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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Mais de 60 pessoas foram mortas em Salreu há 210 anos, durante a segunda invasão francesa

(Pormenor do registo paroquial de óbitos de Salreu, 1809)


Os exércitos de Napoleão Bonaparte tentaram conquistar Portugal em três ocasiões distintas, há cerca de dois séculos. Durante a segunda invasão francesa, comandada pelo Marechal Soult, a cidade do Porto foi tomada pelo inimigo, servindo de capital das forças francesas entre 29.3.1809 e 12.5.1809. A ocupação do Norte do país estendeu-se para Sul até ao rio Vouga, ficando instalada em Albergaria-a-Nova uma divisão de cavalaria sob as ordens do General Franceschi.

No propósito de controlar qualquer manobra inimiga, leia-se das tropas inglesas e portuguesas, navegando na Ria de Aveiro, vários militares franceses utilizaram a posição da Senhora do Monte, em Salreu, como ponto de vigia da região. É provável que alguns franceses se tenham instalado durante este período nos limites de Salreu, na Quinta dos Menezes (Casa do Santo). Os mais diversos roubos e violências, característicos das épocas de guerra, praticaram-se nos actuais concelhos de Estarreja e Murtosa, fugindo a maioria da população para lugares distantes ou mantendo-se na ria dentro de barcos, aguardando o regresso da normalidade.

A presença do exército francês provocou igualmente a morte de dezenas de civis, principalmente nas freguesias de Salreu e Beduído. Na sua maioria os populares foram mortos a tiro, do que deixaram testemunho escrito os párocos da época, nos livros de registo paroquial de óbitos. Houve também casos de particular crueldade, do que foi exemplo uma menina de sete anos afogada e um homem com deficiência mental cortado aos bocados pelas espadas dos franceses. No final, apenas em Salreu morreram mais de 60 pessoas, quase todas da freguesia e no mesmo dia, 16 de Abril de 1809 (faz agora 210 anos). Uma boa parte destas vítimas deve ter sido sepultada numa vala comum, próxima da fonte do Picoto. Muitos salreenses de hoje encontrarão entre elas antepassados seus.

Entretanto o ataque do exército britânico e português acabou por ditar a retirada francesa de Albergaria, na manhã de 10 de Maio de 1809, colocando um ponto final na segunda invasão francesa, nos concelhos de Estarreja e Murtosa.

Todavia, este momento tem que ser contextualizado na Guerra Peninsular (1807-1813), período em que Portugal e Espanha combateram os exércitos de Napoleão e que entre nós ficou genericamente conhecido por “invasões francesas”. Da Guerra Peninsular chegaram aos nossos dias outras informações respeitantes aos concelhos de Estarreja e Murtosa: conhecem-se as contribuições para o esforço de guerra em 1808, em cavalos ou destinadas à sua compra, destacando-se a oferta do Prior de Salreu; e houve diversos militares portugueses, originários de ambos os concelhos, combatendo os franceses. Inclusive o Alferes Manuel Marques Pires, que vendo-se aprisionado pelo exército francês fez promessa de construir uma capela na sua terra, dedicada a Nossa Senhora, caso voltasse a conhecer a liberdade. Tendo salvo a sua vida, veio por isso a construir a capelinha particular de Nossa Senhora das Necessidades, em 1819, que ainda se encontra próxima da escola da Póvoa de Baixo.

In 
O Jornal de Estarreja, n.º 4854, 19.4.2019, p. 2

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Rádio Voz da Ria, 30 anos (1987-2017)


Rádio Moliceiro (Pardilhó)

Rádio Moliceiro (Pardilhó)

Em meados da década de 80 proliferaram em Portugal as rádios piratas, e em Estarreja não foi diferente. A certa altura o Estado decidiu aceitar a sua legalização, contudo atribuindo alvará a apenas uma rádio por concelho. Em Estarreja legalizou-se a Rádio Voz da Ria, Emissora Concelhia CRL, resultante da fusão de duas rádios piratas de gente jovem:

a) A Rádio Moliceiro, que funcionava agregada à Associação Saavedra Guedes (Pardilhó), desde 10.6.1986;

b) A Rádio Antena Livre, depois designada Rádio Horizonte, iniciada por três estudantes do 11.º ano, da Escola Secundária de Estarreja, e que funcionava na Casa do Povo de Estarreja, desde o início de 1985.

Agregaram-se mais tarde à Rádio Voz da Ria a Rádio Cultural de Salreu (1985), a Rádio Independente de Salreu (1985) e a Rádio Selecção de Cacia. Também existiram no concelho a Rádio Antuã (1985), em Salreu, e a Rádio Voz de Salreu (1988?).

Em 20.6.1987 ocorreu a assembleia da fundação da Rádio Voz da Ria, nos Bombeiros Voluntários de Estarreja, resultante como se disse da fusão da Rádio Moliceiro e da Rádio Horizonte. As emissões regulares começaram em 4.7.1987, sendo então a Rádio uma cooperativa com 109 sócios dos concelhos de Estarreja e Murtosa, com estúdios em Estarreja e Pardilhó.

A Rádio viveu dificuldades várias ao longo destes 30 anos, que cedo se fizeram sentir. Teve também sucessos, do que se pode destacar a inauguração das actuais instalações, no início do ano 2000, substituindo as que se encontravam no lado oposto da Praça Francisco Barbosa, por cima do Café Brasília, lado nascente.

Manteve sempre uma postura independente, com programação diversificada de interesse local e não apenas colocando a rodar selecções musicais, para ocupar a grelha de programação. Refiram-se os noticiários, os programas de interesse cultural e social ou os programas desportivos.

A Rádio Voz da Ria é, por tudo isto e muito mais, um órgão de comunicação social estarrejense incontornável e precioso.

O Jornal de Estarreja, n.º 4806, 26.5.2017, p. 2

O Mercado Municipal de Estarreja

Padeiras no antigo mercado da Praça de Estarreja (Arquivo Municipal de Estarreja)

Data de 1812 a criação pela Câmara Municipal de Estarreja do mercado, aos domingos de manhã, na praça de Estarreja. Testemunham-no as actas camarárias e um documento do Desembargo do Paço, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, este respeitante a preocupações do Mosteiro de Arouca, donatário da terra. Realizou-se assim, ao longo do século XIX, um mercado aos domingos de manhã, aproximadamente na actual Praça Francisco Barbosa, mas também um pequeno mercado diário, mais vocacionado para os alimentos frescos. É o que informam, entre outros, o Inquérito Industrial de 1865, o Código de Posturas Municipais de 1879 e o Anuário Comercial de Portugal, nos últimos anos do século.

No ano de 1911 o mercado, que até então era aos domingos, passou a realizar-se às quintas-feiras e domingos, conforme informava nesse ano o jornal O Concelho de Estarreja e deve constar nas actas camarárias coevas. Esclarecia em meados do século XX o Anuário Comercial de Portugal que às quintas-feiras havia o mercado geral, enquanto o domingo estava reservado para um mercado próprio e especialmente agrícola. O Jornal de Estarreja noticiava em 1954 que, a partir de Março desse ano, mudariam os dias de realização do mercado, passando a fazer-se às terças-feiras e aos sábados, dias que se mantiveram até hoje.

O projecto do actual mercado de Estarreja é de 1960, da autoria do Arq. António Linhares de Oliveira, do Porto, autor dos projectos de outros edifícios no centro do concelho, que nesta época conheceu profundas alterações urbanísticas. Na verdade, a aquisição da Quinta dos Temudos em 1952, pela Câmara Municipal, serviu o propósito da construção do actual mercado, das Casas dos Magistrados e do Quartel da GNR. Construíram-se ainda as instalações dos Serviços Municipalizados e uma nova rua principal (a actual Avenida 25 de Abril), ficando reservados terrenos para o Quartel dos Bombeiros Voluntários de Estarreja, ampliação dos CTT e um hotel-restaurante, entre outros edifícios, e planeando-se já um Parque Municipal.

A obra do novo mercado, noticiada com profundidade n’O Jornal de Estarreja, constava de seis pavilhões e incluía instalações frigoríficas. Foi adjudicada em 1961 ao empreiteiro Luís Costa, vindo a inaugurar-se em 14.6.1964. Presidia então a Câmara Municipal o Dr. Fernando Elísio Pinto Gomes. Os alimentos frescos (carne, peixe, legumes, ovos, fruta e aves) ocuparam o novo espaço, mas a feira ainda continuou por algum tempo na Praça Francisco Barbosa.

Vem isto a propósito da remodelação do mercado de Estarreja, recentemente iniciada, encerrando temporariamente a Avenida 25 de Abril e por 12 meses (previstos) o mercado, que transitoriamente fica a funcionar no Multiusos (antiga piscina) e estacionamento do Pavilhão Municipal. Entre as principais alterações projectadas foi noticiada a demolição do corpo sul do mercado coberto.

FEIRAS E MERCADOS DAS FREGUESIAS

Na freguesia de Beduído, além do mercado municipal acima descrito e da Feira de Santo Amaro, já abordada noutra ocasião, fez-se em tempos na Areosa uma pequena feira de gado bovino. Sabe-se que a feira de Nossa Senhora da Conceição, na Areosa, era realizada a 7 de cada mês em meados do século XIX, ocorreu igualmente nos dias 8 e finalmente nos dias 9. Era nos dias 9 que se fazia quando foi extinta, em 1901, integrando-se na Feira de Santo Amaro, que passou então a bi-mensal.

Entre o centro de Avanca e o largo de São Sebastião da mesma freguesia, alternou uma pequena feira de gado bovino, nos dias 2 de cada mês, durante a segunda metade do século XIX e início do século XX. Depois de extinta por longos anos, ainda se tentou reactivar em 1928, mas acabou por extinguir-se novamente. Sucedeu-lhe a feira dos 19 no largo de São Sebastião, em 1962, que no ano seguinte a Junta de Freguesia pretendeu instalar num terreno entre as estradas de Santo André e da Aldeia, e acabou por funcionar no mesmo local que o mercado.

Cabe dizer que o mercado de Avanca, às quartas-feiras, começou por realizar-se no largo da igreja, junto à capela de Santo António, desde 1928, e poucos anos mais tarde passou a fazer-se às quartas e às sextas-feiras. Nesse local permaneceu até à década de 1960.

Outras feiras e mercados, há muito extintos, houve em Avanca. A Memória Paroquial de 1758 dá conta da existência de uma feira a 30 de Dezembro, no terreiro da capela de Santo André, que era um «arraial de géneros comestíveis, caixas de madeira, carros e outras coisas de lavoura». Por outro lado inaugurou-se uma feira/mercado em 1919, em Água Levada, nos dias 19 de cada mês, que deve ter tido curta duração.

Os dias dos santos padroeiros foram já dias de feira em Fermelã (29 de Setembro, São Miguel) e em Salreu (11 de Novembro, São Martinho). Nesta última freguesia aceitou a Câmara Municipal que se fizesse uma feira de gado, nos dias 5 de cada mês, no lugar da Senhora do Monte, iniciada em 1914 e que pouco tempo deve ter durado.

Tem Pardilhó ainda hoje um mercado, aos domingos de manhã. Segundo o Pe. Ismael Matos, em 1888 a Junta de Freguesia deliberou sobre o local da venda do peixe à semana, que devia ser o mesmo do domingo. Sinal de que o mercado já se fazia. Sabe-se que em 1903 realizava-se no actual largo da igreja (nascente) mercado diário e maior ao domingo. Só muito recentemente o mercado se mudou do largo da igreja para a sua localização actual, em 2001, sendo o novo espaço inaugurado em 2003.

Mencionou o Dr. José Tavares ter a Câmara Municipal extinguido em 1858 uma feira de gado efémera em Pardilhó. Mais duradoura foi a Feira dos 9, criada em 1911, que passou a ser feita nos dias 9 e 23 a partir de 1927, por determinação da Câmara de Ovar. Mudada esta feira de gado do centro da freguesia para a Quinta do Rezende terminou, como as demais em Portugal, na década de 1980.

Refira-se finalmente que se fez um mercado do peixe em Veiros até finais do século XVIII, que se mudou para Pardelhas a fim de evitar o pagamento dos tributos devidos ao Mosteiro de Arouca.

As feiras de gado terminaram, em Estarreja e em Portugal, na década de 1980. Continuam hoje activos os mercados de Estarreja, Avanca e Pardilhó.


In O Jornal de Estarreja, n.º 4798, 3.2.2017, p. 2

domingo, 22 de novembro de 2015

A primeira referência escrita a Salreu (1076/1106)

A actual freguesia de Salreu tem o seu nome pela primeira vez escrito num documento que lhe é exclusivamente dedicado. Na verdade são dois documentos, mais ou menos similares no seu conteúdo, mas com datas diferentes: uma inscrição no Livro Preto da Sé de Coimbra (1076)[1], e um pergaminho autónomo do Cabido da Sé de Coimbra (1106)[2]. Um será a cópia do outro, não sendo claro qual deles possui a data correcta, como aliás já concluiu um investigador local[3].

Aparte da polémica da data, com uma significativa diferença de 30 anos, existe um contexto de época do nosso país que é preciso notar. O fim do século X ficou marcado pela destruição causada por Almançor e consequente recuo temporário da fronteira cristã, o que no início do século XI facilitou o começo de arbitrariedades de seculares nos bens das igrejas[4]. Durante o século X e principalmente no século XI produziram-se diversos documentos, que constituem as primeiras referências escritas a algumas das actuais freguesias e lugares do concelho de Estarreja e terras vizinhas. A fronteira cristã foi-se dilatando e a reconquista definitiva de Coimbra ocorreu em 1064. Para trás ficavam as terras recém-reconquistadas aos muçulmanos, boa parte das quais nas mãos de presores, que em muitos casos as transmitiram hereditariamente aos seus sucessores. Entre os protagonistas cristãos da Reconquista corria ainda o sangue e a memória da ascendência goda, proveniente dos antigos reinos Visigodo e Suevo. É pois sem surpresa que sejam frequentemente de origem germânica os nomes de pessoas documentados deste período.

No caso em análise quatro herdadores da villa de Sarleu devolveram à igreja local, dedicada a S. Martinho, os passais que até então possuíram. Levantam-se aqui várias questões, às quais importa dar alguma atenção. Primeiro notar que herdadores são proprietários rurais, cuja posse da terra foi obtida por herança. Em segundo lugar a restituição dos passais pelo grupo sugere que sejam também os padroeiros da igreja, sendo este padroado obtido por sucessão hereditária. Em terceiro, o nome da localidade que é Sarleu e não Salreu. Enfim os nomes de origem germânica dos herdadores (Gonçalo Soares, Mendo Oseviz, outro Gonçalo Soares e Ero Soares), que são apenas quatro e destes só três partilhando o mesmo patronímico (Soares = filhos de Soeiro), talvez todos netos dalgum presor que obteve a aquisição originária das terras que eles agora possuíam.

Parte destas questões merece uma resposta autónoma, atento o seu particularismo medieval, que ajude a compreender em toda a sua dimensão o conteúdo do documento, com a mais antiga referência escrita a Salreu. É o que se passa com o topónimo, primitivamente grafado Sarleu, e com a noção do que são passais, herdadores, e herdeiros/naturais/padroeiros. Aproveitamos a oportunidade de se tratar de passais para referir brevemente os passais das restantes freguesias de Estarreja e Murtosa.

TOPÓNIMO SALREU

A generalidade das primeiras menções escritas a Salreu, lugar e freguesia do actual concelho de Estarreja, registam o topónimo como Sarleu (passais em 1076/1106, rol de igrejas em 1220-1238, doação do couto de Antuã em 1257, aforamento e Inquirições em 1284, referência à paróquia em 1279), com excepção para as Inquirições de 1220[5].

É fantasiosa a etimologia francamente divulgada do Sal-a-Reu, proposta por Rocha e Cunha[6]. J. M. Piel defendeu tratar-se Salreu de um antropónimo de origem germânica, de *Sala-redu(s)[7], que no genitivo daria *Salaredi, no que concordou José Pedro Machado[8]. Contudo a explicação peca por não atentar à primitiva forma escrita do topónimo, trocando o R e o L, para o que apontou A. de Almeida Fernandes. Este autor manteve a teoria da origem germânica, porém filiando-a em sarwa «armas» + lews «paz»[9].

Neste entendimento, aliás linguisticamente bem fundamentado, Salreu terá sido no início o nome (de origem germânica) de um possessor rural, da época do domínio godo ou da Reconquista, tornado topónimo quando aplicado às suas terras, no genitivo, com o sentido de posse. O nome dessa propriedade rural, ou villa, sobrepôs-se às vizinhas, seja pela sua maior importância ou por nela se situar a igreja da região.

PASSAIS

Passal é a designação atribuída a uma parcela de terreno, em redor de todas as igrejas paroquiais, cuja existência em Portugal está documentada desde o fim do século IX e terminou com a Primeira República, que confiscou estes terrenos à Igreja. Um primeiro raio de 12 passos em torno da igreja correspondia ao adro actual, com cemitério. Do limite deste círculo media-se um segundo raio, de 72 passos, para terrenos de cultivo destinados ao sustento dos párocos e do culto. Constituíam-se pois de 84 passos de raio os passaes, ou dextros como também se chamaram primitivamente, gozando este espaço da imunidade eclesiástica.

«O nome dextri, adjectivo qualificativo de passus, indica que os passos se contavam com o pé direito e que se tratava de passos romanos ou duplos, equivalentes a dois passos simples. O passo romano continha cinco pés ou cinco pés e meio, de 28 centímetros cada pé. No sistema métrico decimal, cada passus dextros media 1,40 a 1,54 metros, podendo arredondar-se para metro e meio. Assim, os 84 passos davam uma circunferência de uns 126 m. de raio, e, portanto, uma superfície de uns 19.960 m2, quase dois hectares.

Embora os documentos dêem a entender que o círculo de 12 passos e o de 72 formavam um todo de 84 passos de raio, é natural que, muitas vezes, o terreno equivalente aos 72 passos ficasse a certa distância, em terras equivalentes em extensão e qualidade às abrangidas pelos 72 passos de raio»[10].

PASSAIS DAS FREGUESIAS DE ESTARREJA E MURTOSA

Na sequência da Lei da Separação do Estado das Igrejas (1911) procedeu-se ao inventário dos bens cultuais em todas as freguesias. Os passais acabariam confiscados pelo Estado, podendo os terrenos ser utilizados para fins de interesse público, arrendados ou alienados, revertendo para a Fazenda Nacional os lucros que pudessem proporcionar. O fim da posse eclesiástica deixou rasto escrito, consultável no Arquivo Corrente do Ministério das Finanças, e também online[11]. Registam-se apenas algumas referências respeitantes aos passais das freguesias de Estarreja e Murtosa:

1) Avanca – Notícia de 1891 localiza o passal (remanescente) junto à Residência Paroquial, confrontando com o Norte do adro da igreja[12]. Após o inventário de 1911[13], o Ministério das Finanças procedeu à venda da Residência e passal, por arrematação pública que teve lugar em Lisboa em 15 de Dezembro de 1919[14]. O passal voltou mais tarde a ser alienado pela Nestlé[15].

2) Beduído – No inventário de 1911 consta que a igreja de Beduído confrontava com o passal a Norte, Este e Oeste, e com o cemitério a Sul[16]. A rua que fica a Norte da igreja tem hoje a designação de Rua do Passal.

3) Canelas – O passal de Canelas acabou incorporado na Fazenda Nacional em 1924/1925[17].

4) Fermelã – Inclui-se no inventário de 1911 o passal de Fermelã[18].

5) Pardilhó – Situava-se o passal, ou o que dele restava, pouco a Norte da antiga igreja, no lugar do Agro, como ficou registado no inventário de 1911[19] e em notícia de 1918[20].

6) Salreu – Conhecem-se sucessivas notícias do passal, datadas de 1911, 1920-1924 e 1958[21]. O topónimo ainda é utilizado, no fundo da Rua de S. Martinho, zona da antiga igreja[22].

7) Veiros – Alude-se ao passal de Veiros em 1923[23].

8) Bunheiro – Encontra-se o passal no inventário de 1911 e em documentos de 1917 e 1924-1939[24].

9) Monte – Não existiu passal pois a paróquia só foi criada em 1932.

10) Murtosa – O passal da Murtosa está documentado em 1911, 1914, 1923 e 1944-1946[25].

11) Pardelhas – Não existiu passal pois a paróquia só foi criada em 1939.

12) Torreira – Não existiu passal pois a paróquia só foi criada em 1928.

Enfim uma notícia de 1912 alude ao arrendamento dos passais de Beduído, Pardilhó, Murtosa e Salreu, estando então por arrematar Fermelã e Bunheiro[26].

HERDADORES

Os vilãos herdadores aparecem nos séculos XIII e XIV, não nobres mas descendentes dos presores da Reconquista e de pequenos proprietários moçárabes, dos quais teriam herdado os alódios, ou seja, eram possuidores livres de terras. Podiam no entanto ter de pagar géneros e prestar serviços pessoais ao rei. Uns exploravam directamente as suas terras, outros cediam-nas à exploração. Também se podiam chamar herdadores aqueles que detinham o domínio útil sobre uma parcela de terra, aforada com prazo perpétuo, transmitindo-se por isso hereditária e perpetuamente o seu direito. Em qualquer caso trata-se de pequenos proprietários, tendo origem entre os mais ricos destes os cavaleiros-vilãos. Distinguem-se dos vilãos reguengueiros, que eram simples arrendatários dos reguengos (terras régias). Com herdador relaciona-se herdade (hereditas), com o significado de bem de raiz nos séculos IX a XV, o mesmo que casal, quinta, herdamento, prédio rústico, granja, propriedade e aldeia.

HERDEIROS, NATURAIS OU PADROEIROS

Durante o século XI e princípio do século XII as igrejas eram geralmente património de leigos, descendentes dos respectivos fundadores ou dotadores. Estes descendentes tomavam a designação de herdeiros, naturais ou padroeiros[27]. Como bem patrimonial que eram, as igrejas transmitiam-se hereditariamente e podiam ser alienadas, sem intervenção da jurisdição eclesiástica[28]. Os abusos dos herdeiros sobre o património eclesiástico motivaram freio régio, a partir de 1261[29].

BIBLIOGRAFIA

1. FONTES 

ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra (antiga Colecção Costa Basto, n.º 36) – A.D. 1076

ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31 – A.D. 1106

Documentos Medievais Portugueses, ed. Rui Pinto de Azevedo, vol. 3, Documentos Particulares, AD 1101-1115, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1940, doc. n.º 208, pp. 179-180 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31)

Livro Preto: Cartulário da Sé de Coimbra. Apres., introd., not. e bibliog. Manuel Augusto Rodrigues; pref. critérios transcrição e aparatos críticos Avelino de Jesus da Costa. Ed. crítica. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, 1999

Livro Preto da Sé de Coimbra, vol. 1, Arquivo da Universidade de Coimbra, 1977, doc. n.º 103, pp. 150-151 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra)

 “Passais da igreja de Salreu no ano de 1076”, ed. Miguel de Oliveira, Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. II, n.º 6, 1936, pp. 129-130 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra; transcrição e tradução) 

2. ESTUDOS 

LOPES PEREIRA – “Couto e julgado de Antuã”, Arquivo do Distrito de Aveiro, XII, 1946, p. 273

PEREIRA, Marco – Salreu – Património Construído, Junta de Freguesia de Salreu, 2009, pp. 4-6

OLIVEIRA, Miguel de – “Passais da igreja de Salreu no ano de 1076”, Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. II, n.º 6, 1936, pp. 129-130

VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, pp. 320-327 (Igreja) 

2.1. TOPÓNIMO SALREU 

DIONISIO, Sant’Anna (apresentação e notas) – Guia de Portugal, 3.º ed., vol. III – Tomo 1 – Beira. Beira Litoral, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, p. 563

FERNANDES, A. de Almeida – “Toponímia”, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, XXXII, p. 72

FERNANDES, A. de Almeida – Toponímia Portuguesa (Exame a um Dicionário), Arouca Associação para a Defesa da Cultura Arouquense 1999, p. 529

MACHADO, José Pedro, Diccionário Onomástico Etimológico de Língua Portuguesa, 2.ª ed., 1993, p. 1299 (Salreu)

PEREIRA, Marco – Salreu – Património Construído, Junta de Freguesia de Salreu, 2009, pp. 4-6

PEREIRA, Marco – “Os actuais concelhos de Estarreja e Murtosa no século XIII”, Terras de Antuã, VIII, 2014, pp. 157-194

PIEL, J. M. – Os nomes germânicos na toponímia portuguesa, separata do Boletim de Filologia, tomo II e ss., 1936, pp. 196, 257, 258 

2.2. PASSAIS 

COSTA, Américo – Diccionario chorographico de Portugal continental e insular, Livr. Civilização, vol. II, 1930, p. 456 (Angeja)

COSTA, Avelino Jesus da, O bispo D. Pedro e a organização da arquidiocese de Braga, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Dr. António de Vasconcelos, 1959, pp. 342-343

FERNANDES, A. de Almeida – Toponímia Arouquense, Arouca, Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, 1995 (Passal)

FERNANDES, A. de Almeida – Toponímia do concelho de S. João da Pesqueira, Arouca, Associação da Defesa do Património Arouquense, 2003, p. 159 (Passal)

OLIVEIRA, Miguel de – As paróquias rurais portuguesas: sua origem e fundação, União Gráfica, 1950, pp. 101-102

VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, pp. 193 (Dextros), 467-468 (Passaes), 468 (Passal) 

2.3. PASSAIS DAS FREGUESIAS DE ESTARREJA E MURTOSA 

BISMARCK FERREIRA, Delfim, e CORREIA, Telma – Avanca e os seus autarcas até à implantação da República, 1836-1910, Junta de Freguesia de Avanca, 2010, p. 142

CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas e capelas das paróquias dos concelhos de Estarreja e Murtosa – Parte I”, Terras de Antuã, IV, 2010, pp. 55-100

CARDOSO, Carlos – Subsídios para uma Monografia Histórica e Descritiva da Freguesia de Avanca, Câmara Municipal de Estarreja, 2000 (1.ª ed. de 1961), p. 55

A Notícia, n.º 11, 12.10.1919, p. 2

PEREIRA, Marco – Salreu – Património Construído, Junta de Freguesia de Salreu, 2009, pp. 4-6, 37

PEREIRA, Marco – História do Centro Paroquial e da Paróquia de Pardilhó, Centro Paroquial de Assistência da Freguesia de Pardilhó, 2012, p. 23

O Povo da Murtosa, n.º 372, 26.10.1912, p. 1

A Voz de Estarreja, n.º 14 (34), 9.12.1919, p. 1 

2.4. HERDADORES 

ALMEIDA, Fortunato de – História de Portugal, 1.ª ed., I, Coimbra, Imprensa Académica, 1899, p. 389

OLIVEIRA, Miguel de – “Inquirições de D. Afonso III na Terra de Santa Maria”, Lusitânia Sacra, Tomo VII, 1964/66, p. 98

OLIVEIRA MARQUES, A. H. de – “Herdadores”, Dicionário de História de Portugal, dirig. por Joel Serrão, III, pp. 213-214

SAMPAIO, Alberto – Estudos Históricos e Económicos – As Vilas do Norte de Portugal, Lisboa, Editorial Veja, 1979, pp. 127 e 146

SOUSA, Gonçalo António Tavares de – Exame da questão sobre os foros do Convento de Arouca no Concelho de Estarreja, Porto, Typ. de J. L. de Souza, s/d (c. 1850), p. 9

VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, pp. 226 (Erdador), 309-312 (Herdade), 312 (Herdador) 

2.5. HERDEIROS, NATURAIS OU PADROEIROS 

CASTRO, Armando de – “Padroados”, Dicionário de História de Portugal, dirig. por Joel Serrão, IV, p. 511

CASTRO, Armando de – “Padroeiros”, Dicionário de História de Portugal, dirig. por Joel Serrão, IV, pp. 511-512

COSTA, Avelino Jesus da, O bispo D. Pedro e a organização da arquidiocese de Braga, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Dr. António de Vasconcelos, 1959, pp. 342-343

GAMA BARROS, Henrique da – História da Administração Pública em Portugal nos séculos XII a XV, 2.º ed. (dirig. por Torquato de Sousa Soares), 11 vols., 1945-1956, vol. III, p. 337

SANTOS, Cândido Augusto Dias dos – O Censual da Mitra do Porto: subsídios para o estudo da diocese nas vésperas do Concílio de Trento, Câmara Municipal do Porto, 1973, p. 100, nota 121

VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, pp. 313 (Herdeiros), 320-327 (Igreja), 436-437 (Natural)

ANEXOS

DOC. 1

S. L. ERA 1114 (A.D. 1076), MÊS DE FEVEREIRO

Gonçalo Soares, Mendo Oseviz, outro Gonçalo Soares e Ero Soares, herdeiros da vila de Salreu, confirmam e restituem o passal que circundava a igreja de S. Martinho daquela villa.

Confirmatjio e integitas passalium de ecclĩa scĩ martini de sárleo .

In dĩ nomine . Nos hereditatores de uilla sarleo . scilic& gundisaluus soariz . et menendus oseuiz . et alius gundisaluus soariz . atque erus suariz . quj usque hodie tenuimus passales de ecclĩa scĩ martini inter nos . modo pac& nobis omnibus prenñatis . ut reintegraremus illam illam (sic) ecclĩam de octuaginta et . IIorII . passibus per omnem circuitum . ut sint semper ad profectum eiusdem ecclĩe . et clĩco ibi commoranti cunctis temporibus . pro remissione nȓorum peccatorum . et pro amore scĩ martini . Si uº ex hinc aliqui ex nobis supªnnatis uoluerimus hos passales ab illa ecclĩa iure abstollȇ . et hoc factȗ infringere . ut pariat . ccc . soldos illo clĩco qui ibi moratus fuĩt . uel qi suã uocem pulsauerit de parte de illo episcopo. et insuper incidat in pristinã excõmunicatjonȇ . Facta reintegratjoĩs carta mense februario . Era . mª . cª . xª . iiiªi . Nos omnes prennatj (sic) hanc cartam coram idoneos testes roborauimus + + + + Gundisaluus diaconus confirmo . Martinus prior confirmo . Fernandus gunsaluiz testis . Frogia abba confirmo . Fernandus ermigiz testis . Jhoannes presbiter confirmo . Gunsaluus gutierriz testis . Dnĩcus presbiter confirmo . Pelagius esarkiz testis . Petrus presbiter confirmo . Jvlianus presbiter Notuit . Menendus archidiaconus confirmo .

Livro Preto da Sé de Coimbra, vol. 1, Arquivo da Universidade de Coimbra, 1977, doc. n.º 103, pp. 150-151 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra)

DOC. 2

1106, FEVEREIRO. – Gonçalo Soares e outros restituem à igreja de S. Martinho de Salreu (c. Estarreja) uma cêrca de oitenta e quatro «passais»

T.T. – Sé de Coimbra, m. II, doc. 31, or. vis. trans.

In Dei nomine. Nos hereditatores de uilla de Sarleo, scilicet Gundisaluus Suariz et Menendus Oseuiz et alius Gundisaluus Suariz atque Erus Suariz qui usque hodie tenuimus passales de ecclesia Sancti Martini inter nos modo placet nobis omnibus prenominatis ut redintegraremus illam ecclesiam de octuaginta et IIII.or passibus per omni circuitu (per omni circuitu entrelinhado) ut sint semper ad profectum eiusdem ecclesie et clerico ibi commoranti cunctis temporibus pro remissione nostrum peccatorum et pro amore Sancti Martini. Si uero ex hinc uni ex nobis prenominati uoluerint hos passales ab illa ecclesia iure abstollere et hoc factum infringere ut pariet trecentos solidos illo clerico qui ibi moratus fuerit uel qui suam uocem pulsauerit de parte de illo episcopo et insuper incidat in pristinam excomunikatjonem. Facta redintegratjonis carta mense Februario Era M.C.X˘.IIII. Nos omnes prenominati hanc cartam coram idoneos testes roboramus + + + +.

Gundisaluus Gutterriz ts., Pelagius Ezrakiz ts. – Fernandus Guaziniz ts., Fernandus Ermigiz ts. – Martinus prior conf., Frogia aba conf., Iohannes presbiter conf., Dominicus presbiter conf. – Petrus presbiter conf., Menendus archidiaconus conf., Gundisaluus diaconus conf.

Iulianus presbiter notuit.

Documentos Medievais Portugueses, ed. Rui Pinto de Azevedo, vol. 3, Documentos Particulares, AD 1101-1115, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, doc. n.º 208, pp. 179-180 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31)

DOC. 3

TRADUÇÃO

Confirmação e entrega dos passais da igreja de S. Martinho de Sarleo (por Salreu).

Em nome de Deus. Nós, os herdadores da vila de Sarleo, a saber, Gonçalo Soares, Mendo Oseviz, outro Gonçalo Soares, e Ero Soares, que até hoje condividimos a posse dos passais da igreja de S. Martinho: apraz-nos agora a todos os sobreditos reintegrarmos essa igreja de 84 passos a toda a volta para que sempre sirvam de logradouro à mesma igreja e ao clérigo nela residente, por todo o tempo, em remissão de nossos pecados e por amor de S. Martinho. Porém, se desde agora alguns de nós acima nomeados quiser subtrair ao direito dessa igreja estes passais e infringir esta resolução, pague 300 soldos ao clérigo que nela morar ou a quem o representar da parte do bispo, e incorra ainda na antiga excomunhão.

Fez-se esta carta de reintegração no mês de Fevereiro de 1114 (ano de 1076). Todos nós acima nomeados confirmamos esta carta perante testemunhas idóneas. Martinho, prior, confirmo; Frógia, abade, confirmo; João, presbítero, confirmo; Onerico, presbítero, confirmo; Pedro, presbítero, confirmo; Mendo, arcediago, confirmo; Gonçalo, diácono, confirmo. Fernando Gonçalves, testemunha; Fernando Ermiges, testemunha; Gonçalo Guterres, testemunha; Pelágio Ezarkiz, testemunha. Julião, presbítero, o notou.

“Passais da igreja de Salreu no ano de 1076”, ed. Miguel de Oliveira, Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. II, n.º 6, 1936, pp. 129-130 (ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra)
 

1076, FEVEREIRORestituição dos passais de S. Martinho de Salreu.
ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra (antiga Colecção Costa Basto, n.º 36)



1106, FEVEREIRORestituição dos passais de S. Martinho de Salreu.
ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31




[1] ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Lv. 6, fl. 49v – Livro Preto da Sé de Coimbra (antiga Colecção Costa Basto, n.º 36).

[2] ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31.

[3] LOPES PEREIRA, “Couto e julgado de Antuã”, Arquivo do Distrito de Aveiro, XII, 1946, p. 273.

[4] VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, p. 324 (Igreja).

[5] PEREIRA, Marco – “Os actuais concelhos de Estarreja e Murtosa no século XIII”, Terras de Antuã, VIII, 2014, pp. 157-194.

[6] DIONISIO, Sant’Anna (apresentação e notas) – Guia de Portugal, 3.º ed., vol. III – Tomo 1 – Beira. Beira Litoral, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, p. 563.

[7] PIEL, J. M. – Os nomes germânicos na toponímia portuguesa, separata do Boletim de Filologia, tomo II e ss., 1936, pp. 196, 257, 258.

[8] MACHADO, José Pedro, Diccionário Onomástico Etimológico de Língua Portuguesa, 2.ª ed., 1993, p. 1299 (Salreu).

[9] FERNANDES, A. de Almeida – Toponímia Portuguesa (Exame a um Dicionário), Arouca, Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, 1999, p. 529.

[10] COSTA, Avelino Jesus da, O bispo D. Pedro e a organização da arquidiocese de Braga, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Dr. António de Vasconcelos, 1959, pp. 342-343.

[11] Consulte-se, a este respeito: CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas e capelas das paróquias dos concelhos de Estarreja e Murtosa – Parte I”, Terras de Antuã, IV, 2010, pp. 55-100.

[12] BISMARCK FERREIRA, Delfim, e CORREIA, Telma – Avanca e os seus autarcas até à implantação da República, 1836-1910, Junta de Freguesia de Avanca, 2010, p. 142.

[13] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., p. 57.

[14] A Notícia, n.º 11, 12.10.1919, p. 2; A Voz de Estarreja, n.º 14 (34), 9.12.1919, p. 1.

[15] CARDOSO, Carlos – Subsídios para uma Monografia Histórica e Descritiva da Freguesia de Avanca, Câmara Municipal de Estarreja, 2000 (1.ª ed. de 1961), p. 55.

[16] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., p. 60.

[17] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., p. 70.

[18] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., p. 71.

[19] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., p. 74.

[20] PEREIRA, Marco – História do Centro Paroquial e da Paróquia de Pardilhó, Centro Paroquial de Assistência da Freguesia de Pardilhó, 2012, p. 23.

[21] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., pp. 77, 82, 83.

[22] PEREIRA, Marco – Salreu – Património Construído, Junta de Freguesia de Salreu, 2009, pp. 4-6, 37.

[23] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., pp. 87 e 97.

[24] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., pp. 88, 91 e 92.

[25] CÁLÃO, Hugo – “Os inventários das igrejas…”, cit., pp. 87, 94, 97 e 98.

[26] O Povo da Murtosa, n.º 372, 26.10.1912, p. 1.

[27] VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram…, 2.ª ed., vol. II, Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865, pp. 320-327 (Igreja).

[28] GAMA BARROS, Henrique da – História da Administração Pública em Portugal nos séculos XII a XV, 2.º ed. (dirig. por Torquato de Sousa Soares), 11 vols., 1945-1956, vol. III, p. 337.


[29] CASTRO, Armando de – “Padroeiros”, Dicionário de História de Portugal, dirig. por Joel Serrão, IV, pp. 511-512.



Marco Pereira

In Terras de Antuã, Câmara Municipal de Estarreja, IX, 2015, pp. 157-165.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Igreja de S. Martinho de Salreu

No mais antigo documento escrito que chegou aos nossos dias com o nome de Salreu, então na forma de “Sarleo”, consta já a sua igreja dedicada a S. Martinho de Tours. Tem este documento duas versões, ambas actualmente à guarda do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Uma, com a data de 1076, está no Livro Preto da Sé de Coimbra, fl. 49, de cujas primeiras linhas reproduzimos a imagem anexa. A segunda versão, datada de 1106, é um documento avulso do Cabido da Sé de Coimbra, Documentos particulares, 1.ª incorporação, mç. 2, doc. 31. O texto que aí se encontra refere-se a um conjunto de herdeiros de propriedades rurais, na zona de Salreu, também descendentes dos fundadores da respectiva igreja, à qual entregam terras de cultivo ao seu redor.

A igreja anterior à actual, provavelmente aquela primitiva de 1076, ficava ao fundo da rua de S. Martinho, no sítio do Adro-Velho, justamente rodeado pelos terrenos que ainda hoje se chamam de Passal, uma reminiscência dos passais doados em 1076 e que contribuíram para o sustento do culto até ao século XIX.

Entre 1663 e 1668 começou a construção da actual igreja, substituindo a antiga que se encontrava em mau estado. Deve ter sido inaugurada em 1673, pois é a data que ficou registada na pedra por cima da sua porta principal, e é também o que consta na Memória Paroquial de 1721. Aí é caracterizada a igreja como sumptuosa, acrescentando-se ter sido construída pelo povo sem ajuda. Porém a edificação da capela-mor, que era devida ao prior, ainda estava por fazer em 1673.


Na Memória Paroquial de 1721 registam-se quatro altares, além do de São Martinho na capela-mor: N. S. Rosário, Senhor dos Passos, Almas, e Espírito Santo. A Memória Paroquial de 1758 aponta diferenças, indicando o Santíssimo Sacramento, Nossa Senhora do Rosário, Espírito Santo, e Santo Cristo, e acrescenta a existência das irmandades dos Passos e das Almas.

Em algumas corografias e dicionários geográficos portugueses do século XIX salientam-se as características do edifício, designadamente o ser uma «grande egreja de naves» (está dividida em três anves), ter bons ou óptimos passais, e boa casa de residência paroquial.


Ao longo dos anos vários restauros se fizeram na igreja. Um dos principais ocorreu cerca de 1878, quando se alterou a fachada, abriram-se novas janelas, foi ampliada a capela-mor e alteada a torre, construídos anexos e aplicados estuques. Entre as obras de vulto mais recentes salientam-se as concluídas em 1990.

In O Jornal de Estarreja, n.º 4678, 22.11.2013, p. 2