Barbosa, 1899, p. XII).
[37]. “Milenário de Aveiro”, doc. LXXX, p. 153; Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 62.
[38]. J. M. Silva MARQUES, “Descobrimentos Portugueses”, I, n.º 187, pp. 202-203; cit. Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 62.
[39]. AMORIM GIRÃO, “A Bacia do Vouga”, p. 63; repetiu-o Eduardo COSTA, na revista “Aveiro e o Seu Distrito”, VIII, 1969, pp. 16 e 17.
[40]. “Origens da Ria de Aveiro”, 1923, p. 128, citando AMORIM GIRÃO, em “A Bacia do Vouga”.
[41]. Alberto SOUTO, “Romanização no Baixo Vouga”, p. 306.
[42]. AMORIM GIRÃO, “A Bacia do Vouga”, pp. 58-58b. Aceita igualmente a Mâmoa de Veiros LEITE DE VASCONCELOS, “Opúsculos”, V, 1938, pp. 50-51, e no Arqueólogo Português, XVII, pp. 255-265. LOPES PEREIRA contesta a existência destes monumentos líticos, apoiando-se na citação de Amorim Girão «mâmoas em toda a região da Ria de Aveiro traduzem as ilhas primitivas», mas não diz onde foi buscar esta citação (“Murtosa Terra Nossa”, pp. 23-24).
[43]. ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 1, m. 1, n. 29; publicado por Luís RÊPAS, “Quando a nobreza traja de branco…”, II, 2000, pp. 365-366, doc. 69.
[44]. ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 1, n. 8; publicado por Luís RÊPAS, “Quando a nobreza traja de branco…”, II, 2000, pp. 424-425, doc. 109.
[45]. Notou-o Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 13 e 193.
[46]. “Murtosa Gente Nossa”, p. 40.
[47]. “Murtosa Terra Nossa”, p. 23.
[48]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 264v.
[49]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 265.
[50]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 265.
[51]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 265.
[52]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 266.
[53]. ADP, Cabido, vol. 788, fls. 158v-166 (Tombo dos Votos da Feira, em cópia de 1781). O «cazal da Mamoa» na Murtosa refere-se igualmente em “Os votos de S. Tiago no Terceiro Caminho da Comarca da Feira (1695-1700)”, p. 97.
[54]. A. H. de OLIVEIRA MARQUES, “A Sociedade Medieval Portuguesa”, 2.ª ed., 1971, p. 1.
[55]. “Elucidário…”, s. v. Aldea.
[56]. ADP, Cabido, vol. 788, fls. 158v-166 (Tombo dos Votos da Feira, séc. XVI, cópia de 1781).
[57]. ANTT, Mosteiro de Arouca, vol. 10, fl. 43 («aldea de Pardelho», na terra de Antuã, documento sem data mas chamando-se a Abadessa Isabel).
[58]. FREIRE, Anselmo Braamcamp, “A Povoação da Estremadura no XVI Século”, Arquivo Histórico Português, vol. VI, 1908, pp. 275-277; notado por Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 187-188, e LOPES PEREIRA, “Murtosa Terra Nossa”, p. 58.
[59]. “Catálogo dos Bispos do Porto”, 1623.
[60]. Número de vizinhos em 1527, multiplicado por quatro.
[61]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fls. 262-281v.
[62]. “Memórias de Epidemiologia…”, pp. 209-210; Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 122-123, nota, menciona peste cerca de 1191 na Terra de Santa Maria.
[63]. António MEIRELES, “Memórias…”, p. 249.
[64]. ANTT, Tombo do Mosteiro de Grijó, I, fls. 242-245; cf. Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 77 e 121.
[65]. ANTT, Mosteiro de S. Bento da Ave-Maria (Porto), Lv. 3, fl. 79v.; Cf. Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 123 e 186.
[66]. ANTT, Estremadura, Lv. 8, fl. 202v; o documento é citado por Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 123.

In "A Terra Marinhoa na Idade Média", Junta de Freguesia de Veiros, 2010, pp. 14-22
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