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quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Monografia da Murtosa, vol. 4 (2021)


 

No âmbito das comemorações do 29 de Outubro, aniversário da criação do concelho da Murtosa, promovidas pela Câmara Municipal da Murtosa, foi apresentado o 4.º volume da "Monografia da Murtosa", de que é autor Marco Pereira. A apresentação do livro teve lugar no recentemente renovado CRM (Centro Recreativo da Murtosa) - Oficina de Dança e Artes Criativas, pelas 10h00. Ao ritmo de um volume por ano, sempre apresentado no dia 29 de Outubro, a "Monografia da Murtosa" pretende estudar o concelho nas suas variadas vertentes, sempre na perspectiva histórica. Este ano o tema abordado é o da Idade Média, conforme o sumário abaixo, mas referem-se também alguns aspectos sobre a Idade Moderna, fazendo a ligação com a actualidade.

ORIGEM HISTÓRICA (IDADE MÉDIA E IDADE MODERNA)

Os primeiros testemunhos da presença humana, na área do atual concelho da Murtosa, encontram-se apenas gravados na toponímia: duas mamôas (Mama Parda e Mamoa da Garça), dois nomes de possível origem árabe (Gelfa e Muranzel) e dois nomes de lugar de origem germânica, da época das invasões bárbaras (Romariz e Arrufo).

Encontram-se documentados os nomes dos principais núcleos desde o século XIII: Gelfa (1283), Murtosa (1286), Pardelhas (1287) e Bunheiro (1372). Diferencia-se em vários aspetos a Idade Média da Idade Moderna, já se distinguindo naquela a Terra Marinhoa. Naquele período destacam-se temas como a Peste Negra (1348), uma demografia escassa e com razoável mobilidade demográfica, a exploração dos populares e um caso de participação no desastre de Tânger (1437).

Eram as instituições monásticas que dominavam o território, sendo as principais o Mosteiro de Arouca e o Mosteiro de Vila Cova de Sandim (Gaia), este mais tarde agregado ao Mosteiro de São Bento de Ave-Maria, no Porto.

As terras de Antuã/Estarreja pertenciam ao Mosteiro de Arouca desde 1257 (incluíam a freguesia do Bunheiro e metade da da Murtosa), até meados do século XIX, que dali recebia foros e oitavos. A outra metade da freguesia da Murtosa (lugares de Pardelhas e Ribeiro) foi do século XIII ao século XIX do Mosteiro de Vila Cova, depois São Bento de Ave-Maria. A Torreira era uma parte indiferenciada das dunas do litoral, a Gelfa, que pertencia a Cabanões (que depois se chamou Ovar) e onde se criava gado na Idade Média e na Idade Moderna.

A economia local baseava-se na agricultura, pecuária, salicultura e pesca. A cultura dominante do trigo na Idade Média deu lugar à do milho na Idade Moderna. A criação de gado na Gelfa nos dois períodos, que também se fez nas ilhas, incluiu desde cedo cavalos, vacas e porcos. As salinas constituíam uma importante atividade económica. Enfim a pesca, que se fazia na Ria na Idade Média, virou-se igualmente para o mar na Idade Moderna, quando as condições naturais a isso obrigaram.

O cruzamento de fontes genealógicas com outras pouco conhecidas pode fornecer abundante informação sobre quem eram e que terras possuíam antepassados que, no limite, viveram há 500 anos atrás.

“Monografia da Murtosa”, vol. 3, apresentada no dia 29 de Outubro de 2020



É o terceiro volume da “Monografia da Murtosa”, edição da Câmara Municipal da Murtosa e da qual é autor Marco Pereira. Uma colecção que vem sendo publicada ao ritmo de um livro por ano, sempre no dia 29 de Outubro, o aniversário da criação do concelho da Murtosa. O volume foi apresentado na quinta-feira, 29 de Outubro de 2020, às 10h15, na Oficina das Artes, Murtosa (antiga Escola de Pardelhas-Monte).

No livro publicado são focados dois temas: a História Eclesiástica e a Administração Pública. Na História Eclesiástica trata-se, entre outros assuntos, da demografia eclesiástica (estatísticas), criação das paróquias do concelho da Murtosa, residências paroquiais e salões paroquiais, Tribunal do Santo Ofício (Inquisição), Lei da Separação de 1911, associações, listas de bispos, párocos e sacerdotes naturais do concelho. Por sua vez, a Administração Pública dá atenção à criação do concelho da Murtosa e das suas freguesias, sedes do poder político, heráldica e listas de autarcas. Fazem ainda parte do tema da Administração Pública as fronteiras, normas locais, administração judicial, Registos e Notariado, Autoridade Tributária, segurança pública e os actos eleitorais. Sobre os actos eleitorais incluem-se tabelas e gráficos, dando conta dos resultados de todas as eleições, desde o 25 de Abril de 1974: Assembleia Constituinte, Referendos, Presidenciais, Legislativas, Europeias e Autárquicas.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Santo António de Estarreja


O mais popular dos santos populares portugueses, ao Santo António são dedicadas as seguintes capelas, nos concelhos de Estarreja e Murtosa:

1 – Em Avanca, no centro da freguesia, capela pública fundada em 1526, que serviu transitoriamente de igreja no século XVIII, enquanto esta se construiu;

2 – Em Beduído, a capela principal da sede do concelho, na Praça Francisco Barbosa, tendo igualmente existido outra particular com a mesma invocação no lugar de Beduído, no extremo norte da freguesia com o mesmo nome, que já se conhecia em 1732;

3- Em Canelas, que era em 1721 pública e a única capela da freguesia, sendo reconstruída em 1898 pelo Pe. Dr. António Domingues da Silva; há uma pequena capelinha particular ou alminhas com a mesma invocação na Quinta da Carvalha;

4 – Em Fermelã, pequeno templo particular, situado na Rua do Vale;

5 – Em Pardilhó, na Quinta do Rezende e por este inaugurada em 1937, de certo modo substituindo a capela com a mesma invovação, pública, que existiu no largo da igreja entre 1767 e 1926;

6 – Em Salreu, na EN109, particular e construída cerca de 1721; outra particular na Boavista, talvez de 1898;

7 – Em Veiros, alminhas no Canedo, particulares e construídas na década de 1970; é errada a invocação de Santo António por vezes atribuída ao Senhor da Ribeira, pois é seu verdadeiro titular Jesus Crucificado;

8 – No Bunheiro, particular, na Rua Prof. Ruela Ramos, onde este viveu (Quinta da Formiga);

9 – No Monte da Murtosa, a igreja paroquial, inaugurada em 1929, sendo antes titular da capela pública hoje dita de Santa Luzia, que já existia em 1758.

No caso concreto da capela de Santo António da Praça, isto é, a que existe na Praça Francisco Barbosa, centro histórico e político-administrativo do concelho de Estarreja, estamos perante uma reconstrução, que substituiu duas capelas mais antigas. A primeira situava-se aproximadamente onde estão os actuais Paços do Concelho. Os mordomos da confraria de Santo António da Praça peticionaram em 1733, ao bispo do Porto, a transferência desta capela pública para Norte ou Nordeste da actual. Com a justificação do seu estado degradado e para que os presos da cadeia pudessem assistir à missa. Juntou-se entretanto aos mordomos Mateus Afonso Soares, Desembargador e Corregedor do Cível da Casa da Relação do Porto, que ofereceu o terreno e suportou a maior parte dos custos da construção. Mas reservando para si alguns direitos, ainda que o templo continuasse considerado público. Colocaram-se uma pedra de armas e legenda, as imagens de São Mateus e de Santa Brígida, que ficaram honrando os nomes do Desembargador e sua esposa, senhores da Casa dos Morgados de Santo António da Praça, hoje Casa da Cultura, com acesso privilegiado à capela.

Estava esta segunda capela em ruínas, quando a Câmara Municipal de Estarreja, presidida pelo veirense Dr. João Carlos d’Assis Pereira de Melo, promoveu a construção da terceira e actual. Ficou concluída em 1881, como consta em inscrição colocada por cima da porta principal. A sua edificação é coeva à construção da praça a que hoje chamamos de Francisco Barbosa, realizada na década de 1870, mas afinal devida ao referido Dr. Pereira de Melo. Com o advento da república o Estado nacionalizou a capela, que ficou parcialmente destruída aquando da Monarquia do Norte (1919) e foi entregue à Paróquia em 1942 e novamente em 1961. Fizeram-se ali obras por ocasião das festas do 7.º centenário do Santo António, celebradas em Portugal em 1931, altura em foram colocados na fachada os dois painéis de azulejo da Fábrica do Outeiro (Águeda). As festas de Santo Anónio, que se deixaram de fazer, foram reativadas em 1957, sendo-lhe dedicada uma peça de teatro original no ano seguinte. Houve marchas luminosas, de organização popular, pela primeira vez em 1961, mas não se fez festa no ano seguinte.

Por deliberação da Câmara Municipal, datada de 21.12.1977, recaiu o feriado municipal sobre o dia de Santo António, 13 de Junho. Mereceu a capela um grande restauro entre 1990 e 1991, dando-lhe o seu aspecto actual, sendo a sagração solene do altar feita a 13.10.1991, pelo Bispo de Aveiro, D. António Marcelino. A autarquia promoveu em 1990 a Semana Cultural do Moliceiro, na altura do Santo António, que se realizou por 4 anos seguidos, com um primeiro mercado à moda antiga em 1991. A partir de 1994 os festejos passaram a ter um nome mais sugestivo, Festas de Santo António e do Concelho de Estarreja, e a sua organização foi conhecendo um progressivo investimento municipal.

In O Jornal de Estarreja, n.º 4882, 29.5.2020, p. 12

sábado, 26 de outubro de 2019

Apresentação da "Monografia da Murtosa", vol. 2

O segundo volume da "Monografia da Murtosa" foi apresentado no dia 29 de Outubro de 2019, terça-feira, às 11h00, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Murtosa. O livro, edição da Câmara Municipal da Murtosa e do qual é autor Marco Pereira, dá seguimento ao volume apresentado exactamente um ano antes, no aniversário da criação do concelho da Murtosa, e pretende dar a conhecer a história e a identidade do mesmo. Ao ritmo de um volume por ano continuará a tratar de forma pormenorizada os mais diversos temas, abordados antes resumidamente na "Breve História do Concelho da Murtosa" (2016). A publicação pretende ser resposta para diversas finalidades, incluindo no percurso escolar, que poderá servir-se do conhecimento que ali se encontra como exemplo local das matérias curriculares.

Neste segundo volume desenvolvem-se três capítulos: o Clima, a Biodiversidade e a Toponímia. As características climáticas locais são descritas num pequeno capítulo inicial. Segue-se, mais desenvolvidamente, a biodiversidade, de forma essencialmente descritiva, mas dando alguma atenção à vertente histórica e incluindo a reprodução de um conjunto de gravuras antigas. Finalmente a toponímia, igualmente desenvolvida, agrega na forma de diccionário todos os nomes de lugares existentes no concelho, procurando dar conta das primeiras referências históricas de muitos deles e fornecendo uma explicação para a sua origem.

PEREIRA, Marco - Monografia da Murtosa. Vol. 2, Câmara Municipal da Murtosa, 2019

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

"Monografia da Murtosa" apresentada no dia 29 de Outubro de 2018




 O 1.º volume da “Monografia da Murtosa” foi apresentado no dia 29 de Outubro de 2018, pelas 10h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Murtosa. O livro, de que é autor Marco Pereira e editora a Câmara Municipal da Murtosa, é o primeiro de uma série, para sair ao ritmo de um por ano, sempre no 29 de Outubro, dia em que se assinala a emancipação do concelho da Murtosa (29/10/1926). Cada volume pretende desenvolver um conjunto de temas relacionados com a história do local e outras áreas do conhecimento, que ajudem a conhecer melhor a identidade murtoseira. Esta série vem na sequência da “Breve história do concelho da Murtosa” (2016), que procurou dar um retrato global mas sucinto da história do concelho, pretendendo-se agora desenvolver ao longo de vários volumes tudo o que ali veio sumariado. Neste primeiro volume da “Monografia da Murtosa” trata-se, sobretudo, da Geomorfologia (principalmente a formação e evolução da Ria de Aveiro) e da Cartografia (mapas da Murtosa, antigos e recentes).

Simultaneamente, está patente na Câmara Municipal uma exposição de mapas antigos, da Murtosa e sua região, desde o século XVI até à actualidade. Entre os mapas em exposição conta-se o mais antigo levantamento topográfico da vila da Murtosa, na escala de 1:2000, e dimensão em papel de 2 x 2,5 metros, com data de 1932. Nesse mapa muitas casas têm os seus proprietários identificados, sendo possível encontrar os nomes e casas dos avós e bisavós de muitos murtoseiros.

 PEREIRA, Marco - Monografia da Murtosa. Vol. 1, Câmara Municipal da Murtosa, 2018

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

sábado, 15 de setembro de 2018

Livro: Breve História do Concelho da Murtosa



PEREIRA, Marco - Breve História do Concelho da Murtosa. Câmara Municipal da Murtosa, 2016

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Região Marinhoa

No contexto da Ria de Aveiro a Terra Marinhoa foi a primeira a formar-se, por aluvião. Com a deposição de areias pelo mar, formando progressivamente o cordão litoral, a Ria deixou de comunicar com o mar no séc. XVII. Nos documentos históricos os contornos da região só se começam a compreender-se com rigor nos pitorescos mapas do fim do séc. XVIII, relacionados com a abertura da barra artificial, que só viria a ocorrer em 1808. Ria de Aveiro é pois uma expressão imprópria aplicada a uma laguna, um braço de mar que sofre o efeito das marés e possui água salobra, com pequenos tentáculos ou canais navegáveis que serpenteiam pelas terras circundantes, as ribeiras. Entre os peixes de maior valor gastronómico encontram-se aqui a enguia (antigamente pescada ao candeio com uma fisga, de noite), o sável e a lampreia. Ocasionalmente entram golfinhos na laguna. E estacionam por estas paragens mais de 150 espécies de aves, do que são exemplo a cegonha, garças, águia-sapeira, guarda-rios e flamingos.

Toda a economia tradicional depende da Ria de Aveiro, que funcionava antigamente como primeira via de comunicação ou auto-estrada natural. A pesca e a apanha do moliço (para fertilização do solo, que produz sobretudo milho) foram as principais actividades de outros tempos, tendo possuído grande tradição a construção naval, particularmente em Pardilhó. Embarcações típicas da região são os moliceiros (o ex-libris regional), mercantéis, bateiras e barcos de mar. Por aqui se construíram também varinos e fragatas destinados ao rio Tejo, bem como lugres para a pesca do bacalhau. Amorim Girão definiu esta gente anfíbia, por analogia ao que escreveu Platão sobre o Mediterrâneo, como um agrupamento humano «assim como rãs em volta de um pântano». Assim é. Em tudo dependem da Ria, que lhes deu o viver e, quando o não deu, os forçou a abandonar a sua característica casa de alpendre e migrar.

In
Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016;
Ribeira de Mourão” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Avanca/Ventos da Ria, Junho de 2016.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

História Administrativa de Estarreja

Desde a Idade Média até ao século XIX o mapa administrativo de Estarreja manteve-se quase inalterado. Originalmente o concelho de Estarreja chamava-se Antuã, e tinha a sua sede no lugar deste nome da actual freguesia de Salreu. Com a mudança das casas do poder administrativo, judicial e tributário para o lugar de Estarreja, ainda na Idade Média, este nome foi a pouco e pouco substituindo o de Antuã. O concelho de Antuã, depois chamado de Estarreja, era pertença do Mosteiro de Arouca desde 1257, e compunha-se das seguintes freguesias: Avanca (menos uma terça parte que pertencia à Feira, e uma nesga a Bemposta), Beduído (menos a zona de Santiais que era de Bemposta), Salreu (menos duas terças partes, de Bemposta), Pardilhó, Bunheiro, Veiros e Murtosa (salvo a metade correspondente aos lugares de Pardelhas e Ribeiro, pertencentes a Bemposta). As freguesias inteiras de Canelas e Fermelã pertenciam também a Bemposta.
 
A freguesia enquanto unidade administrativa não existia, sendo o concelho o mais pequeno poder civil. É de resto o que ainda acontece no resto da Europa, mas em regra com municípios mais pequenos que os nossos. A ideia de freguesia tinha apenas aplicação na administração da Igreja, de onde lhe vinha o nome, e por isso fazia sentido que as freguesias pudessem pertencer em metades a concelhos diferentes, pois a divisão civil era uma e a eclesiástica outra. Na sua dimensão eclesiástica a freguesia de Santa Marinha de Avanca exercia a autoridade sobre as filiais de S. Pedro de Pardilhó e S. Mateus do Bunheiro, cujos curas dependiam hierarquicamente do Reitor de Avanca. Por seu turno o Reitor de Santiago de Beduído exercia autoridade sobre os curas de S. Bartolomeu de Veiros e N. S.ª da Natividade da Murtosa. S. Martinho de Salreu tinha o seu próprio Prior. Em S. Miguel de Fermelã um Reitor estendia a autoridade sobre os curas de S. Tomé de Canelas (originalmente foi um lugar de Fermelã) e N. S.ª das Neves de Angeja. A Torreira era, eclesiástica e civilmente, um lugar de S. Cristóvão de Ovar e do concelho com o mesmo nome. Eram pois totalmente distintas as fronteiras civis e eclesiásticas. Uma aldeia ou povoação correspondia em regra a uma unidade eclesiástica, e identificava-se mais com a ideia de comunidade à qual os cidadãos sentiam pertencer. Diferentemente, o concelho era o agregar de vários territórios, muitas vezes com realidades geográficas distintas. O povo via a divisão civil (municipal) com distância, no papel de fisco e julgador.
 
O século XIX foi fértil em reformas administrativas, que entre outros aspectos seriam responsáveis pela criação de uma unidade civil abaixo do concelho – a freguesia -, criada, extinta, voltada a criar, e alterada sucessivas vezes ao longo desse século. Em regra o seu território foi decalcado do da unidade eclesiástica (paróquia). Umas vezes tinha uma Junta de Paróquia eleita, outras vezes era dirigida por inerência pelo pároco. Após a implantação da República e ao longo das décadas seguintes, a mais pequena unidade administrativa passou a ser apenas conhecida por freguesia, assim se designando em todos os diplomas legais da actualidade. Do ponto de vista eclesiástico usam-se os nomes freguesia e paróquia, com preferência pelo segundo, no intuito de distinguir da unidade civil. Embora na generalidade dos casos as fronteiras civis e eclesiásticas coincidam, existem paróquias com mais de uma freguesia, e freguesias com mais de uma paróquia. É o que sucede com a freguesia da Murtosa, onde cabem as paróquias de N. S. da Natividade da Murtosa e S. Lourenço de Pardelhas, ou da freguesia de Ovar, com as paróquias de S. Cristóvão e S. Pedro.
 
Com o quadro que se anexa ficam sumariadas algumas das principais alterações administrativas respeitantes ao concelho de Estarreja, dos séculos XIX e XX, que para o bem e para o mal tiveram como consequência última os actuais concelhos de Estarreja e Murtosa, assim como as suas freguesias.



HISTÓRIA ADMINISTRATIVA DE ESTARREJA (sumário)
1833 – D. Pedro, sitiado no Porto, determina que os concelhos se componham de freguesias inteiras: «O Reino de Portugal e Algarves é dividido em Provincias, estas em Comarcas; as Comarcas em Concelhos; e estes comprehendem uma, ou mais Freguezias por inteiro»;
1833 – Estarreja passa a ser uma das comarcas da vasta Província do Douro (distritos do Porto, Aveiro e Coimbra), abrangendo 9 concelhos: Angeja, Sever, Estarreja, Estêvão, Macieira de Cambra, Oliveira de Azeméis, Páus, Pinheiro da Bemposta, Frossos;
1834 – Estarreja é uma das 15 comarcas da Relação do Porto. No actual distrito de Aveiro apenas existiam as comarcas da Feira, Aveiro e Estarreja;
1835 – Criam-se poderes nomeados e eleitos para os Distritos, Concelhos e Freguesias. O governo escolhe o Governador Civil e o Administrador do Concelho, e este último nomeia o Comissário de Paróquia, todos considerados magistrados administrativos. Por outro lado a Junta Geral de Distrito, Câmara Municipal e Junta de Paróquia, são todas constituídas por cidadãos eleitos;
1835 – Julgado de Estarreja passa a incluir as freguesias da Branca e Salreu (parte), desanexadas de Bemposta, e os lugares da freguesia de Avanca pertencentes aos concelhos de Oliveira de Azeméis e Bemposta;
1835 – Julgado de Ovar perde as costas de S. Jacinto e do Prado, anexadas a Aveiro e Ílhavo;
1835 – Julgado de Albergaria-a-Velha passa a incluir as freguesias de Canelas e Fermelã, desanexadas de Bemposta;
1835 – Freguesia da Murtosa passa a pertencer integralmente ao concelho de Estarreja;
1835 – Torreira passa de Ovar para concelho de Estarreja;
1836 – Lei define que «A Freguezia toda pertencerá ao Julgado, em que estiver situada a Igreja Parochial»;
1836 – No distrito de Aveiro só existem 3 comarcas: Águeda, Aveiro (inclui Estarreja) e Feira;
1836 – Cria-se de novo o concelho de Angeja, que agora além da própria freguesia passa a incluir as de Frossos, Canelas e Fermelã;
1840 – Comarca de Estarreja composta pelos concelhos de Estarreja e Bemposta;
1841 – Criados os Juízos de Paz de Avanca (Avanca, Pardilhó), Bunheiro (Bunheiro e Veiros), Murtosa (Murtosa), Salreu (Beduído e Salreu), Angeja (abrange Canelas e Fermelã);
1854 – As freguesias de Canelas e Fermelã, que constituem o Julgado de Paz de Canelas, passam a pertencer ao concelho de Estarreja; suprimido o concelho de Angeja, as freguesias de Angeja e Frossos são integradas no de Albergaria-a.Velha;
1854 – A costa do mar a sul da Barra, pertencente a Ovar, passa novamente a pertencer a Ílhavo;
1855 – Costa da Torreira novamente desanexada de Ovar, passando a lugar da freguesia da Murtosa e concelho de Estarreja, com efeitos administrativos e judiciais. A fronteira da Torreira estabelece-se por duas linhas tiradas de nascente para poente, pelas extremidades norte e sul do concelho de Estarreja;
1855 – S. Jacinto novamente integrado em Aveiro (freguesia de Vera Cruz), e Costa Nova integrada em Ílhavo;
1855 – Extingue-se o concelho de Bemposta. As freguesias que pertenceram em tempos ao concelho de Bemposta dividem-se hoje, na sua maior parte, pelos concelhos de Oliveira de Azeméis e Albergaria-a-Velha;
1856 – Torreira anexada à paróquia da Murtosa, para efeitos eclesiásticos, após a anexação civil no ano anterior;
1867 – Decreto-Lei, que parece não ter chegado a ser executado, agregava várias freguesias, assim criando as novas de: Avanca (Avanca e Loureiro), Beduído (Beduído e Veiros), Murtosa, Pardilhó (Pardilhó e Bunheiro), Salreu, e Fermelã (Canelas e Fermelã). Esta nova de Fermelã (Canelas e Fermelã) era anexada ao concelho de Albergaria-a-Velha;
1875 – Comarca de Estarreja divide-se em 3 julgados: Estarreja/Beduído (Avanca, Beduído, Pardilhó), Murtosa (Bunheiro, Murtosa, Veiros), Salreu (Canelas, Fermelã, Salreu);
1898 – Fermelã é incluída na comarca de Albergaria-a-Velha, onde permaneceria durante décadas;
1926 – Criação do concelho da Murtosa, com as freguesias da Murtosa e Bunheiro, pertencentes a Estarreja;
1926 – A Torreira, lugar do Bunheiro há decadas, torna-se freguesia;
1926 – Pardilhó anexado ao concelho de Ovar;
1928 – Pardilhó volta para Estarreja, não chegando a realizar-se o plebiscito previsto, segundo o qual o povo da freguesia decidiria a que concelho deveria pertencer: Ovar, Estarreja ou Murtosa;
1933 – Criada a freguesia do Monte, antes lugar da Murtosa;
1973 – Avanca promovida à categoria de Vila (designação meramente honorífica);
1997 – Torreira promovida à categoria de Vila (idem);
2005 – Estarreja promovida à categoria de Cidade, Pardilhó e Salreu à de Vila (idem).


In “Estarreja e Murtosa no novo mapa autárquico”, O Jornal de Estarreja, n.º 4569, 3.6.2011, pp. 1-4

sábado, 23 de junho de 2012

A Terra Marinhoa na Idade Média - Primeiras referências escritas


(CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR)

A Terra Marinhoa nos séculos XIII e XIV. Primeiros lugares referidos e respectivas datas. Daqui deduz-se que a maior parte das pessoas viviam perto da ria, principalmente na antiga foz do Vouga, por este ser via de comunicação e a localização revelar-se estratégica.


In "A Terra Marinhoa na Idade Média", Junta de Freguesia de Veiros, 2010, p. 28

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Terra Marinhoa na Idade Média - Território

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DEFINIÇÃO DE TERRA MARINHOA. – Procurando de certo modo explicar o que seja a terra da Marinha, escreveu Gonçalo António TAVARES DE SOUSA [28], referindo-se às terras de Avanca e Beduído aquando da doação de 1257, que «A estas duas Villas se reduzia n’esse tempo a povoação do territorio que depois veio a constituir o concelho de Estarreja, sendo mattos, pantanos, e juncaes todo o tracto de terra que fica para a parte do mar, que por isso ainda agora se designa pelo nome de Marinha, e comprehende quatro Freguezias, Pardilho e Bunheiro, que se desmembraram, e desmembraram da matriz de Avanca, - e Veiros, e Murtosa que se desmembraram da sua matriz, S. Tiago de Bedoido».

Na versão de José TAVARES [29] «As freguesias do concelho da Murtosa e as de Pardilhó e Veiros, do concelho de Estarreja, têm grandes afinidades entre si e acentuada autonomia em relação às circunscrições vizinhas. Formam uma região natural com individualidade própria, reconhecida geralmente e desde remota idade, cujas características encontram na designação topográfica de Marinha completa e definitiva expressão. Marinha é o conjunto de povoações e terras de cultivo que, a partir da Idade Média, se vêm formando no embrechado de esteiros e canais do acidente marítimo da Ria, entre Fontela e a foz do Rio Velho, até ao rebordo serrano, de areias soltas, que ligava as antigas vilas de Antuã e Avanca».

Temos pois, para alcançar uma definição satisfatória de Terra Marinhoa, as seguintes características: Na geografia física, um território de terras baixas e altitude quase constante, pouco acima das águas do mar, constituído por terrenos arenosos formados por aluvião. Na geografia humana uma certa identidade, cultural e económica, mais ou menos comum, embora com diferenças assinaláveis que permitem distinguir cada uma das freguesias entre si. Em suma a Terra Marinhoa corresponde às freguesias de Pardilhó, Bunheiro, Murtosa, Monte e Veiros, devendo juntar-se-lhes por razões de semelhança a Torreira e certas franjas dos concelhos de Estarreja e Ovar.

Fig. 2. Fases da formação da Ria de Aveiro (Amorim Girão, “Geografia de Portugal”, 1941, p. 104).

FORMAÇÃO DA RIA DE AVEIRO. – Alberto SOUTO defendeu que a formação da ria de Aveiro se divide em três fases [30]: primeiro ter-se-ia formado a Terra Marinhoa, depois a Gafanha, e por fim a vasta língua de areias da Gelfa, em parte da qual assenta hoje a Torreira.

Para AMORIM GIRÃO os terrenos a nascente, antigos, distinguem-se dos situados a poente, «formações recentes, quaternárias, de sedimentação marinha e em parte fluvial» [31], admitindo que no período romano parte do cordão litoral estivesse constituído [32]. O autor conclui que a ria não deverá ter mais de 2000 anos, embora cabendo a sua verdadeira datação aos geólogos e arqueólogos [33].

Da análise à actual carta geológica verifica-se que a Terra Marinhoa possui, em toda ela, grandes manchas de depósitos de praias antigas e de terraços fluviais, do Plio-Plistocénico, o que não se vê no centro urbano de Ovar e para nascente deste, na Gafanha, e muito menos no cordão litoral. Estes factos levam a crer que regressando 2000 anos no tempo não se encontrará a Terra Marinhoa totalmente submersa, bem pelo contrário.

A Barrinha de Esmoriz, outro acidente litoral de certa similitude com a ria mas bem mais pequeno, encontra-se documentada no ano de 897, «uilla de ermoriz que est circa lagona de auille» [34], e em 922 «lagona de Auuil» [35]. Embora à época a Barrinha de Esmoriz fosse substancialmente maior, o mero facto de existir lembra-nos que o tempo geológico é diferente do tempo humano.

Aquando da doação do Couto de Antuã por D. Afonso III ao Mosteiro de Arouca, em 1257, diz Gonçalo António TAVARES DE SOUZA que a Terra Marinhoa se constituía de matos, pântanos e juncais (e não água). Na maior parte da sua extensão será verdade, mas não no seu todo, como se comprovará pelos documentos neste estudo apresentados. Estava praticamente tão emersa como hoje. É porém fora de dúvida que a linha de costa era mais recortada, muito provavelmente como no desenho proposto por FERNANDES MARTINS, e alguns espaços então navegáveis tiveram posterior assoreamento, capaz de diminuir os fundos da ria e erguer algumas das actuais terras alagadiças. Assim se justifica que na aludida doação de 1257 se diga «vadit ad portum de Fontanela et vadit per venam et intrat in venam que vocatur de Ovar». Teria pois Fontela um porto, mesmo que modesto, como as actuais ribeiras, com cais próximo de Mourão ou mesmo ali. Por isso terá por vezes ocorrido a descoberta de restos de embarcações nas proximidades de Fontela [36]. Por outro lado existia a veia de Ovar. Já um porto de Estarreja, como por vezes se vê em manuais escolares, não se conhece nenhum documento que autorize a sua existência na Idade Média.

Pouco abaixo da Murtosa a Ilha Testada foi objecto de contrato em 1407, então confrontando com a «uea de uouga e da outra parte com a uea que uay para o ual cabanões e da outra parte com a uea que vem pella passagem de caçia e uai pera o mar» [37]. E embora o pároco da Murtosa escrevesse, no seu relatório de 1758, que o rio vindo de Ovar era largo e fundo, séculos antes (1394) D. João I proibia o lançamento de pedras na veia de Ovar [38], para que não se tornassem obstáculos à navegação.

Fig. 3. A Ria de Aveiro no final do século XIV, de acordo com Fernandes Martins (Biblos, XXII, 1947, p. 186).


MÂMOAS. – Já atrás se disse que os arqueólogos têm uma palavra a dizer sobre a origem da ria de Aveiro [39]. Nesse sentido Alberto SOUTO [40] não teve dúvidas em aceitar que tenha de facto existido a Mâmoa de Veiros, a qual contribuiu para a atribuição de uma maior antiguidade à ria. Mais acrescentou o mesmo investigador:

«Mas o que não admite dúvidas, é a existência da mâmoa de Veiros e da mama parda em plena margem da ria da Murtosa, em terrenos arenácios e vasosos de acumulação marinhoa e fluvial, laterais, por acidente, de uma duna cujo material superior móvel cobre concreções ferruginosas com aspectos de consolidação, duna essa que acompanha a via férrea de Estarreja até Espinho.

Os próprios terrenos de Veiros e Murtosa encontram-se fortemente concrecionados e ferretizados sob a camada arável. Trata-se muito provàvelmente de uma duna quaternária ou de um cordão litoral que desde os tempos pleistocenos obstruiria o remoto estuário do Vouga.

Mas as mâmoas bastam para nos datarem essas grandes emergências de uma época indiscutivelmente anterior aos próprios megálitos!


[…]

Mantendo uma opinião por mim há muito expressa, entendo que na época romana a topografia regional não diferiria essencialmente da presente, a não ser em pormenores tais como a consolidação do cabedelo costeiro, a acumulação vasosa, o avanço dunar, a modificação dos fundos e das emergências. O delta já deveria existir.» [41].

Neste mesmo sentido AMORIM GIRÃO aceitou explicitamente a Mâmoa de Veiros, e teve o cuidado de desenhar uma curva que a abrangesse num mapa do estágio inicial de formação da ria de Aveiro [42] (cf. Fig. 2, primeiro mapa).

Em documentos respeitantes à zona da Murtosa, datados de 1291 [43] e 1294 [44], consta uma mâmoa de Aruffo ou Arufo, nome que volta a observar-se nas inquirições de 1334 [45].

LOPES PEREIRA defendia que a chamada mâmoa da Murtosa era a Mama-Parda [46], e alude a uma outra mâmoa da Graça [47], cuja localização desconhecemos. Todavia este autor não é favorável a que se aceite que estes nomes respeitem a monumentos funerários pré-romanos.

No séc. XVI são variadas as referências a mâmoas. Encontra-se na Murtosa um «Prazo feito a João Cam depardelhas, de hum pedaço deterra na Mamoa das Insoas» (1528) [48] e «oiteiro da Mamoa» (1528) [49], em Sedouros «chão da Mamoa» (1528) [50], Mâmoa de Veiros (1528) [51], e «Caterina Affonso da Mamoa da Arrota do outeiro da Mamoa» (1534) [52]. Uma mâmoa da Murtosa encontra-se noutra fonte do mesmo séc. XVI [53].

Conclui-se que além da Mâmoa de Veiros tenham existido na Murtosa pelo menos outros dois monumentos similares: um no norte, entre Pardelhas e Sedouros, e outro a sul, entre as terras de Pardelhas e as de Antuã, relativamente próximo da ria.
Fig. 4. A Região Marinhoa na Carta Geológica de Portugal.


UM VASTO MATAGAL ENTRESACHADO. – «Um vasto matagal entresachado, assim definiu o historiador Costa Lobo o Portugal do século XV. Outro tanto se poderia afirmar para as épocas anteriores. Florestas e brenhas cobriam grande parte do País, convertendo-se em óptimo refúgio de feras e de animais bravios. Aqui e além vislumbrava-se um montículo de casas, centro periférico de alguns campos arroteados que lhe sustentavam a população.» [54].

Esta perspectiva é correcta, se aplicada à Terra Marinhoa durante a Idade Média. A maior parte do território era de matos, pântanos e juncais, quando em 1257 D. Afonso III doou o Couto de Antuã ao Mosteiro de Arouca, como se disse atrás. Mas alguns espaços terão exercido actividade económica desde o período da reconquista, ou mesmo na época Sueva/Visigoda, como é o caso de Telhões (Bunheiro) e Romariz (Bunheiro). Desde 1210 e em diante as fontes escritas atestam a preocupação dos monarcas, e depois do Mosteiro de Arouca, em povoar a região e promover arroteamentos, designadamente estabelecendo tributos mais favoráveis sobre os rendimentos das terras que, não tendo aproveitamento, passassem a ser utilizadas.

ALDEIAS. – A expressão aldeia teve na Idade Média, entre outros sentidos [55], aquele que hoje lhe damos de pequena povoação. É este título de aldeia que cabia a Pardelhas, Murtosa, Veiros e Estarreja no séc. XVI [56], e talvez em data anterior Pardilhó [57].

POPULAÇÃO. – Aquando do Numeramento de 1527 [58] a população marinhoa era ainda diminuta, contando-se em poucas cabeças. Por esta altura, a introdução do milho grosso na agricultura terá suscitado um significativo aumento populacional, talvez devido essencialmente à migração de populares das serranias vizinhas. Facto é que em 1623 [59] a população local era muito maior.

Naquele curto espaço de um século o Bunheiro aumentou os seus residentes de cerca de 76 habitantes (Sedouros) [60] para 710 (incuindo Pardilhó), e a Murtosa de 276 (Pardelhas e Murtosa) para 698 pessoas. Pardilhó e Veiros teriam em 1527 aproximadamente 80 e 136 habitantes, respectivamente, não se sabendo quantos eram em 1623.

Consultando um índice de aforamentos que vai de 1526 a 1712 [61], e contando o número de aforamentos por lugar, poderemos ficar com uma ideia de quais eram os lugares mais habitados nesse intervalo de tempo. Contém esse índice os seguintes aforamentos: Veiros 46, Antuã 41, Estarreja 30, Murtosa, 27, Saidouros (sic) 19, Avanca 18, Pardilhó 10, Ladeira (Salreu) 9, Bunheiro 7, Santiago (Beduído) 7, Adou (Salreu) 7, etc. Entre outros lugares observam-se, com aforamentos, os de: Teuxugueiras (Pardilhó?, com 6), Marinha da Borralha, Andoeiros, Romariz, Mamoa, Marinha, Ilha de Lourosa, Outeiro da Mamoa, Caneira, Marinha do Ferreiro (5 aforamentos). Mencionam-se ainda os lugares de: Meijil e Sobrelha (1526, perto das Teixugueiras), Marinha da Fonte Quebrada e Insoa (1528), e Moradal (1528).

PESTE. – De acordo com António MEIRELES [62], o ano de 1200 foi de grande fome, tendo morrido a terça parte da população portuguesa, com particular incidência na Terra de Santa Maria, após um ano de muita chuva que prejudicou a agricultura. É crível que a falta de braços para o amanho da terra tenha motivado a outorga de diplomas, como o aforamento colectivo concedido em 1210 a Veiros.

Mais tarde fala-se de pestes. Sabe-se de as haver em Portugal em 1348 e 1415 [63], e a de 1348 teve particular intensidade. A criação de gado na Gelfa ficou afectada pela peste de 1348, conforme nos diz notícia de 1355 [64].

A população de Pardelhas sentiu uma quebra, documentada em 1410 e 1451 [65], cuja causa foi o efeito das pestes. Além do sumário das providências de Afonso V, conhece-se o próprio diploma ordenado pelo monarca, no qual diz sobre Pardelhas que «por as pestilencias grandes que sse seguiram se despovorara grande parte» [66].
Fig. 5. “Descripção da Barra de Aveiro”, Atlas de João Teixeira, Séc. XVII (1648).



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[28]. “Exame da questão sobre os foros do convento de Arouca…”, pp. 10-11.
[29]. “Notas Marinhoas”, I, 1965, p. 5.
[30]. “Origens da Ria de Aveiro”, 1923, p. 97-98.
[31]. “A Bacia do Vouga”, p. 56.
[32]. “A Bacia do Vouga”, p. 61; cit. Alberto SOUTO, “Origens da Ria de Aveiro”, p. 119 e 125.
[33]. “A Bacia do Vouga”, p. 63. Ao referir-se aos arqueólogos o ilustre professor da Faculdade de Letras de Coimbra tinha em mente a existência passada de monumentos megalíticos, em certas terras de aluvião do complexo lagunar.
[34]. PMH-DC, p. 8, doc. XII.
[35]. PMH-DC, p. 16, doc. XXV.
[36]. «Sobre crusta de terra superior ao barro (que é terreno secundário, ou de aluvião) apparecem com muita frequencia, madeiros, mastros, e vários despojos de navios, o que prova que esta crusta formou por seculos a camada superficial da costa maritima, e que a areia a invadiu posteriormente» (PINHO LEAL, “Portugal Antigo e Moderno”, VI, 1875, p. 478, s. v. Pardilhó). Marques GOMES mencionou acharem-se frequentemente restos de navios no Bunheiro (“A Murtoza – A propósito da sua autonomia”, de José Maria Barbosa, 1899, p. XII).
[37]. “Milenário de Aveiro”, doc. LXXX, p. 153; Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 62.
[38]. J. M. Silva MARQUES, “Descobrimentos Portugueses”, I, n.º 187, pp. 202-203; cit. Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 62.
[39]. AMORIM GIRÃO, “A Bacia do Vouga”, p. 63; repetiu-o Eduardo COSTA, na revista “Aveiro e o Seu Distrito”, VIII, 1969, pp. 16 e 17.
[40]. “Origens da Ria de Aveiro”, 1923, p. 128, citando AMORIM GIRÃO, em “A Bacia do Vouga”.
[41]. Alberto SOUTO, “Romanização no Baixo Vouga”, p. 306.
[42]. AMORIM GIRÃO, “A Bacia do Vouga”, pp. 58-58b. Aceita igualmente a Mâmoa de Veiros LEITE DE VASCONCELOS, “Opúsculos”, V, 1938, pp. 50-51, e no Arqueólogo Português, XVII, pp. 255-265. LOPES PEREIRA contesta a existência destes monumentos líticos, apoiando-se na citação de Amorim Girão «mâmoas em toda a região da Ria de Aveiro traduzem as ilhas primitivas», mas não diz onde foi buscar esta citação (“Murtosa Terra Nossa”, pp. 23-24).
[43]. ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 1, m. 1, n. 29; publicado por Luís RÊPAS, “Quando a nobreza traja de branco…”, II, 2000, pp. 365-366, doc. 69.
[44]. ANTT, Mosteiro de Arouca, g. 7, m. 1, n. 8; publicado por Luís RÊPAS, “Quando a nobreza traja de branco…”, II, 2000, pp. 424-425, doc. 109.
[45]. Notou-o Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 13 e 193.
[46]. “Murtosa Gente Nossa”, p. 40.
[47]. “Murtosa Terra Nossa”, p. 23.
[48]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 264v.
[49]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 265.
[50]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 265.
[51]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 265.
[52]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fl. 266.
[53]. ADP, Cabido, vol. 788, fls. 158v-166 (Tombo dos Votos da Feira, em cópia de 1781). O «cazal da Mamoa» na Murtosa refere-se igualmente em “Os votos de S. Tiago no Terceiro Caminho da Comarca da Feira (1695-1700)”, p. 97.
[54]. A. H. de OLIVEIRA MARQUES, “A Sociedade Medieval Portuguesa”, 2.ª ed., 1971, p. 1.
[55]. “Elucidário…”, s. v. Aldea.
[56]. ADP, Cabido, vol. 788, fls. 158v-166 (Tombo dos Votos da Feira, séc. XVI, cópia de 1781).
[57]. ANTT, Mosteiro de Arouca, vol. 10, fl. 43 («aldea de Pardelho», na terra de Antuã, documento sem data mas chamando-se a Abadessa Isabel).
[58]. FREIRE, Anselmo Braamcamp, “A Povoação da Estremadura no XVI Século”, Arquivo Histórico Português, vol. VI, 1908, pp. 275-277; notado por Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 187-188, e LOPES PEREIRA, “Murtosa Terra Nossa”, p. 58.
[59]. “Catálogo dos Bispos do Porto”, 1623.
[60]. Número de vizinhos em 1527, multiplicado por quatro.
[61]. AUC, III-1.ºD-13-4-11, fls. 262-281v.
[62]. “Memórias de Epidemiologia…”, pp. 209-210; Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 122-123, nota, menciona peste cerca de 1191 na Terra de Santa Maria.
[63]. António MEIRELES, “Memórias…”, p. 249.
[64]. ANTT, Tombo do Mosteiro de Grijó, I, fls. 242-245; cf. Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 77 e 121.
[65]. ANTT, Mosteiro de S. Bento da Ave-Maria (Porto), Lv. 3, fl. 79v.; Cf. Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, pp. 123 e 186.
[66]. ANTT, Estremadura, Lv. 8, fl. 202v; o documento é citado por Miguel de OLIVEIRA, “Ovar na Idade Média”, p. 123.

In "A Terra Marinhoa na Idade Média", Junta de Freguesia de Veiros, 2010, pp. 14-22
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Toponímia da Região Marinhoa - Nomes de freguesias e lugares

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VEIROS. – O nome de Veiros, primitivamente escrito Veeyros, deriva possivelmente dos veios de água locais [12], que eram as suas vias de acesso preferencial. Há opiniões defendendo tratar-se do nominativo do antropónimo latino Velerius [13], apesar da toponímia antroponímica ser em regra genitiva e extremamente rara no nominativo. Não só existem localidades portuguesas e galegas com nome igual ou parecido, como a Galiza tem o destacado endereço na internet http://www.vieiros.com/, cujo nome significa caminhos, concordando pois com os veios.

OLAS (VEIROS). – Aponta-se-lhe ligação a água em remoinho, como sucede nos rios [14].

MALPICA (VEIROS). – Segundo David LOPES será um topónimo de origem provençal [15].

MURTOSA. – Para alguns autores Murtosa relaciona-se com a planta murta [16].

Outra hipótese poderá dar-se. Em muitos documentos medievais portugueses mencionam-se murtórios, que eram bens imóveis abandonados (casas e terrenos). Ao colono que os utilizasse assistia o direito de fogo morto, tornando-o seu possuidor. Era então possível a ocupação de imóveis, hoje não admitida pela lei. Em Salreu há uma rua do Mortório, nome que deverá ter este significado. Em razão de pestes ou outra causa de despovoamento poderão ter-se desocupado casas e terras, que quando mais tarde reocupadas designavam-se de murtórios, de onde houve talvez Murtosa [17].


Fig. 1. Primeiros vestígios de presença humana nos concelhos de Estarreja e Murtosa.


BUNHEIRO. – Não suscita dúvidas que o topónimo Bunheiro tem origem em bunho (ou búinho – junco), planta comum na região [18].

PARDELHAS E PARDILHÓ. – A teoria mais consistente sobre a origem dos nomes de Pardelhas e Pardilhó, e que tem franca aceitação doutrinal, é a que os relaciona com parede [19], acrescendo os sufixos –elhas e – elho [20].

Em Portugal é frequente Pardelhas (Fafe, Marão, Paços de Ferreira, Arouca), com variantes de parede em muitos outros locais. Incluem-se em terras próximas os lugares de Paredes e Outeiro de Paredes (Avanca), Pardieiros (a norte de Água Levada) e Marinha Pardilhoa (na ria). Por outro lado o onomástico medieval do nosso país é fértil em expressões relacionadas com parede: Pardellas (883) [21], Paretelias (911 e 960) [22], e mais documentação posterior.

Pardelhas da actual freguesia da Murtosa surge, escrita como hoje, em 1287, ao passo que Pardilhó consta em 1346-1357 como Pardilhoo ou Pardelhoo [23]. Daí em diante Pardilhó escreve-se frequentemente Pardelho [24].

Em meio arenoso e sem rochas, pode custar a aceitar os dois topónimos derivados de parede. Contudo é preciso que se lembre que no ano de 929 havia nas redondezas salinas, com «muris et moris» e «muros petrineos», pelo menos estas «salinas nostras proprias quam auemos in uilla dagaredi et auent iacentia ipsas salinas in loco predicto quod uocitant capetello iuxta corte salinas ariani de parte stario fontanella» [25], e quem sabe se outras que não tenham tido a sorte de se conservarem gravadas em letra de forma.

TORREIRA. – Aceita-se geralmente que o topónimo Torreira deva a sua origem à quentura do lugar [26]. Em desacordo, há quem defenda a possibilidade de relacionar-se com torre, por uma ter talvez existido por alturas do Muranzel [27]. Torreira é apelido, e igualmente topónimo na Galiza.

Outra hipótese pode ser colocada, e não menos digna de crédito. A norte, atravessando a fronteira para Ovar, localiza-se o Torrão do Lameiro. Torrão e Torreira têm a sua semelhança e a antiguidade de ambos deve equivaler-se. Um e outro se situam na antiga Gelfa, região onde pastavam gados livremente. Nos dicionários afirma-se a relação fácil de compreender de Torrão


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[12]. J. M. PIEL, “Miscelânea de Etimologia Portuguesa e Galega”, 1953, pp. 306-307 (Veeiro/Vieiro, no sentido de veia); Pedro Augusto FERREIRA, “Tentativa Etymologico-Toponymica”, vol. 3, p. 210 (veio de água, e outras hipóteses); A. de ALMEIDA FERNANDES, “Toponímia Arouquense”, 1995, s/p (a propósito de Vieiras diz que Vieiro e Vieiros terão significado de veia, no sentido de riachos ou arroios), e do mesmo autor “Toponímia do concelho de S. João da Pesqueira”, 2003, p. 225 (Vieiros «Sem dúvida, um riacho – ou, no nosso caso, mais que um. A escrita devia ser Veeiros, pois está-se com veia (
[13]. LEITE DE VASCONCELOS, “Opúsculos”, III, pp. 265-266; A. de ALMEIDA FERNANDES, “Toponímia Portuguesa”, 1999, p. 86 (sobre Veiro). É diferente a situação de Beiriz e Viariz, ditos germânicos por David LOPES, “Nomes árabes de terras portuguesas”, 1968, p. 144, por isso improvável a ideia de Veiros ser novi-godo, como propôs LOPES PEREIRA, “Murtosa Terra Nossa”, 2.ª ed., 1995, p. 35. De descartar a ligação de Veiros a aves, apresentada na juventude por AMORIM GIRÃO, “A Bacia do Vouga”, p. 61, até por tratar-se de matéria fora da sua esfera de autoridade enquanto geógrafo.
[14]. Joseph M. PIEL, “As Águas na Toponímia Galego-Portuguesa”, Boletim de Filologia, Tomo VIII, 1945, pp. 333-335 (cit. Joaquim da Silveira); Santos AGERO, “Etimologias Portuguesas”, Revista Lusitana, vol. 38, 1943, pp. 106-107.
[15]. David LOPES, “Nomes árabes de terras portuguesas”, 1968, p. 146.
[16]. LEITE DE VASCONCELOS, “Opúsculos”, III, p. 29; J. J. NUNES, “A vegetação na toponímia portuguesa”, Boletim da Segunda Classe da Academia de Sciências de Lisboa, vol. XIII, 1918/1919, ed. 1921, p. 156; Pedro Augusto FERREIRA, “Tentativa Etymologico-Toponymica”, vol. 1, p. 256; Antenor NASCENTES, “Dicionário Etimológico…”, 1952.
[17]. LOPES PEREIRA faz derivar o nome Murtosa de terra morta, em “O Progresso da Murtosa”, n.º 362, 15.8.1936, p. 6.
[18]. J. J. NUNES, “A vegetação na toponímia portuguesa”, Boletim da Segunda Classe da Academia de Sciências de Lisboa, vol. XIII, 1918/1919, ed. 1921, p. 141; A. de ALMEIDA FERNANDES, “Toponímia Portuguesa”, 1999, p. 84; Pedro Augusto FERREIRA, “Tentativa Etymologico-Toponymica”, vol. 3, p. 222; José TAVARES, “Notas Marinhoas”, I, p. 60.
[19]. LEITE DE VASCONCELOS, “Opúsculos”, I, pp. 552; do mesmo autor “Etimologias Portuguesas”, Revista Lusitana, VII, 1902, pp. 70-72; Pedro Augusto FERREIRA, “Tentativa Etymologico-Toponymica”, vol. 3, p. 89; J. M. PIEL, “Miscelânea de Etimologia Portuguesa e Galega”, 1953, pp. 234 e 334; Miguel de OLIVEIRA, “Pardilhó – nota etimológica”, Santa Maria de Válega, n.º 1, Março de 1967 (Pardelhas e Pardilhó, femininos, são diminutivos de parede, possivelmente relacionados com paredes de salinas); LOPES PEREIRA, “O Reguengo de Pardelhas”, Concelho da Murtosa, n.º 485, 21.3.1936, p. 1 (associa Pardelhas a parede, de palheiros, e cita LEITE DE VASCONCELOS, Revista Lusitana, VII), e “Murtosa Terra Nossa”, 2.ª ed., 1995, pp. 41-42 (Pardelhas e Pardilhó derivam de parede, por pardeeiros – casas humildes); MONTENEGRO DUQUE, “Toponimia Latina”, Enciclopédia Lingüística Hispánica, I, p. 519 (alguns topónimos relacionados com parede). José Pedro MACHADO entendeu que Pardilhó «deve estar por Pardelhó, dimin. ant. de Pardelha», e estabelece relação com parede por remissão para Pardelhas. Finalmente ALMEIDA FERNANDES escreveu que «Significa paredes pequenas – sendo paredelhas uma palavra tipicamente medieval» (“Meadela Histórica”, 1994, p. 21), acrescentando ser Pardelhas igual a Paredelhas, diminutivo de parede (muros), notando que parece também significou prédio rústico, cercado de muros (“Toponímia Arouquense”, 1995, s/p).
[20]. Sobre estes sufixos leia-se J. M. PIEL, que entre outros elementos afirmou poder nalguns casos estar –ilho por –elho (“A formação dos nomes de lugares e de instrumentos em português”, Boletim de Filologia, VII, 1940, pp. 1-17; “Estudos de Linguística Histórica Galego-Portuguesa”, 1989, pp. 208-209).
[21]. PMH-DC, doc. X, ano 883, p. 7.
[22]. PMH-DC, doc. XVII, ano 911, p. 12; PMH-DC, doc. LXXVIII, ano 960, p. 49.
[23]. Com o –o final duplo, a indicar que é aberto, portanto feminino, como em Pardelhas.
[24]. Em 1592 imprime-se Pardelhoo (ADP, Tombo da Mesa Abacial, Convento de Paço de Sousa – Penafiel, vol. 4, fl. 599v).
[25]. PMH-DC, doc. XXXV, ano 929, p. 22.
[26]. A. de ALMEIDA FERNANDES, “Toponímia Arouquense”, 1995, s/p; «Torreira, pela ardência do chão e a tremulina dos ares», como diz José TAVARES, “Notas Marinhoas”, IV, 1994, p. 39.
[27]. LOPES PEREIRA, “Murtosa Terra Nossa”, 2.ª ed., 1995, p. 26.


In "A Terra Marinhoa na Idade Média", Junta de Freguesia de Veiros, 2010, pp. 9-13
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Livro “A Terra Marinhoa na Idade Média” é editado pela Junta de Freguesia de Veiros

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O livro “A Terra Marinhoa na Idade Média”, da autoria de Marco Pereira, é apresentado a 21 de Agosto de 2010, às 18 horas, na nova sede da Junta de Freguesia de Veiros, que promove a edição. O estudo histórico é o resultado de anos de pesquisa, repartida pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Biblioteca Pública Municipal do Porto, Biblioteca Nacional de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo da Universidade de Coimbra, Arquivo Distrital do Porto, entre outros.

A chamada Terra Marinhoa, que é alvo do estudo, corresponde ao concelho da Murtosa, mais as freguesias de Veiros e Pardilhó do concelho de Estarreja. Em 1250 D. Afonso III confirmou o aforamento colectivo de «Veeyros», outorgado por D. Sancho I em 1210, que constitui a primeira referência escrita à Terra Marinhoa. Outros aforamentos colectivos viriam a ser promovidos pelo Mosteiro de Arouca, donatário da terra desde 1257, no sul de Veiros (1274) e da Murtosa (1286). A população ocupou assim, inicialmente, as terras junto à antiga foz do Vouga, o que assegurava melhores comunicações.

A primeira notícia do Bunheiro data de 1378, quando dois pescadores dali foram demandados pelo Mosteiro de Arouca, por pescarem e venderem dois golfinhos, sem pagar a terça parte devida ao Mosteiro. Nesta freguesia mencionam-se salinas em 1707, época muito recente para as haver no norte da ria de Aveiro.

No início do século XVI a introdução do milho grosso, fruto das descobertas marítimas portuguesas, transformou a paisagem e contribuiu para o aumento da população (afectada nos séculos anteriores pela Peste Negra), substituindo a até aí cultura dominante do trigo. É por essa altura que se estabelecem as primeiras igrejas.

Do lado oposto da ria, na região onde actualmente se ergue a Torreira, criavam-se na Idade Média cavalos e vacas. Apresenta-se enfim informação de interesse arqueológico, que contribui para a medição da idade da ria de Aveiro.
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Estarreja e Murtosa no Concílio Vaticano II

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Assinalaram-se em 2005 os 40 anos da conclusão do Concílio Vaticano II, efeméride que não passou despercebida na maior parte da comunicação social. Sendo um acontecimento dos mais marcantes na história da Igreja Católica, é para a nossa terra importante lembrar que nele participou gente da nossa gente.

A fotografia que aqui reproduzimos saiu na primeira página do “Correio do Vouga”, órgão oficial da Diocese de Aveiro, edição de 17.12.1965. Nesta fotografia, tirada em Roma em finais de 1965, constam os Prelados oriundos da Diocese de Aveiro que participaram no importante acontecimento. São ao todo sete, três dos quais naturais do concelho da Murtosa e dois do de Estarreja. Devemos o recorte de jornal, donde extraímos a fotografia, ao senhor Padre Manuel Cirne, que teve a simpatia de no-lo emprestar.

Podem identificar-se, em cima e da esquerda para a direita: D. Manuel de Almeida Trindade, Bispo de Aveiro; D. Frei Francisco Fernandes Rendeiro, O. P., Bispo Coadjutor de Coimbra, da Murtosa; D. Francisco Nunes Teixeira, Bispo de Quelimane (Moçambique), da Póvoa de Beduído; e D. Júlio Tavares Rebimbas, Bispo Eleito do Algarve, do Bunheiro. Em Baixo: D. Manuel Maria Ferreira da Silva, Arcebispo Titular de Cízico e Presidente das Obras Missionárias Pontifícias, de Pardilhó; D. Francisco Maria da Silva, Arcebispo Primaz de Braga, do Monte da Murtosa; e D. Manuel dos Santos Rocha, Arcebispo-Bispo de Beja, o qual se considerava de Calvão, embora houvesse nascido no Brasil.

De todos eles o único vivo é D. Júlio Tavares Rebimbas, que na altura acabara de se tornar Bispo, pelo que ainda pôde participar na última sessão do Concílio. De notar que dos sete que constam na fotografia pode dizer-se que cinco são marinhões: três são do concelho da Murtosa e os dois de Estarreja são de Pardilhó e da Póvoa de Beduído, que já fica nas terras baixas e arenosas da Terra Marinhoa. Poucas terras no mundo se poderão gabar de ter uma tão numerosa e distinta representação naquele momento histórico!

In "O Concelho de Estarreja", n.º 4162, 18.1.2006, p. 6; e
"O Concelho da Murtosa", n.º 2103, 23.1.2006, p. 21

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