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quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Monografia da Murtosa, vol. 4 (2021)


 

No âmbito das comemorações do 29 de Outubro, aniversário da criação do concelho da Murtosa, promovidas pela Câmara Municipal da Murtosa, foi apresentado o 4.º volume da "Monografia da Murtosa", de que é autor Marco Pereira. A apresentação do livro teve lugar no recentemente renovado CRM (Centro Recreativo da Murtosa) - Oficina de Dança e Artes Criativas, pelas 10h00. Ao ritmo de um volume por ano, sempre apresentado no dia 29 de Outubro, a "Monografia da Murtosa" pretende estudar o concelho nas suas variadas vertentes, sempre na perspectiva histórica. Este ano o tema abordado é o da Idade Média, conforme o sumário abaixo, mas referem-se também alguns aspectos sobre a Idade Moderna, fazendo a ligação com a actualidade.

ORIGEM HISTÓRICA (IDADE MÉDIA E IDADE MODERNA)

Os primeiros testemunhos da presença humana, na área do atual concelho da Murtosa, encontram-se apenas gravados na toponímia: duas mamôas (Mama Parda e Mamoa da Garça), dois nomes de possível origem árabe (Gelfa e Muranzel) e dois nomes de lugar de origem germânica, da época das invasões bárbaras (Romariz e Arrufo).

Encontram-se documentados os nomes dos principais núcleos desde o século XIII: Gelfa (1283), Murtosa (1286), Pardelhas (1287) e Bunheiro (1372). Diferencia-se em vários aspetos a Idade Média da Idade Moderna, já se distinguindo naquela a Terra Marinhoa. Naquele período destacam-se temas como a Peste Negra (1348), uma demografia escassa e com razoável mobilidade demográfica, a exploração dos populares e um caso de participação no desastre de Tânger (1437).

Eram as instituições monásticas que dominavam o território, sendo as principais o Mosteiro de Arouca e o Mosteiro de Vila Cova de Sandim (Gaia), este mais tarde agregado ao Mosteiro de São Bento de Ave-Maria, no Porto.

As terras de Antuã/Estarreja pertenciam ao Mosteiro de Arouca desde 1257 (incluíam a freguesia do Bunheiro e metade da da Murtosa), até meados do século XIX, que dali recebia foros e oitavos. A outra metade da freguesia da Murtosa (lugares de Pardelhas e Ribeiro) foi do século XIII ao século XIX do Mosteiro de Vila Cova, depois São Bento de Ave-Maria. A Torreira era uma parte indiferenciada das dunas do litoral, a Gelfa, que pertencia a Cabanões (que depois se chamou Ovar) e onde se criava gado na Idade Média e na Idade Moderna.

A economia local baseava-se na agricultura, pecuária, salicultura e pesca. A cultura dominante do trigo na Idade Média deu lugar à do milho na Idade Moderna. A criação de gado na Gelfa nos dois períodos, que também se fez nas ilhas, incluiu desde cedo cavalos, vacas e porcos. As salinas constituíam uma importante atividade económica. Enfim a pesca, que se fazia na Ria na Idade Média, virou-se igualmente para o mar na Idade Moderna, quando as condições naturais a isso obrigaram.

O cruzamento de fontes genealógicas com outras pouco conhecidas pode fornecer abundante informação sobre quem eram e que terras possuíam antepassados que, no limite, viveram há 500 anos atrás.

“Monografia da Murtosa”, vol. 3, apresentada no dia 29 de Outubro de 2020



É o terceiro volume da “Monografia da Murtosa”, edição da Câmara Municipal da Murtosa e da qual é autor Marco Pereira. Uma colecção que vem sendo publicada ao ritmo de um livro por ano, sempre no dia 29 de Outubro, o aniversário da criação do concelho da Murtosa. O volume foi apresentado na quinta-feira, 29 de Outubro de 2020, às 10h15, na Oficina das Artes, Murtosa (antiga Escola de Pardelhas-Monte).

No livro publicado são focados dois temas: a História Eclesiástica e a Administração Pública. Na História Eclesiástica trata-se, entre outros assuntos, da demografia eclesiástica (estatísticas), criação das paróquias do concelho da Murtosa, residências paroquiais e salões paroquiais, Tribunal do Santo Ofício (Inquisição), Lei da Separação de 1911, associações, listas de bispos, párocos e sacerdotes naturais do concelho. Por sua vez, a Administração Pública dá atenção à criação do concelho da Murtosa e das suas freguesias, sedes do poder político, heráldica e listas de autarcas. Fazem ainda parte do tema da Administração Pública as fronteiras, normas locais, administração judicial, Registos e Notariado, Autoridade Tributária, segurança pública e os actos eleitorais. Sobre os actos eleitorais incluem-se tabelas e gráficos, dando conta dos resultados de todas as eleições, desde o 25 de Abril de 1974: Assembleia Constituinte, Referendos, Presidenciais, Legislativas, Europeias e Autárquicas.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Santo António de Estarreja


O mais popular dos santos populares portugueses, ao Santo António são dedicadas as seguintes capelas, nos concelhos de Estarreja e Murtosa:

1 – Em Avanca, no centro da freguesia, capela pública fundada em 1526, que serviu transitoriamente de igreja no século XVIII, enquanto esta se construiu;

2 – Em Beduído, a capela principal da sede do concelho, na Praça Francisco Barbosa, tendo igualmente existido outra particular com a mesma invocação no lugar de Beduído, no extremo norte da freguesia com o mesmo nome, que já se conhecia em 1732;

3- Em Canelas, que era em 1721 pública e a única capela da freguesia, sendo reconstruída em 1898 pelo Pe. Dr. António Domingues da Silva; há uma pequena capelinha particular ou alminhas com a mesma invocação na Quinta da Carvalha;

4 – Em Fermelã, pequeno templo particular, situado na Rua do Vale;

5 – Em Pardilhó, na Quinta do Rezende e por este inaugurada em 1937, de certo modo substituindo a capela com a mesma invovação, pública, que existiu no largo da igreja entre 1767 e 1926;

6 – Em Salreu, na EN109, particular e construída cerca de 1721; outra particular na Boavista, talvez de 1898;

7 – Em Veiros, alminhas no Canedo, particulares e construídas na década de 1970; é errada a invocação de Santo António por vezes atribuída ao Senhor da Ribeira, pois é seu verdadeiro titular Jesus Crucificado;

8 – No Bunheiro, particular, na Rua Prof. Ruela Ramos, onde este viveu (Quinta da Formiga);

9 – No Monte da Murtosa, a igreja paroquial, inaugurada em 1929, sendo antes titular da capela pública hoje dita de Santa Luzia, que já existia em 1758.

No caso concreto da capela de Santo António da Praça, isto é, a que existe na Praça Francisco Barbosa, centro histórico e político-administrativo do concelho de Estarreja, estamos perante uma reconstrução, que substituiu duas capelas mais antigas. A primeira situava-se aproximadamente onde estão os actuais Paços do Concelho. Os mordomos da confraria de Santo António da Praça peticionaram em 1733, ao bispo do Porto, a transferência desta capela pública para Norte ou Nordeste da actual. Com a justificação do seu estado degradado e para que os presos da cadeia pudessem assistir à missa. Juntou-se entretanto aos mordomos Mateus Afonso Soares, Desembargador e Corregedor do Cível da Casa da Relação do Porto, que ofereceu o terreno e suportou a maior parte dos custos da construção. Mas reservando para si alguns direitos, ainda que o templo continuasse considerado público. Colocaram-se uma pedra de armas e legenda, as imagens de São Mateus e de Santa Brígida, que ficaram honrando os nomes do Desembargador e sua esposa, senhores da Casa dos Morgados de Santo António da Praça, hoje Casa da Cultura, com acesso privilegiado à capela.

Estava esta segunda capela em ruínas, quando a Câmara Municipal de Estarreja, presidida pelo veirense Dr. João Carlos d’Assis Pereira de Melo, promoveu a construção da terceira e actual. Ficou concluída em 1881, como consta em inscrição colocada por cima da porta principal. A sua edificação é coeva à construção da praça a que hoje chamamos de Francisco Barbosa, realizada na década de 1870, mas afinal devida ao referido Dr. Pereira de Melo. Com o advento da república o Estado nacionalizou a capela, que ficou parcialmente destruída aquando da Monarquia do Norte (1919) e foi entregue à Paróquia em 1942 e novamente em 1961. Fizeram-se ali obras por ocasião das festas do 7.º centenário do Santo António, celebradas em Portugal em 1931, altura em foram colocados na fachada os dois painéis de azulejo da Fábrica do Outeiro (Águeda). As festas de Santo Anónio, que se deixaram de fazer, foram reativadas em 1957, sendo-lhe dedicada uma peça de teatro original no ano seguinte. Houve marchas luminosas, de organização popular, pela primeira vez em 1961, mas não se fez festa no ano seguinte.

Por deliberação da Câmara Municipal, datada de 21.12.1977, recaiu o feriado municipal sobre o dia de Santo António, 13 de Junho. Mereceu a capela um grande restauro entre 1990 e 1991, dando-lhe o seu aspecto actual, sendo a sagração solene do altar feita a 13.10.1991, pelo Bispo de Aveiro, D. António Marcelino. A autarquia promoveu em 1990 a Semana Cultural do Moliceiro, na altura do Santo António, que se realizou por 4 anos seguidos, com um primeiro mercado à moda antiga em 1991. A partir de 1994 os festejos passaram a ter um nome mais sugestivo, Festas de Santo António e do Concelho de Estarreja, e a sua organização foi conhecendo um progressivo investimento municipal.

In O Jornal de Estarreja, n.º 4882, 29.5.2020, p. 12

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Mais de 60 pessoas foram mortas em Salreu há 210 anos, durante a segunda invasão francesa

(Pormenor do registo paroquial de óbitos de Salreu, 1809)


Os exércitos de Napoleão Bonaparte tentaram conquistar Portugal em três ocasiões distintas, há cerca de dois séculos. Durante a segunda invasão francesa, comandada pelo Marechal Soult, a cidade do Porto foi tomada pelo inimigo, servindo de capital das forças francesas entre 29.3.1809 e 12.5.1809. A ocupação do Norte do país estendeu-se para Sul até ao rio Vouga, ficando instalada em Albergaria-a-Nova uma divisão de cavalaria sob as ordens do General Franceschi.

No propósito de controlar qualquer manobra inimiga, leia-se das tropas inglesas e portuguesas, navegando na Ria de Aveiro, vários militares franceses utilizaram a posição da Senhora do Monte, em Salreu, como ponto de vigia da região. É provável que alguns franceses se tenham instalado durante este período nos limites de Salreu, na Quinta dos Menezes (Casa do Santo). Os mais diversos roubos e violências, característicos das épocas de guerra, praticaram-se nos actuais concelhos de Estarreja e Murtosa, fugindo a maioria da população para lugares distantes ou mantendo-se na ria dentro de barcos, aguardando o regresso da normalidade.

A presença do exército francês provocou igualmente a morte de dezenas de civis, principalmente nas freguesias de Salreu e Beduído. Na sua maioria os populares foram mortos a tiro, do que deixaram testemunho escrito os párocos da época, nos livros de registo paroquial de óbitos. Houve também casos de particular crueldade, do que foi exemplo uma menina de sete anos afogada e um homem com deficiência mental cortado aos bocados pelas espadas dos franceses. No final, apenas em Salreu morreram mais de 60 pessoas, quase todas da freguesia e no mesmo dia, 16 de Abril de 1809 (faz agora 210 anos). Uma boa parte destas vítimas deve ter sido sepultada numa vala comum, próxima da fonte do Picoto. Muitos salreenses de hoje encontrarão entre elas antepassados seus.

Entretanto o ataque do exército britânico e português acabou por ditar a retirada francesa de Albergaria, na manhã de 10 de Maio de 1809, colocando um ponto final na segunda invasão francesa, nos concelhos de Estarreja e Murtosa.

Todavia, este momento tem que ser contextualizado na Guerra Peninsular (1807-1813), período em que Portugal e Espanha combateram os exércitos de Napoleão e que entre nós ficou genericamente conhecido por “invasões francesas”. Da Guerra Peninsular chegaram aos nossos dias outras informações respeitantes aos concelhos de Estarreja e Murtosa: conhecem-se as contribuições para o esforço de guerra em 1808, em cavalos ou destinadas à sua compra, destacando-se a oferta do Prior de Salreu; e houve diversos militares portugueses, originários de ambos os concelhos, combatendo os franceses. Inclusive o Alferes Manuel Marques Pires, que vendo-se aprisionado pelo exército francês fez promessa de construir uma capela na sua terra, dedicada a Nossa Senhora, caso voltasse a conhecer a liberdade. Tendo salvo a sua vida, veio por isso a construir a capelinha particular de Nossa Senhora das Necessidades, em 1819, que ainda se encontra próxima da escola da Póvoa de Baixo.

In 
O Jornal de Estarreja, n.º 4854, 19.4.2019, p. 2

O navio Regal, naufragado na Torreira



 Um navio naufragado há quase um século na costa a norte da Torreira, que se encontrava enterrado pela areia da praia, foi recentemente colocado a descoberto pela força do mar. Depois do naufrágio e da cobertura natural pelas areias da costa, havia posteriormente ficado a descoberto temporariamente, por mais que uma ocasião, o que contribuiu para que não se perdesse completamente a memória da sua existência, ainda que muito vaga. Questionadas várias autoridades (Direcção Geral do Património Cultural, Capitania do Porto de Aveiro, Câmara Municipal da Murtosa), nenhuma possuia informações sobre a embarcação. Sabia apenas um habitante da Torreira dizer o que na infância o seu avô lhe contara, do navio “O Regalo” ali naufragado, como explica o Diário de Aveiro na sua edição de 22 de Fevereiro.

Como me foi perguntado se conhecia alguma informação que esclarecesse do que se tratava, pela sra. Presidente da Junta de Freguesia da Torreira e por uma equipa de reportagem da estação televisiva SIC, fui confirmar se tinha algum apontamento sobre o assunto. E tinha afinal, algumas referências de jornais locais com data de 1923 (duas notícias de O Jornal de Estarreja e sete notícias da efemera Revista da Torreira), que entretanto voltei a consultar os originais, para melhor perceber o que aconteceu. Estas notícias de jornais locais vieram a ser úteis para a reportagem que no dia 2 de Março passou no Jornal da Noite da SIC, cerca das 21h00, ficando esta muito enriquecida, uma vez que apenas se conhecia o mencionado testemunho de um habitante da Torreira. Como estive a reler as notícias dos jornais locais, da época do naufrágio, pareceu-me ter interesse redigir um pequeno artigo, explicando a origem da embarcação colocada novamente a descoberto pelo mar, e acompanhando com extractos das notícias da época. Pode-se também consultar alguma informação sobre a construção, vida e proprietários britânicos desta embarcação pesqueira, através do site https://www.wrecksite.eu/wreck.aspx?172711.

Em 4 de Julho de 1923 encalhou na costa a norte da Torreira o navio britânico a vapor “Regal”, que ficou aqui conhecido por “O Regalo”, afinal aportuguesamento do nome original inglês. Construído em 1906, para a Loyal Steam Fishing Co., de Grimsby (Inglaterra), e baptizado “Regal”, com a matrícula GY158. Entre Junho de 1915 e 1919 foi requesitado para o esforço de guerra (Primeira Grande Guerra), ficando nesse período ao serviço da Royal Navy como caça-minas, sendo após a guerra devolvido à empresa proprietária. Esta embarcação de pesca parece ter encalhado na Torreira devido ao denso nevoeiro e à quebra de parte do leme, deixando a tripulação desorientada. Conseguiram os tripulantes abandonar o navio “de pé enxuto”, sendo encaminhados para o Porto, onde foram apresentados ao cônsul britânico nesta cidade. Entretanto, o navio ficou inicialmente guardado por praças da Guarda Fiscal, sendo muito visitado por curiosos que acorreram ao local. Logo se iniciaram as tentativas para o desencalhar, todas sem sucesso. Primeiro, vieram ao local vários técnicos do Porto, para estudar a melhor solução. Depois, em 24 de Agosto de 1923, houve uma tentativa de desencalhar o “Regal” pelo rebocador “Luzitania”, vindo igualmente do Porto. Resolveu-se por fim retirar o navio encalhado aos bocados. Como nenhuma das tentativas conseguiu desencalhar o “Regal”, e as areias da costa acabaram por se encarregar de o sepultar, ficou este abandonado na Torreira, sendo redescoberto em raras ocasiões em que o mar lhe destapou as areias, como agora aconteceu.

Porque ajuda a satisfazer a curiosidade, de quem se interessar por este naufrágio na costa da Torreira, transcrevem-se de seguida as notícias da imprensa local na época.

«O encalhe do vapor «Regal»
Continua na mesma posição o vapor «Regal» que encalhou ao norte da Torreira.
Teem aqui vindo diversos representantes das casas do Porto afim de estudarem o meio de o salvarem, mas até à data em que escrevemos não lhe mecheram, continuando o navio guardado por praças da G. Fiscal.
Ao contrário do que dizia o nosso colega «Jornal de Estarreja», é falso terem havido roubos antes da chegada das autoridades, visto que, estas foram as primeiras a chegar ao navio.»
Revista da Torreira, n.º 14, 5.7.1923, p. 3

«O vapor naufragado na Torreira.
Tem sido muito visitado o navio inglez de pesca que há dias naufragou na costa da Torreira, ao norte, em frente da ermida do S. Paio.
Diz-se que o motivo do naufragio foram a cerração imensa e a quebra de parte do leme, causando a desorientação á tripulação, que devia ter passado horas de desanimo e de aflição.
O navio entrou pela costa, a ponto de poderem sahir os tripulantes a pè enxuto. Como ali não encontrassem ninguem que os entendesse, foi participado o caso á Capitania d’Aveiro e os naufragos seguiram para o Porto, onde foram apresentar-se ao seu consul.
O navio julga-se perdido, tendo-se salvo tudo que trazia a bordo.
Diz-se que antes de aparecer as auctoridades alguns objectos foram roubados.»
O Jornal de Estarreja, n.º 1851, 8.7.1923, pp. 2-3

[…] «foi certo ter havido pelo menos o roubo dum relogio dos salvados do navio naufragado na Torreira e que esse objecto foi estituido» […] – [desmentindo o desmentido da Revista da Torreira].
O Jornal de Estarreja, n.º 1854, 29.7.1923, p. 2

«O encalhe do vapor «Regal».
Principiaram os trabalhos para salvarem este navio que aqui encalhou.
Quando o nosso jornal circular já deve talvez estar salvo».
Revista da Torreira, n.º 15, 31.7.1923, p. 3

«O navio «Regal», encalhado a norte da Torreira, apezar de já ter andado de nado ainda não se tirou d’ali.
Aquilo até parece uma grande fita.»
Revista da Torreira, n.º 16, 16.8.1923, p. 1

«No dia 24 ultimo procurou-se mais uma vez salvar o navio Regal, encalhado, como noticiámos, ao norte da Torreira, tendo, para esse fim, vindo o rebocador «Luzitania», da praça do Porto, não tendo sido possivel salvá-lo não só devido á pouca força que empregaram como tambem ao estado de mar.»
Revista da Torreira, n.º 17, 1.9.1923, p. 3

«Após todas as tentativas para salvarem o vapor «Regal» encalhado ao norte da Torreira, resolveram tira-lo aos bocados, o que de resto è o que já há mito tinhamos previsto.»
Revista da Torreira, n.º 18, 16.9.1923, p. 3

«O tempo tem estado de abundante chuva e tem havido dias de grande vendaval. O mar embraveceu e se tão depressa não acudissem aos salvados do vapôr Regal que ha perto de um ano encalhou ao norte desta praia, a esta hora haveria ali grandes prejuizos.»
Revista da Torreira, n.º 25, 25.2.1924, p. 3

«O ultimo vendaval acoreou todos os salvados do vapor «Regal» que está encalhado ao norte da Torreira. As providencias tomadas pelos encarregados evitaram que ali se dessem grandes prejuizos.».
Revista da Torreira, n.º 26, 10.3.1924, p. 2


In 
Correio do Vouga, 6.3.2019, p. 9

Prof. Jaime Vilar, 20 anos depois

Foi em 16 de Fevereiro de 1999 que faleceu, faz agora 20 anos. Recordo-me que nessa altura vivia-se o Carvanal em Estarreja. Ficou-me gravada na memória a música que se ouvia, contrastando com o meu estado de espírito, quando saí do Hospital Visconde de Salreu, na última vez que o visitei.

O acaso de vivermos em épocas diferentes permitiu-nos apenas um breve cruzamento, ele no inverno da vida, eu na primavera da mesma. Convivemos assim apenas nos seus últimos anos de vida, meus de adolescência. Visitava-o em casa quase todas as tardes de sábado, ele já muito debilitado de saúde. Eu queria aprender e ele queria ensinar, coisas mais do domínio da etnologia que da história: costumes, tradições, histórias de vida, enfim cultura da Terra Marinhoa. Porque a saúde não lhe permitia movimentar a mão como antes, dificultando-lhe a escrita, ditava-me também textos para publicar no jornal de Pardilhó. Discutíamos aspectos da história de Pardilhó, dava-me conselhos de leitura e deu-me principalmente incentivo para continuar. Numa carta que ainda me conseguiu escrever, acompanhando um texto que queria publicar no jornal da terra, dizia: «Marco, emenda, corta, acrescenta, o que entenderes por melhor. É a escrever que se aprende a ser escritor. E tu parece ires pelo bom caminho.». Nunca fui escritor, os meus interesses afunilaram entretanto para o domínio da história, mas sempre guardei na memória a ideia, e é verdade, que se aprende a escrever escrevendo. Escritores há, e não são poucos, que renegaram os seus primeiros livros. É a prática que sempre faz com que nos aperfeiçoemos em qualquer saber.

A diferença de conhecimentos que nos separava era abissal. Eu começava a escrever uns artigos na imprensa local, pobrezinhos. Ele via em mim um rapazote que mostrava interesse pelas coisas da terra, com capacidade para se aperfeiçoar. Além de ser uma companhia frequente, no momento em que sentia o afastamento de muitos amigos (mantenho decorado, desde então, certo soneto de Camilo que me deu a conhecer), encontrou alguém novo, que podia no futuro continuar a dar atenção à nossa pequena pátria, num conhecimento que interessava a muito poucos.

Daquele tempo guardo alguns manuscritos, de correspondência pessoal que trocámos. Também algumas fotocópias de publicações cuja leitura me recomendava. Incluindo uma sua auto-biografia.

Com ele aprendi alguma coisa, numa fase muito incipiente do meu interesse pela história e cultura locais. Numa disciplina sem programa do Ministério da Educação, sem escola onde ir, sem horário escolar. Fui desta forma, talvez, o seu último aluno.

Marco Pereira
In O Jornal de Estarreja, n.º 4850, 22.2.2019, p. 2

A pneumónica, ou gripe espanhola, em Estarreja (1918-1919)


Numa altura em que os noticiários falam diáriamente do sarampo, recordamos uma pandemia que faz este ano um século. A maior pandemia da história da humanidade (nem a Peste Negra vitimou tanta gente), a penumónica, mais conhecida por gripe espanhola, ocorreu há 100 anos, entre 1918 e 1919. Actualmente, as estimativas mais optimistas e pessimistas oscilam entre os 50 e os 100 milhões de pessoas mortas em todo o mundo, sobretudo jovens. Os mortos, porém, terão sito apenas 2,5 % dos infectados, podendo a pandemia ter atingido metade da população mundial. A origem da penumónica ainda hoje é controversa, contudo a sua primeira manifestação conhecida ocorreu nos Estados Unidos da América. Ficou injustamente conhecida por gripe espanhola, devido à divulgação que dela fez a imprensa deste país, que não participou na 1.ª Grande Guerra. Pelo contrário Portugal e outros países silenciaram, ou censuraram, a mortandade causada pela penumónica.

Chegou a Portugal em Maio de 1918, manifestando-se mais brandamente até Julho desse ano. Entre Agosto e Dezembro de 1918 decorreu uma vaga mais violenta no país, causando neste período a grande maioria das mortes. Novamente as estimativas oscilam, entre as 60 e as 120 mil mortes no país, principalmente pessoas jovens, entre os 20 e os 40 anos. Entre as vítimas mortais encontram-se nomes conhecidos, como os dois pastorinhos videntes de Fátima, Francisco e Jacinta Marto. Estava então a terminar a Grande Guerra, que não vitimou tanta gente, e nas vésperas de passar por Estarreja a Monarquia do Norte. Portugal vivia assim uma trilogia de “fome, peste e guerra”, com a escassez de bens alimentares, a pneumónica e a Grande Guerra.

A maioria dos estarrejenses de hoje poderá ter familiares que foram vítimas mortais da gripe espanhola. Entre os registos paroquiais e civis de óbito encontra-se a identificação de uma boa parte dessas vítimas, embora nem sempre os registos indiquem a causa da morte. Os jornais locais, designadamente O Jornal de Estarreja e O Concelho de Estarreja, publicaram na época várias notícias sobre o flagelo. Transcrevem-se aqui duas notícias d’O Jornal de Estarreja, datadas de Dezembro de 1918, reveladoras do que se passou no concelho.

Marco Pereira


«A epidemia
Algo tem decrescido na villa a epidemia da influenza pneumonica, continuando, porém, a grassar com alguma intensidade n’alguns logares do concelho.
Em Santo Amaro ha um caso da morte d’uma famila inteira, a de «José Cego».
No Bunheiro está agora a manifestar-se.
É impossivel darmos os nomes de assignantes e amigos que teem sido atacados e felizmente teem escapado.
Os que escapam ao terrivel mal teem muito que contar!
Os estragos causados pela gravissima epidemia n’este concelho são verdadeiramente aterradores.»
O Jornal de Estarreja, n.º 1626, 8.12.1918, p. 3

«A epidemia no concelho
Movimento demografico
Não queremos, pelo que é de horroroso, nem podemos pela falta de espaço, dar a lista dos mortos que desde Outubro tem havido neste concelho.
Apenas em resumo diremos que no mez de Outubro houve 294 obitos e no mez de de novembro 319 e que durante os nove mezes antecedentes de 1918 houve menos obitos do que n’estes dois ultimos mezes.
Eis o movimento demographico do concelho dos referidos mezes:
OUTUBRO
Nascimentos 73
Casamentos 20
Obitos 294
NOVEMBRO
Nascimentos 74
Casamentos 15
Obitos 310
Vê-se, pelo obituario da 1.ª quinzena do mez corrente, que a epidemia vae decrescendo sensivelmente em todo o concelho.»
O Jornal de Estarreja, n.º 1627, 15.12.1918, p. 3

In
O Jornal de Estarreja, n.º 4828, 6.4.2018, p. 2

sábado, 26 de outubro de 2019

Apresentação da "Monografia da Murtosa", vol. 2

O segundo volume da "Monografia da Murtosa" foi apresentado no dia 29 de Outubro de 2019, terça-feira, às 11h00, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Murtosa. O livro, edição da Câmara Municipal da Murtosa e do qual é autor Marco Pereira, dá seguimento ao volume apresentado exactamente um ano antes, no aniversário da criação do concelho da Murtosa, e pretende dar a conhecer a história e a identidade do mesmo. Ao ritmo de um volume por ano continuará a tratar de forma pormenorizada os mais diversos temas, abordados antes resumidamente na "Breve História do Concelho da Murtosa" (2016). A publicação pretende ser resposta para diversas finalidades, incluindo no percurso escolar, que poderá servir-se do conhecimento que ali se encontra como exemplo local das matérias curriculares.

Neste segundo volume desenvolvem-se três capítulos: o Clima, a Biodiversidade e a Toponímia. As características climáticas locais são descritas num pequeno capítulo inicial. Segue-se, mais desenvolvidamente, a biodiversidade, de forma essencialmente descritiva, mas dando alguma atenção à vertente histórica e incluindo a reprodução de um conjunto de gravuras antigas. Finalmente a toponímia, igualmente desenvolvida, agrega na forma de diccionário todos os nomes de lugares existentes no concelho, procurando dar conta das primeiras referências históricas de muitos deles e fornecendo uma explicação para a sua origem.

PEREIRA, Marco - Monografia da Murtosa. Vol. 2, Câmara Municipal da Murtosa, 2019

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

"Monografia da Murtosa" apresentada no dia 29 de Outubro de 2018




 O 1.º volume da “Monografia da Murtosa” foi apresentado no dia 29 de Outubro de 2018, pelas 10h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Murtosa. O livro, de que é autor Marco Pereira e editora a Câmara Municipal da Murtosa, é o primeiro de uma série, para sair ao ritmo de um por ano, sempre no 29 de Outubro, dia em que se assinala a emancipação do concelho da Murtosa (29/10/1926). Cada volume pretende desenvolver um conjunto de temas relacionados com a história do local e outras áreas do conhecimento, que ajudem a conhecer melhor a identidade murtoseira. Esta série vem na sequência da “Breve história do concelho da Murtosa” (2016), que procurou dar um retrato global mas sucinto da história do concelho, pretendendo-se agora desenvolver ao longo de vários volumes tudo o que ali veio sumariado. Neste primeiro volume da “Monografia da Murtosa” trata-se, sobretudo, da Geomorfologia (principalmente a formação e evolução da Ria de Aveiro) e da Cartografia (mapas da Murtosa, antigos e recentes).

Simultaneamente, está patente na Câmara Municipal uma exposição de mapas antigos, da Murtosa e sua região, desde o século XVI até à actualidade. Entre os mapas em exposição conta-se o mais antigo levantamento topográfico da vila da Murtosa, na escala de 1:2000, e dimensão em papel de 2 x 2,5 metros, com data de 1932. Nesse mapa muitas casas têm os seus proprietários identificados, sendo possível encontrar os nomes e casas dos avós e bisavós de muitos murtoseiros.

 PEREIRA, Marco - Monografia da Murtosa. Vol. 1, Câmara Municipal da Murtosa, 2018

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

sábado, 15 de setembro de 2018

Livro: Breve História do Concelho da Murtosa



PEREIRA, Marco - Breve História do Concelho da Murtosa. Câmara Municipal da Murtosa, 2016

ONDE COMPRAR: Câmara Municipal da Murtosa, Biblioteca Municipal da Murtosa e Comur - Museu Municipal da Murtosa.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Região Marinhoa

No contexto da Ria de Aveiro a Terra Marinhoa foi a primeira a formar-se, por aluvião. Com a deposição de areias pelo mar, formando progressivamente o cordão litoral, a Ria deixou de comunicar com o mar no séc. XVII. Nos documentos históricos os contornos da região só se começam a compreender-se com rigor nos pitorescos mapas do fim do séc. XVIII, relacionados com a abertura da barra artificial, que só viria a ocorrer em 1808. Ria de Aveiro é pois uma expressão imprópria aplicada a uma laguna, um braço de mar que sofre o efeito das marés e possui água salobra, com pequenos tentáculos ou canais navegáveis que serpenteiam pelas terras circundantes, as ribeiras. Entre os peixes de maior valor gastronómico encontram-se aqui a enguia (antigamente pescada ao candeio com uma fisga, de noite), o sável e a lampreia. Ocasionalmente entram golfinhos na laguna. E estacionam por estas paragens mais de 150 espécies de aves, do que são exemplo a cegonha, garças, águia-sapeira, guarda-rios e flamingos.

Toda a economia tradicional depende da Ria de Aveiro, que funcionava antigamente como primeira via de comunicação ou auto-estrada natural. A pesca e a apanha do moliço (para fertilização do solo, que produz sobretudo milho) foram as principais actividades de outros tempos, tendo possuído grande tradição a construção naval, particularmente em Pardilhó. Embarcações típicas da região são os moliceiros (o ex-libris regional), mercantéis, bateiras e barcos de mar. Por aqui se construíram também varinos e fragatas destinados ao rio Tejo, bem como lugres para a pesca do bacalhau. Amorim Girão definiu esta gente anfíbia, por analogia ao que escreveu Platão sobre o Mediterrâneo, como um agrupamento humano «assim como rãs em volta de um pântano». Assim é. Em tudo dependem da Ria, que lhes deu o viver e, quando o não deu, os forçou a abandonar a sua característica casa de alpendre e migrar.

In
Ribeiras de Pardilhó” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Pardilhó/Ventos da Ria, Junho de 2016;
Ribeira de Mourão” [folheto turístico desdobrável], Junta de Freguesia de Avanca/Ventos da Ria, Junho de 2016.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Os concelhos de Estarreja e Murtosa no século XIII


Embora o mais antigo documento onde é referido o nome de Antuã respeite ao ano de 569, só a partir do século XIII se começa a conhecer razoavelmente (ainda que com muitas limitações) o espaço onde hoje se situam os concelhos de Estarreja e Murtosa. Nessa época a laguna de Aveiro e terras circundantes pouco difeririam da actualidade, faltando apenas formar parte do cordão litoral. Poucas centenas de pessoas viveriam em habitações colmadas dispersas. Parece contudo que as terras alagadiças do Sul marinhão e do Sul do Antuã atraíam um crescente número de colonos, com a vantagem das boas acessibilidades proporcionadas pela foz do Vouga.

Onde hoje estão Estarreja e Murtosa existia uma manta de retalhos de poderes e possuidores de terras. Os dois principais espaços integravam-se no julgado de Antuã (que D. Afonso III coutou e entregou em 1257 ao Mosteiro de Arouca) e no julgado de Figueiredo do Rei (Santiais, parte de Salreu, Canelas e Fermelã). Eram poderes menos significativos o do julgado da Feira (do Rei, a Norte de Avanca), do julgado de Pardelhas (que se autonomizou da Feira e cujas terras pertenciam ao Mosteiro de Vila Cova), e do julgado de Cabanões (que se estendia para Sul pela Gelfa). Diversos concelhos rurais foram surgindo (Antuã, Fermelã, Veiros e Pardelhas), parte deles efémeros.

Na posse das terras encontravam-se, além do Rei, duas honras (a de Canelas, abrangendo Fermelã, e a do Roxico), o couto de Antuã (do Mosteiro de Arouca), vários casais de mosteiros (Grijó, Santa Cruz de Coimbra, Pedroso, Paço de Sousa, Vila Cova de Sandim, e Cedofeita), bens alodiais de herdadores (em Santiais, Canelas e Fermelã) e três póvoas (Veiros, do Carvalhal em Santiais e Ameal em Salreu). A contratualização da exploração das terras era titulada por aforamentos, boa parte dos quais colectivos, fomentando a adesão de novos povoadores. Pagava-se a título de renda, nos mais dos casos, a quarta ou a quinta parte da produção (pão, vinho e linho), e em casos mais raros e tardios a sexta ou a oitava parte. Os arroteamentos contavam-se também entre as terras de renda mais baixa, tendo em vista a expansão do espaço cultivado. Á renda parciária acrescia uma renda acessória, composta por pequenas quantidades certas de bens, designadas por direituras. Diferentes sectores compunham a economia local, que incluía a agricultura, a pecuária, a caça, a pesca e a salicultura.

Em paralelo existia o poder secular da Igreja, representado pelas dioceses do Porto e de Coimbra, que estabeleceram em definitivo a sua fronteira no curso do rio Antuã. A Norte estavam as extensas paróquias de Avanca e Beduído, e a Sul as de Salreu e Fermelã. O direito de padroado destas igrejas, com elevado interesse material, foi sendo avocado pelo Rei, que depois o redistribuiu.

Boa parte destas realidades constituíram-se no século XIII e duraram por séculos, nalguns casos até às reformas liberais do século XIX.


In O Jornal de Estarreja, n.º 4728, 9.1.2015, p. 12

domingo, 27 de julho de 2014

Filmes realizados nos concelhos de Estarreja e Murtosa

Existem filmes muito significativos, realizados nos concelhos de Estarreja e Murtosa ao longo do século XX, mas é tarefa quase impossível fazer uma lista exaustiva de todos os que se realizaram. Além do mais, as fontes são lacónicas, deixando em alguns casos dúvidas sobre detalhes importantes. E desconhece-se se ainda existe alguma cópia de uma boa parte desses filmes.

Tanto quanto se sabe, a realização em Estarreja e Murtosa começou nos anos 30 do século XX. Em 1936 fez-se um filme de propaganda turística na Murtosa, destinado ao Brasil. Dois anos depois, em 1938, um grupo de frequentadores da Torreira realizou algumas filmagens na Murtosa, para um filme destinado aos E.U.A.

Cerca de 1940 António Guedes Marques, da então recente Fotografia Guedes, produziu o filme “Cinturinhas da Murtosa”, com exibição local, acompanhado por documentários sobre o S. Paio da Torreira, Murtosa, Veiros, Avanca e Pardilhó. Quando em 1981 se inaugurou o museu da Murtosa (na Casa dos Escuteiros) exibiram-se alguns filmes da Fotografia Guedes, dos anos 30-40-50, novamente projectados no A.C.D.M. em 1985.

Surgiu mais tarde a RTP, e nela as primeiras aparições televisivas de Estarreja e Murtosa. Uma delas foi da Banda Nova de Pardilhó, por ocasião de uma visita a Lisboa em 1958/59. Depois foi a feira de Santo Amaro, que mereceu aparecer na televisão em 1963. No contexto revolucionário após o 25 de Abril, em Agosto de 1974, Sousa Veloso entrevistou para a RTP o “Movimento Livre dos Cavadores”, em formação em Avanca.

Realizaram-se outros filmes locais, fora da televisão, sobre a indústria química de Estarreja nos anos 60, e do Carnaval de Estarreja em 1972, este projectado no ano seguinte no Cine-Teatro de Estarreja. Entretanto começaram a fazer-se os primeiros filmes amadores.

É nesta altura que surgem alguns filmes sobre a Murtosa, realizados por Alfredo Tropa (n. 1939), que sendo dali natural foi realizador de algumas dezenas de filmes, e Director dos Arquivos e Documentação da RTP. Temos de Alfredo Tropa os documentários “Num mar de moliço” (1966, 12 min., produção Media Filmes, P/B, com argumento de Fernando Assis Pacheco) e “Uma maré de moliço” (1976, 35 min., produção RTP).

Mas o filme realizado por Alfredo Tropa que mais nos interessa é o “Bárbara” (1980), um drama de 136 min., rodado em 1979 e 1980 na Torreira. Tem a particularidade de ser a primeira longa-metragem totalmente produzida pela RTP, e conta com figurantes locais e alguns actores conhecidos, como Artur Semedo, Orlando Costa, Ellen Matt, Júlio Cardoso, António Feio, João Enes, entre outros. O argumento deveu-se ao próprio Alfredo Tropa e a Fernando Assis Pacheco (1937-1995), jornalista e escritor, que se casou em Pardilhó, e era visita assídua no concurso televisivo “A visita da Cornélia”, estreado na RTP em 1977. A música foi de Manuel Freire (1942), que ficou famoso pela sua interpretação da “Pedra Filosofal”, e era de Veiros o seu pai, e de Ovar sua mãe. Tudo pois bons filhos da terra. O filme conta a história de um emigrante que regressa à terra natal, tentando modernizar a apanha de moliço com a draga “Bárbara”.


A RTP fez grandes reportagens na Murtosa em 1982 e 1986, e neste último ano veio a BBC filmar na Murtosa a apanha do moliço. Também em 1986 a Câmara Municipal da Murtosa decidiu passar para vídeo alguns filmes sobre o concelho, e em 1989 terá adquirido os seguintes vídeos: “O barco moliceiro”; “O Ti Taínha”; e “Na Maré de Peixe”. Data de 1992 um filme sobre a arte Xávega na Torreira, e em 1995 era rodado um documentário sobre o barco moliceiro.

O Cine-Clube de Avanca tem abundante produção própria nos últimos anos, com destaque para o cinema de animação. Tem ainda realizado anualmente, no verão, o seu Festival Internacional de Cinema de Avanca. Na primeira edição deste festival (1997) foi homenageado o Padre António Oliveira, pioneiro da realização local, com documentários amadores sobre Avanca.

Cabe igualmente referir dois filmes de ficção, “O D-Fensor de Pardilhó” I e II (2005 e 2008), realizados por Diogo Carvalho.

Nos últimos anos habituámo-nos a ver as notícias na “Ribeirinhas TV”, de José Vieira, e os documentários sobre a natureza no “Murtosa Tube”, do Dr. Jorge Bacelar, ambos disponíveis no www.youtube.com e no MEO. Entretanto algumas empresas locais têm-se publicitado em vídeo, e mesmo na TV. As próprias Câmaras Municipais e a Associação de Carnaval de Estarreja recorrem a empresas que lhes produzem conteúdos em vídeo. E tornaram-se habituais as presenças locais no programa matinal da RTP “Praça da Alegria”, na transmissão televisiva da Missa Dominical, e nos telejornais.

O Jornal de Estarreja, n.º 4653, 19.4.2013, p. 2

domingo, 29 de dezembro de 2013

Revolta na Murtosa, contra o defeso na pesca e na apanha do moliço (1913)


Por regulamento datado de 28 de Dezembro de 1912, estava na ria de Aveiro proibida durante quatro meses do ano, entre Março e Junho, a pesca com rede miúda e a apanha de moliço. A proibição visava defender a vegetação da ria e proteger a fecundação, desenvolvimento e criação dos peixes[1]. Porém a necessidade de tão apertada regulamentação era discutida, por se apontarem outras causas para a escassez de recursos da ria, designadamente as minas de arsénico de Nogueira do Cravo, que havia 15 anos matavam todo o peixe no percurso dos rios Ul e Antuã[2]. Em qualquer caso, ficava impedido de ganhar o seu sustento e o de sua família, durante quatro longos meses, um número de homens que um jornal local estimou ser de 4 mil[3], principalmente nas freguesias da Murtosa, Bunheiro e Pardilhó[4]. Os visados vinham reclamando da sua sorte, e com eles se solidarizava com frequência a imprensa local e regional. Porque não existiam nem se compreenderiam à época os apoios sociais do Estado, só uma alternativa de trabalho poderia atalhar a fome dos pescadores, moliceiros e suas famílias durante os meses de defeso. Nesse sentido, a certa altura circulou o boato do governo ir abrir serviços públicos na Barra de Aveiro, garantindo às duas classes ganha-pão nesses meses[5]. Fosse como fosse, o tempo passava e acabou por ser atingido o ponto de ruptura, com uma sublevação popular que durou três dias, entre 20 e 23 de Abril de 1913.

DOMINGO, 20 DE ABRIL

Durante a madrugada de Domingo, 20 de Abril de 1913[6], cerca das 2h00 ou 3h00, «começavam a juntar-se, na praça de Pardelhas, grupos de homens fazendo alarido»[7], pescadores e moliceiros em grande número, que se sentiam prejudicados pelo regulamento que os impedia de trabalhar na ria[8]. Os revoltosos não permitiram a realização do mercado diário de Pardelhas e obrigaram o comércio local a permanecer encerrado[9], estando armados de paus[10]. Para além do mais assaltaram as padarias e os vendedores de queijo, que distribuíram entre si e seus filhos[11]. O terem feito tocar o sino a rebate na capela de S. Lourenço[12], onde aliás não se pôde realizar missa[13], contribuiu para que aumentasse o número de pessoas concentrado na praça de Pardelhas, que se estimou em número superior a 3 mil[14]. O comércio local manteve-se fechado, e os principais comerciantes reunidos em comissão permanente[15].

Devido a estes acontecimentos o telégrafo começou a trabalhar muito cedo[16], permitindo informar as autoridades do que sucedia. O administrador do concelho de Estarreja requisitou para Aveiro (e o governador civil anuiu), além da polícia, uma força militar de infantaria (comandada por um tenente) e outra de cavalaria (sob o comando de um capitão)[17]. Desembarcaram na estação do caminho-de-ferro de Estarreja, às 11h20, 35 praças de infantaria, que logo partiram para Pardelhas. Às 14h20 chegaram 59 homens da cavalaria, que se foram juntar à infantaria[18]. A cavalaria e a infantaria chegaram à praça de Pardelhas às 16h00[19]. Acto contínuo, o povo fez «tocar os sinos a rebate, conseguindo grande ajuntamento de populares, que receberam os militares com vivas ao exército, à pátria e à república»[20], sem que houvesse atritos com a autoridade, mas tão só lamentações populares pelas suas dificuldades.

Entretanto, uma comissão de comerciantes de Pardelhas (e três membros da Junta de Freguesia da Murtosa) reuniu-se nessa mesma tarde em Estarreja com o governador civil de Aveiro, Dr. Alberto Vidal (por sinal oriundo de Salreu), que havia acompanhado os militares até à sede do concelho. Nessa reunião o governador civil afirmou que, a seu pedido, se ordenara a realização de obras na Barra de Aveiro, a fim de dar emprego aos pescadores e moliceiros na época de defeso. Do lado da comissão de comerciantes foi sugerido que se realizassem trabalhos dentro da Murtosa, designadamente a abertura de um esteiro que prolongasse a ribeira de Pardelhas até às proximidades do centro da povoação, assim como um cais acostável na Torreira. A proposta obteve acolhimento por parte do governador civil, e a comissão de comerciantes comprometeu-se a abrir todo o comércio de Pardelhas no dia seguinte[21].

Prometidas providências pelas partes e serenados os ânimos, o governador civil foi já de noite a Pardelhas[22], onde verificou reinar o sossego e, por isso, ordenou a retirada de parte dos militares que ali se encontravam, concretamente 34 praças de cavalaria[23].

SEGUNDA-FEIRA, 21 DE ABRIL

Na segunda-feira de madrugada voltaram a tocar os sinos a rebate, juntando-se ainda mais gente na praça de Pardelhas, que manteve uma atitude ordeira[24], mas impedindo a abertura do mercado e dos estabelecimentos comerciais, bem como das escolas[25]. Por essa razão mais tropa de cavalaria e o batalhão de infantaria aquartelado em Ovar foram a Pardelhas[26], sendo aí mais uma vez recebidos com vivas à pátria, ao exército e à república, não se registando atritos significativos[27].

Telegrafaram os comerciantes ao governador civil, que chegou a Pardelhas cerca das 11h00, reunindo na estação telégrafo-postal com uma comissão de comerciantes e alguns pescadores e moliceiros. Terá o governador civil afirmado nessa reunião que viera a Pardelhas sem receio, e para o mostrar entrara na localidade em carro destapado para ser bem visto. Depois falou o governador civil à multidão, da varanda da estação telégrafo-postal, que era próxima da Praça de Pardelhas. Pediu ordem à população, e prometeu empenhar-se junto do governo para que fossem financiadas obras na freguesia, que permitissem o emprego e subsistência da população nos meses de defeso. Seguiram-se discursos apoiando o antecedente por parte do Pe. Rodrigues Luiz Tavares e do alferes de cavalaria Guimarães. Em resposta a estas palavras o povo, não convencido, gritou exigindo a liberdade de trabalho na ria de Aveiro, para que pudesse ganhar o seu sustento. Acabariam por serenar os ânimos e voltar para Estarreja o governador civil[28].

TERÇA-FEIRA, 22 DE ABRIL

Começou a terça-feira igual ao dia anterior, com o tocar dos sinos a rebate, e os pescadores e moliceiros mantendo o mercado, comércio e escolas encerrados, mas dando vivas à república e ao exército, presentes na cavalaria e infantaria vindas de Aveiro[29]. As forças militares presentes procuraram dispersar os manifestantes, para que o mercado abrisse ao público[30], mas a situação acabou por agravar-se em relação aos dias anteriores. Alguns populares terão atirado pedras aos militares[31], o que provocou uma carga da cavalaria sobre os manifestantes[32] e disparos dos militares para o ar[33], fazendo com que o povo se assustasse e fugisse, gritando, em todas as direcções[34]. Terão ficado feridas 5 pessoas[35].

Restabelecida a paz, fizeram-se várias detenções, sendo a maioria dos detidos enviados para Aveiro, e alguns seguiram para a cadeia de Estarreja[36], parece que 11, acompanhados por praças de cavalaria[37]. O Jornal de Estarreja visitou nesse dia a Murtosa, presenciando forças militares por toda a freguesia, e tendo afirmado nas suas colunas que «à hora em que estivemos na Murtosa, grupos de presos seguiam entre soldados para bordo da lancha, que os conduzia à capitania, enquanto mais uma força de infantaria chegava»[38].

Novamente o governador civil deslocou-se a Pardelhas, reunindo com uma comissão de comerciantes no edifício da estação telégrafo-postal. Ficou acordado que os estabelecimentos comerciais abrissem às 13h00, como de facto veio a suceder, e prometeu o governador civil ao povo providências, da varanda do edifício, fosse por via da alteração do regulamento que impunha o defeso, ou pela abertura de obras públicas na freguesia[39], deste modo criando emprego. As casas comerciais mantiveram-se abertas sob protecção dos militares, e com patrulhas de cavalaria[40].

Durante estes acontecimentos estiveram em Pardelhas forças de cavalaria e infantaria de Aveiro, às quais se juntou na terça-feira um batalhão de infantaria que veio de Ovar[41]. Calculou-se terem estado mobilizados mais de 500 homens desde o domingo, entre praças de infantaria, cavalaria, marinha e guarda fiscal[42]. O ministro da Guerra, que havia visitado Ovar para passar revista ao batalhão ali aquartelado, mas que entretanto seguira para Pardelhas, foi ao seu encontro com o respectivo estado-maior em dois automóveis, regressando depois a Estarreja, em cuja praça este batalhão fez exercício[43]. Serenado o conflito e a tensão do momento, as tropas retiraram da Murtosa[44].

PÓS-REVOLTA

Depois do dia do conflito, na quarta e na quinta-feira Pardelhas manteve-se em relativa tranquilidade[45]. Os comerciantes da Murtosa distribuíram na freguesia um manifesto, transcrito por O Jornal de Estarreja, solidarizando-se com os manifestantes e dando conta de que o governo civil procuraria mover influência junto do governo, para que fossem abertas obras públicas na Murtosa, pelo que se apelava à serenidade por alguns dias[46]. Os jornais da região, de Lisboa e alguns de outras regiões continuaram a fazer eco das dificuldades dos pescadores e moliceiros, solidarizando-se com os mesmos[47]. E as sensibilidades politicas procuraram interpretações a seu modo. Foi Afonso Costa, chefe do governo, que declarou no parlamento que havia padres envolvidos no protesto, e este ocorrera em momento inoportuno[48]. Foi também um jornal da região que, compreendendo os manifestantes, declarou que o regulamento que impunha o defeso pertencia à monarquia, e nunca antes fora posto em vigor[49].

Na quinta-feira 24 de Abril ainda se fizeram detenções, e os detidos em Aveiro na capitania foram transferidos para a cadeia. Dos 13 homens da Murtosa detidos na cadeia de Aveiro, dois foram transferidos para a de Estarreja, a requerimento das autoridades daqui, juntando-se a outros que já aqui se encontravam. Por causa dos que permaneciam detidos em Aveiro, «pela cidade vagueiam alguns grupos de mulheres dos presos, filhos e outros parentes, embrulhados nas suas negras saias de serguilhas, lacrimejando e lamentando-se se algum estranho lhe dirige a palavra»[50]. No início de Maio de 1913 a maioria dos detidos tinha já sido posta em liberdade[51], constando que 21 deles teriam sido pronunciados[52] pelo crime de rebelião[53]. A 4 de Maio dirigiu-se a Aveiro uma comissão de comerciantes a fim de pedir ao governador civil benevolência para os detidos[54]. Fizeram-se os competentes relatórios na capitania sobre os acontecimentos em Pardelhas[55] e, terminado o inquérito, concluiu-se não terem havido cabecilhas nem segundas intenções por parte dos revoltosos[56].

A revolta trouxe os frutos que a passividade não garantia. No rescaldo dos acontecimentos, no final do mês de Abril, os jornais noticiavam a abertura de obras na Murtosa, e concretamente na ribeira de Pardelhas, ainda nesse mês, empregando os pescadores e moliceiros[57]. Em 30 de Abril a maioria dos comerciantes da Murtosa deslocou-se a Aveiro, a agradecer ao governador civil o subsídio concedido para as obras na ribeira de Pardelhas, que empregaram quase todos os moliceiros e pescadores locais[58]. Entre o fim de Abril e o início de Maio iniciaram-se as obras, com a abertura e desobstrução do esteiro de Pardelhas e alguns canais, por conta do Estado, empregando centenas de homens (talvez perto de 300), benefício que se atribuía à intercessão junto do governo por parte do governador civil, Dr. Alberto Vidal[59].

Entretanto os 4 meses de defeso anual terminariam em 24 de Junho, publicando o capitão do porto de Aveiro (Silvério Ribeiro da Rocha e Cunha) o edital que o anunciava, datado de 11 de Junho, e que um jornal local transcreveu[60]. A partir de então, e até à época de defeso do ano seguinte, quem possuísse licença podia apanhar moliço ou pescar, com redes Mugeira, Chinchorro, Garatêa, Chinchas e Fisgas (malha superior). Todos os tripulantes de barcos moliceiros, de pesca, de transporte, ervas ou junco, estavam obrigados a ter cédula de inscrição marítima.

NOVOS ATRITOS

Durante o mês de Maio de 1913 terão ocorrido pelo menos dois episódios de certa tensão, e que de algum modo podem ser considerados réplicas dos acontecimentos de entre 20 e 22 de Abril.

Nem todos os moliceiros e pescadores inactivos foram empregues nas obras da ribeira de Pardelhas, o que originou novos atritos. Num dos casos, uma lancha a vapor da fiscalização surpreendeu 6 barcos na apanha do moliço, a 11 de Maio (domingo). Os tripulantes fugiram e encalharam os barcos, no lugar do Carregal Velho, enlameando os números para não serem apanhados, acabando por evadirem-se insultando os marinheiros. Avisada a capitania, enviou ao local mais lanchas, com uma força comandada por um sargento, que desembarcou e recolheu os números dos barcos. Apareceram no local particulares, opondo-se à fiscalização, e envolvendo-se as duas partes numa luta, em que inclusive foi partida uma carabina[61].

Noutra versão da mesma história, na madrugada de domingo, 11 de Maio, dois pardilhoenses dirigiam-se a Ovar de moliceiro (Manuel Lopes Conde e Daniel Lopes Venâncio) «conduzindo no seu barco algumas mulheres daqui que no mercado daquela vila iam fazer o seu negocio»[62]. Perto do lugar da Moita foram encontrados por duas lanchas da capitania tripuladas por 16 fiscais. Porque o moliceiro em que seguiam os populares não estava numerado, os fiscais deram ordem para que a vela fosse arreada, preparando-se para apreender a embarcação. Os populares aproximaram-se de uma margem, provocando um rombo no fundo do moliceiro, que o inundou e impediu a continuação da viagem. Saltaram para terra e fugiram com a vela, sendo perseguidos pelos fiscais, que os apanharam e espancaram, com os seus sabres e carabinas, resultando partida uma carabina nas costas de um dos fugitivos. A vela acabou apreendida, e os agredidos apresentaram queixa às autoridades em Ovar[63].

Também no dia 11 de Maio (domingo), cerca das 10h00, quando um cabo de marinha chamado Eduardo, da capitania do porto de Aveiro, de dirigia à casa do cabo do mar Luiz Carneiro da Silva Júnior, no Ribeiro da Murtosa, apercebeu-se ao entrar no pátio da casa de dois indivíduos nas proximidades. Um deles aproximou-se do cabo, disparando dois tiros de revólver, porém não conseguindo atingir a vítima, que de imediato disparou do mesmo modo dois tiros com a sua pistola automática, igualmente sem acertar no seu agressor. Fugiram o companheiro e o agressor, este perseguido pelo cabo e por José da Encarnação Rendeiro, que por acaso ali passava. Apanhado e desarmado o agressor, chorou muito e pediu perdão, alegando que os disparos não se destinavam ao cabo, e sendo deixado em liberdade com a condição de se apresentar no dia seguinte na casa do cabo do mar. Contudo no dia seguinte foi para o seu serviço de mercantel, em vez de se apresentar. Na terça-feira foi preso perto da Ponte da Rata, quando subia o Vouga no seu barco, e conduzido à capitania, onde foi interrogado, recolhendo depois à cadeia de Aveiro, aí aguardando julgamento. Constou entre o povo da Murtosa que a motivo do episódio foi o defeso na pesca e apanha do moliço, que causou má disposição popular contra o cabo do mar, por excesso de zelo nas suas atribuições[64].

A vida na ria continuou arriscada, com os marinheiros da capitania perseguindo e disparando a matar, contra os moliceiros e pescadores que incumpriam o regulamento[65]. Privados do seu único ganha-pão, muitos pescadores da Murtosa viriam a engrossar uma onda migratória, ao tempo destinada ao Brasil.




[1] Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1.
[2] O Jornal de Estarreja, n.º 1339, 26.4.1913, p. 1; JE, n.º 1340, 1.5.1913, p. 2. No mesmo sentido, mas com referência de há mais de 20 anos a poluição matar o peixe, O Jornal de Estarreja, n.º 1437, 21.3.1915, p. 1.
[3] O Concelho de Estarreja, n.º 603, 3.5.1913, p. 1.
[4] Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3; CA, n.º 164, 4.5.1913, p. 2.
[5] O Concelho de Estarreja, n.º 600, 12.4.1913, p. 2.
[6] O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2; O Jornal de Estarreja, n.º 1339, 26.4.1913, p. 1.
[7] Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[8] O Jornal de Estarreja, n.º 1339, 26.4.1913, pp. 1 e 2; O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1.
[9] O Jornal de Estarreja, n.º 1339, 26.4.1913, p. 2; O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2; O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1; S, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3; Campeão das Províncias, n.º 6255, 23.4.1913, p. 1; Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; O Comércio do Porto, 22.4.1913, p. 4.
[10] Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[11] Campeão das Províncias, n.º 6255, 23.4.1913, p. 1; Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; O Comércio do Porto, 22.4.1913, p. 4.
[12] O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1.
[13] Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[14] Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1.
[15] Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; O Comércio do Porto, 22.4.1913, p. 4; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[16] Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[17] Campeão das Províncias, n.º 6255, 23.4.1913, p. 1; Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; O Comércio do Porto, 22.4.1913, p. 4; O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3.
[18] O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2.
[19] Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[20] O Comércio do Porto, 22.4.1913, p. 4. No mesmo sentido, Campeão das Províncias, n.º 6255, 23.4.1913, p. 1; Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[21] O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[22] Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3; O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2.
[23] O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[24] O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3; Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[25] O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3; O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1; S, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[26] O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2.
[27] Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3.
[28] Para este parágrafo ver Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3, principalmente. Ver também: Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1; Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3; O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2; O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2.
[29] O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1; S, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[30] Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[31] O Século, n.º 11266, 23.4.1913, p. 1; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1; S, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3; O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3; CE, n.º 603, 3.5.1913, p. 1; O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2.
[32] O Século, n.º 11266, 23.4.1913, p. 1; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3; Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; O Concelho de Estarreja, n.º 603, 3.5.1913, p. 1.
[33] O Século, n.º 11266, 23.4.1913, p. 1; Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1; S, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3; O Concelho de Estarreja, n.º 603, 3.5.1913, p. 1; CE, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3; O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2.
[34] O Século, n.º 11266, 23.4.1913, p. 1; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3; O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3.
[35] O Século, n.º 11266, 23.4.1913, p. 1; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1; S, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3; O Concelho de Estarreja, n.º 603, 3.5.1913, p. 1.
[36] O Século, n.º 11266, 23.4.1913, p. 1; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1; S, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3; O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3; O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2.
[37] O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2.
[38] O Jornal de Estarreja, n.º 1339, 26.4.1913, p. 1.
[39] Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[40] O Século, n.º 11266, 23.4.1913, p. 1; Os Successos, n.º 1241, 26.4.1913, p. 1.
[41] O Século, n.º 11266, 23.4.1913, p. 1; O Jornal de Estarreja, n.º 1339, 26.4.1913, p. 2; O Concelho de Estarreja, n.º 603, 3.5.1913, p. 1.
[42] Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento.
[43] O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2.
[44] Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3.
[45] O Futuro de Estarreja, n.º 46, 24.4.1913, p. 2.
[46] O Jornal de Estarreja, n.º 1339, 26.4.1913, p. 1; O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3.
[47] O Concelho de Estarreja, n.º 603, 3.5.1913, pp. 2 e 3; O Povo da Murtosa, n.º 398, 3.5.1913, p. 2.
[48] O Concelho de Estarreja, n.º 603, 3.5.1913, p. 1.
[49] Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento.
[50] Comércio do Porto, 26.4.1913, p. 1.
[51] Correio de Aveiro, n.º 164, 4.5.1913, p. 1; O Povo da Murtosa, n.º 398, 3.5.1913, pp. 1 e 2.
[52] Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[53] Campeão das Províncias, n.º 6258, 3.5.1913, p. 1; Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[54] Os Successos, n.º 1242, 3.5.1913, pp. 2-3.
[55] Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento.
[56] Correio de Aveiro, n.º 166, 18.5.1913, p. 1.
[57] O Comércio do Porto, 30.4.1913, p. 1; Campeão das Províncias, n.º 6257, 31.4.1913, p. 1; Correio de Aveiro, n.º 163, 27.4.1913, pp. 1-3 e suplemento; O Concelho de Estarreja, n.º 602, 26.4.1913, pp. 2-3.
[58] O Povo da Murtosa, n.º 398, 3.5.1913, p. 2.
[59] Os Successos, n.º 1243, 10.5.1913, p. 1; O Concelho de Estarreja, n.º 603, 3.5.1913, p. 3; O Povo da Murtosa, n.º 398, 3.5.1913, p. 1; PM, n.º 400, 17.5.1913, p. 1.
[60] O Concelho de Estarreja, n.º 610, 21.6.1913, p. 3.
[61] Os Successos, n.º 1244, 17.5.1913, p. 2 (principalmente); O Jornal de Estarreja, n.º 1342, 18.5.1913, p. 2.
[62] O Concelho de Estarreja, n.º 605, 17.5.1913, pp. 2-3.
[63] O Concelho de Estarreja, n.º 605, 17.5.1913, pp. 2-3 (principalmente); O Concelho de Estarreja, n.º 606, 24.5.1913, p. 3 (e número anterior); há mais referências, consideradas menos precisas, no Século e na Pátria (Ovar). Outra versão no Campeão das Províncias, n.º 6161, 14.5.1913, p. 1.
[64] O Povo da Murtosa, n.º 400, 17.5.1913, p. 2.
[65] Um exemplo em EGAS MONIZ, A Nossa Casa, 3.ª ed., Câmara Municipal de Estarreja, 2001, pp. 138, 140. Outro em VILAR, Jaime, Histórias Por Contar, Câmara Municipal da Murtosa, 1989, pp. 17-20. Numa notícia de 1929, um marinheiro do posto do Chegado (Murtosa) disparou contra um pescador, matando-o instantaneamente – O Jornal de Estarreja, n.º 2129, 10.2.1929, p. 1.


In “Revoltas populares em Estarreja e Murtosa”, Terras de Antuã, Câmara Municipal de Estarreja, VII, 2013, pp. 81-94.